Quando o Fernando Henrique disputava com o Lula a Presidência da República em 1994 e 1998, quase não existiam a direita radical e a esquerda fanática espalhadas pela sociedade. O Fernando Henrique se dizia social-democrata e era sereno e sensato. O Lula já se mostrava radical e verborrágico.
Entre os demais concorrentes nesses pleitos destacava-se o Orestes Quércia do PMDB, que apresentava uma posição de centro ou centro-direita. Outro candidato, o Enéas Carneiro, fez uma campanha folclórica com suas românticas ideias nacionalistas, alardeando que a exploração do nióbio poderia salvar a economia do país.
Teve ainda o Leonel Brizola, que já estava em fim de carreira e vivia repetindo exaustivamente que o problema do Brasil eram as “perdas internacionais.” Além desses, havia o Ciro Gomes, que passou por diversos partidos e, apesar da idade, continua o mesmo destemperado de sempre.
Bons tempos esses em que os partidos e os eleitores só tinham rivalidades políticas, não afetivas. Ou seja, estavam ideologicamente em campos opostos, mas não se odiavam.
Mas eis que em 2002, após três derrotas consecutivas, o Lula – disputando outra vez com o PSDB, desta vez representado pelo José Serra – vence a eleição já no primeiro turno. Nas três eleições seguintes, o PT continua vitorioso, superando nos votos o Geraldo Alckmin, o José Serra (outra vez) e o Aécio Neves.
Mas o PT não soube lidar com o sucesso e lambuzou-se com o melado que não sabia comer. Descoberto pela operação Lava-Jato, foi punido e abriu caminho para a direita assumir o poder. Mas esta, pela sua inépcia, devolveu o presente ao Lula.
Mas, por que razão, em tão pouco tempo, o Brasil foi dividido em duas tribos inimigas que se odeiam mutuamente? É certo que o começo das hostilidades deve ser imputado ao Lula e depois ao Bolsonaro, mas me parece que estes dois, ou quaisquer outros, não teriam força suficiente para fazer a divisão se não houvesse acontecido um fenômeno inaudito na política: as redes sociais.
Elas permitiram a reprodução moderna das tribos antigas que habitavam um espaço comum, onde cultivavam crenças e costumes mantendo-se refratárias a influências de outros agrupamentos. Os grupos de WhatsApp de esquerda ou de direita são como estas tribos, pois pensam politicamente da mesma forma e estão vacinados contra qualquer ideia discordante.
Estes círculos fechados se consideram suficientemente informados a ponto desprezar os meios tradicionais de divulgação de notícias, quais sejam jornais, revistas, televisão ou rádio. Essas mídias centenárias são consideradas tendenciosas, mal-intencionadas ou “vendidas”.
Para eles (os internautas) bastam os posts fantasiosos que circulam nos grupos de WhatsApp e as opiniões rasas dos influenciadores digitais.
Dos políticos citados acima Orestes Quércia, Enéas Carneiro e Leonel Brizola já morreram. Fernando Henrique e José Serra, velhos e adoentados saíram da política. Geraldo Alkmin e Aécio Neves (ambos moderados) estão na ativa.
O boquirroto Ciro Gomes continua falando asneiras e o Lula, ainda saudável apesar dos 80 anos, busca o quarto mandato. Ele insiste em de afundar o país em dívidas. Seu lema íntimo deve ser: quebro o Brasil, mas me reelejo.
Renato de Paiva Pereira


