Olinda Altomare Opinião

Sinta a minha voz

“Sinta a Minha Voz” encontra sua força mais delicada justamente no contraste que sustenta a trajetória de Eletta.

Ser a única ouvinte em uma família de surdos não é apenas uma condição: é um lugar de fronteira. Ela habita o intervalo entre dois mundos, traduzindo afetos, mediando silêncios, carregando, por vezes, responsabilidades maiores do que sua idade permite. E, ainda assim, é nesse espaço de tensão que nasce sua identidade mais profunda.

Há um contraponto especialmente tocante: Eletta, que cresce imersa no silêncio afetivo da família, descobre em si uma voz rara, dotada de um timbre singular para o canto. É como se o destino lhe tivesse confiado um dom que, à primeira vista, não encontra eco dentro de casa. E, no entanto, o filme nos mostra que a verdadeira escuta não depende da audição, depende da conexão. Sua voz, ainda que não ouvida, pode ser sentida.

Essa ideia alcança um dos momentos mais belos da obra: a cena em que seu pai lhe pede que cante. Não para ouvir, mas para sentir. Ao tocar a garganta da filha, ele percebe a vibração da voz, como quem lê, com as mãos, aquilo que o som não pode lhe oferecer. É um instante de rara sensibilidade, em que o filme traduz, com precisão poética, o que é empatia: encontrar outras formas de acesso ao outro, reinventar a comunicação, transformar limites em pontes. Ali, o canto deixa de ser apenas música e se torna presença, vínculo, amor palpável.

Paralelamente, o pai de Eletta enfrenta seus próprios desafios ao decidir se candidatar à prefeitura local. Sua trajetória política carrega não apenas os obstáculos naturais de uma campanha, mas também o peso do preconceito e da descrença social diante de sua condição. O filme aborda essa jornada com dignidade, revelando a força de quem insiste em ocupar espaços que historicamente lhe foram negados. Sua candidatura não é apenas um projeto pessoal, é um gesto coletivo, um chamado à inclusão real, à representatividade e à quebra de paradigmas.

Nesse entrelaçamento de histórias, “Sinta a Minha Voz” constrói uma narrativa que fala de coragem silenciosa. A coragem de Eletta em buscar seu próprio caminho sem abandonar suas raízes. A coragem do pai em se colocar diante do mundo, afirmando sua capacidade além das limitações que lhe impõem. E, sobretudo, a coragem de uma família que se reinventa diariamente para permanecer unida.

Assim, a empatia surge como eixo central da narrativa. Ela não aparece como virtude idealizada, mas como exercício diário, por vezes cansativo, por vezes luminoso. Eletta precisa equilibrar seus próprios desejos com as necessidades da família, e é nesse movimento que o espectador percebe a beleza e a complexidade do cuidado. A inclusão, por sua vez, é tratada com naturalidade e profundidade: não se trata apenas de inserir pessoas em espaços comuns, mas de reconhecer suas formas próprias de existir e de se comunicar.

Há uma poesia silenciosa na maneira como o filme revela essas relações. Os gestos ganham protagonismo, os olhares se tornam diálogos, e o silêncio deixa de ser ausência para se transformar em presença significativa.

O espectador é levado a refletir sobre quantas vezes, na vida cotidiana, deixamos de escutar o outro, não por falta de som, mas por falta de atenção verdadeira.

A fotografia aposta em uma luz suave e acolhedora, com enquadramentos íntimos que aproximam o público da experiência emocional de Eletta e de sua família. Há um cuidado especial com os detalhes visuais, as mãos que se movem na linguagem de sinais, expressões faciais que carregam significados profundos, como se a câmera também aprendesse a escutar através da imagem.

A trilha sonora é utilizada com parcimônia e inteligência. Em diversos momentos, ela se recolhe, permitindo que o silêncio conduza a narrativa. Quando presente, surge de forma sutil, quase como um sopro, acompanhando as emoções sem jamais sobrepô-las. Essa escolha valoriza ainda mais a experiência do espectador, que passa a perceber o silêncio não como vazio, mas como linguagem.

O filme, assim, nos convida a uma reflexão profunda: há muitas formas de voz, e nem todas se expressam pelo som. Algumas vibram no toque, outras no olhar, outras ainda na persistência de existir e de ocupar espaços. E talvez, ao final, a mais poderosa de todas seja aquela que nasce do encontro sincero entre as diferenças.

“Sinta a Minha Voz” permanece como uma reflexão que ecoa para além da tela. Ele nos lembra que a inclusão verdadeira nasce do respeito e da escuta sensível, e que a empatia é, acima de tudo, um gesto de aproximação.

Em um mundo muitas vezes apressado e ruidoso, o filme nos convida a algo essencial: aprender a ouvir com o coração aquilo que o silêncio insiste em dizer.
Vale a pena assistir.

@aeternalente

Olinda Altomare

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Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.

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