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Crédito não é renda: O risco de parcelar o supermercado e a farmácia no dia a dia

A cena tornou-se rotineira: ao passar as compras do supermercado, abastecer o carro ou comprar um medicamento, o consumidor é confrontado com a oferta de parcelamento “sem juros”. O que parece uma facilidade, no entanto, esconde um risco estrutural para as finanças domésticas: a desorganização do orçamento mensal e a falsa percepção de aumento do poder de compra.

Especialistas alertam que o uso do crédito para despesas ordinárias — aquelas que se repetem todos os meses — é um dos principais gatilhos para o superendividamento.

O “Crediário” das Contas Mensais

Segundo Adriana Marcolino, diretora técnica do Dieese, a utilização do crédito para pagar contas básicas indica uma falha no planejamento ou uma insuficiência da renda real.

  • Bens duráveis vs. Consumo imediato: O crédito deveria ser reservado para produtos de vida longa (eletrodomésticos, eletrônicos) ou de alto valor.
  • Dreno de renda: Ao parcelar o consumo diário, o trabalhador compromete o salário de meses futuros com produtos que já foram consumidos (como comida e combustível), criando um efeito de “bola de neve”.

Ansiedade de Consumo e Estímulo Digital

A economista Katherine Hennings, da FGV, aponta que a oferta fácil de crédito alimenta uma “ansiedade de consumo”, muitas vezes impulsionada por propagandas e influenciadores digitais.

“Temos um comportamento de tentar antecipar ao máximo o que a gente consegue consumir. A parte menos glamourosa, que é fazer as contas, acaba ficando de lado”, diagnostica Hennings.

Os Erros mais Comuns do Consumidor

Estatísticas e economistas listam os equívocos que levam à inadimplência:

  1. Focar apenas na parcela: O consumidor verifica se a prestação “cabe no mês”, mas ignora o custo total do financiamento e o acúmulo de várias pequenas parcelas.
  2. Confundir limite com salário: “Quem ganha R$ 5 mil e tem um limite de R$ 5 mil no cartão não tem renda de R$ 10 mil”, lembra Isabela Tavares, da Consultoria Tendências. O limite é uma dívida potencial, não um acréscimo patrimonial.
  3. Uso de juros caros: Ao perder o controle, o consumidor cai no rotativo do cartão ou no cheque especial, cujas taxas de juros são as mais elevadas do mercado.

Raio-X da Inadimplência no Brasil (2026)

Os dados mais recentes do Banco Central e da Serasa Experian revelam a gravidade da situação:

  • Total de inadimplentes: 81,7 milhões de pessoas.
  • Volume de dívidas em atraso: R$ 238,5 bilhões no Sistema Financeiro Nacional.
  • Perfil do devedor: De cada 100 inadimplentes, 78 recebem até dois salários mínimos.
  • Principais credores: Bancos e financeiras concentram 47,1% das dívidas atrasadas.

Educação Financeira: A Solução Estrutural

Embora programas emergenciais como o Desenrola 2 ajudem a limpar o nome no curto prazo, planejadores financeiros defendem que apenas a educação financeira pode evitar a reincidência.

Carlos Castro, da associação Planejar, destaca que o brasileiro precisa aprender a resistir ao imediatismo. A solução não é apenas quitar a dívida atual, mas mudar a lógica de consumo para evitar que o salário continue sendo “drenado” por juros bancários antes mesmo de cair na conta.

Lucas Bellinello

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