A violência política de gênero não se revela apenas nos grandes escândalos nacionais. Muitas vezes, ela se instala de forma sutil, quase imperceptível, infiltrando-se nos discursos, nos gestos e nas entrelinhas, como uma sombra persistente que tenta diminuir a presença feminina onde ela, por direito, deve florescer.
Em um ano eleitoral, essa reflexão ganha contornos ainda mais urgentes. A democracia se fortalece na pluralidade, e a participação feminina na representação política não é apenas desejável: é essencial. Trata-se de garantir que a sociedade, em toda a sua diversidade, esteja refletida nos espaços de decisão. No entanto, o que se observa, reiteradamente, é que o caminho das mulheres na política ainda é marcado por obstáculos que vão além da disputa legítima de ideias.
É nesse cenário que ecoam, com especial força, as reflexões da Ministra Cármen Lúcia, ao indagar por que a presença da mulher no poder ainda causa estranhamento, e por que a divergência política, quando dirigida a elas, frequentemente assume contornos pessoais, desqualificadores e, por vezes, ofensivos. A mulher que ocupa espaço público ainda parece, para muitos, precisar justificar sua própria existência naquele lugar — como se sua legitimidade estivesse sempre em julgamento.
Exemplos não faltam na realidade brasileira. A ex-Presidenta Dilma Rousseff, durante seu mandato, foi alvo de reiteradas manifestações de cunho misógino, que ultrapassavam o campo político e atingiam sua condição de mulher. A Deputada Federal Maria do Rosário também foi vítima de ofensas públicas que atentavam contra sua dignidade, em episódio amplamente conhecido no cenário nacional. Mais recentemente, diversas parlamentares, como a Deputada Talíria Petrone e a Deputada Sâmia Bomfim, têm denunciado ataques constantes nas redes sociais, muitos deles carregados de violência de gênero, com ameaças e tentativas de intimidação.
Esses episódios não são isolados. Eles compõem um padrão que revela uma tentativa de deslegitimação da mulher na política, não por suas ideias, mas por sua condição.
Quando a crítica abandona o campo do debate e invade a esfera da dignidade, não estamos mais diante de oposição democrática, mas de violência.
A Ministra Cármen Lúcia chama atenção, com sensibilidade e firmeza, para esse fenômeno: a mulher, ao ingressar na vida pública, enfrenta não apenas os desafios do cargo, mas um julgamento permanente de sua presença. É como se, a cada passo, precisasse reafirmar que pertence àquele espaço, e esse é um fardo que não recai, com a mesma intensidade, sobre seus pares homens.
E há um efeito ainda mais silencioso, porém profundamente danoso: o desestímulo.
A repetição de episódios de desrespeito, preconceito e violência simbólica atua como uma mensagem implícita a outras mulheres: a de que a política pode ser um ambiente hostil, onde o custo da participação ultrapassa os limites do razoável. Assim, não apenas se agride quem está, mas se afasta quem poderia vir.
É igualmente necessário afirmar, com clareza, que minimizar essas agressões sob o argumento de que seriam apenas “modo de dizer” ou reduzir a reação das vítimas a “exagero” ou “reclamação excessiva” não é postura neutra, mas sim uma forma de conivência silenciosa, que naturaliza a violência e abre espaço para que outras, ainda mais graves, se enraízem no tecido social.
Sob a perspectiva jurídica, a violência política de gênero encontra vedação no ordenamento brasileiro, especialmente após a Lei nº 14.192/2021, que representa um avanço importante no reconhecimento dessas práticas. Contudo, entre a norma e a realidade, ainda há um intervalo que precisa ser preenchido com mudança cultural, educação política e compromisso institucional.
Em um ano eleitoral, portanto, a reflexão que se impõe é dupla: incentivar a participação feminina e, ao mesmo tempo, garantir que essa participação ocorra em ambiente de respeito e igualdade.
Não se trata apenas de assegurar candidaturas, mas de preservar a dignidade de quem se dispõe a representar.
No fundo, o que está em jogo não é apenas a proteção das mulheres na política. É a própria qualidade da democracia. Uma democracia que silencia, intimida ou desestimula metade de sua população não se realiza plenamente, ao contrário, permanece incompleta, como uma obra interrompida.
E talvez seja esse o ponto mais sensível: cada mulher que resiste, que permanece, que insiste em ocupar seu lugar, não o faz apenas por si. Ela abre caminho. E cada vez que esse caminho é marcado por violência, toda a sociedade perde, não apenas em justiça, mas em humanidade.
É preciso refletir e mudar esse cenário.


