Projeto une Yôga, arte e tecnologia em experiências gratuitas que propõem novas formas de vivenciar museus e espaços históricos da capital mato-grossense
O museu continua aberto.
Visitantes circulam, observam as obras, atravessam salas. Não há caixas de som nem uma voz disputando espaço com o ambiente. Em meio à visitação, um grupo pratica Yôga em silêncio. Cada participante usa um fone de ouvido, por onde chegam a condução da aula e a música.
A cena aconteceu em Cuiabá.
É assim que Marielly Camargo, instrutora de Yôga desde 2007 e fundadora do Espaço Yôga Cuiabá, começa a desenhar uma nova relação entre sua prática e os espaços culturais da cidade.
Criado por ela, o Yôga, Arte e Cultura por Marielly Camargo leva a museus e espaços históricos o formato conhecido internacionalmente como Silent Yoga: uma prática coletiva em que a experiência sonora acontece individualmente, por meio de fones sem fio.
“Quero levar o Yôga para dentro desses espaços sem modificar sua essência ou sua dinâmica. A proposta é somar”, diz Marielly.
A primeira edição foi realizada em julho de 2026, no Aquário Municipal de Cuiabá. A segunda ocorreu em 8 de agosto, no Museu da Caixa d’Água Velha, na manhã que também marcou a abertura de “Pantanal em Mim”, exposição da artista Adaiele Almeida.
A escolha dos lugares é parte central da proposta. O museu não funciona como cenário. Enquanto os participantes acompanham a prática pelos fones, exposições e visitação podem seguir normalmente.
“Os fones proporcionam concentração, conexão e uma experiência diferente com a prática. Ao mesmo tempo, permitem que a aula aconteça de forma silenciosa e respeitosa dentro dos espaços culturais.”
Uma porta de entrada para a cultura
A proposta toca em uma questão que acompanha museus e instituições culturais: como estabelecer vínculos com públicos que não necessariamente chegam até eles pela programação convencional?
Marielly vê no Yôga uma dessas possíveis portas.
“Muitas vezes, alguém participa inicialmente pela experiência do Yôga e acaba conhecendo um museu, uma exposição, um artista ou uma parte da história da própria cidade.”
É uma lógica simples e potente. O primeiro motivo para entrar em um museu não precisa ser o mesmo que fará alguém voltar.
A prática introduz também outra temporalidade nesses espaços.
Em uma rotina marcada por telas, notificações e estímulos permanentes, os fones são utilizados, paradoxalmente, para diminuir o ruído.
“Vivemos em uma sociedade que nos convida o tempo inteiro a acelerar, produzir e estar conectados a tudo. O Yôga nos convida ao movimento contrário: respirar, desacelerar, perceber o corpo, organizar os pensamentos e viver verdadeiramente o presente.”
Dentro de um museu, essa pausa ganha outra dimensão. A atenção dirigida ao próprio corpo passa a conviver com aquela dedicada à arte, à arquitetura e à memória.
“A arte nos convida a contemplar. A cultura nos conecta à nossa história. O Yôga nos conecta a nós mesmos.”
De Cuiabá para uma conversa global
Experiências que aproximam Yôga, arte, museus e tecnologias de escuta já aparecem em diferentes países. Ao trazer essa linguagem para Mato Grosso, Marielly procura inseri-la em uma geografia própria, vinculada aos espaços e à identidade cultural local.
“Quero mostrar que Cuiabá e Mato Grosso também podem estar conectados a movimentos contemporâneos que unem cultura, inovação, tecnologia, saúde e bem-estar, ao mesmo tempo em que valorizamos aquilo que é nosso.”
As duas primeiras edições foram gratuitas, princípio que Marielly pretende manter ao levar o projeto a outros museus e espaços históricos.
A gratuidade faz parte da ideia de aproximação: diminuir barreiras para que alguém possa chegar pelo Yôga e descobrir, no mesmo percurso, um equipamento cultural da própria cidade.
Depois de mais de 18 anos dedicados à prática, Marielly desloca agora seu trabalho para um território mais amplo.
Não se trata apenas de levar uma aula a um endereço incomum.
Trata-se de criar novas razões para entrar, permanecer e voltar.
“Mais do que realizar aulas, quero criar experiências capazes de transformar a maneira como as pessoas se relacionam consigo mesmas, com a arte, com a cultura e com os lugares que contam a nossa história.”
Quando os fones são retirados e os tapetes recolhidos, o museu permanece.
Talvez esteja justamente aí o propósito: fazer com que quem chegou pelo Yôga tenha uma razão para permanecer ligado ao lugar.





Fotos: Reprodução/Divulgação



