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Tensão e emoção marcam depoimento contra tenente Izadora Ledur

Aconteceu na última sexta-feira (14) na 11ª Vara Militar do Fórum de Cuiabá, o depoimento de testemunhas de acusação contra a tenente do Corpo de Bombeiros Izadora Ledur de Souza Dechamp, suspeita de ter participação na morte do aluno-soldado Rodrigo Claro, 21, durante um treinamento militar na Lagoa Trevisan, no dia 10 de novembro de 2016. O depoimento foi tomado por emoção e discussão calorosa entre defesa da oficial e testemunhas de acusação.

O depoimento mais emocionante da tarde foi o de Jane Patrícia Lima Claro (mãe de Rodrigo), que durante as declarações prestadas ao juiz Murilo Moura Mesquita parou por diversas vezes tomada pelo choro ao lembrar o filho morto e as últimas cenas vistas do jovem internado no hospital.

Promotor do Ministério Público, Allan do Ó Souza pediu que Jane contasse o que se lembrava do fatídico dia em que aconteceu o incidente com Rodrigo durante o treinamento. “No dia em que ele saiu de casa, eu dei um abraço forte no Rodrigo, o vi pegando a moto e saindo de casa e não sabia que aquela seria a última vez que eu o veria”, contou Jane.

Jane continuou seu depoimento informando que o filho já estava com medo de Izadora e que Rodrigo constantemente relatava que a oficial o perseguia durante os treinamentos aquáticos. “Eu sempre o incentivava e dizia ‘meu filho, pode ir confiante em Deus, que ela não vai ser capaz de fazer nada com você’”, revelou.

No dia em que Rodrigo foi encaminhado ao hospital após passar mal durante o curso, Jane relembra que recebeu uma ligação do cabo BM Joilson perguntando se o aluno teria alguma alergia a algum tipo de medicamento, o que a preocupou.

“Antes da ligação o Rodrigo tinha me mandado uma mensagem escrita ‘mãe, eu não consegui, estou mal pra c******’. Depois que o cabo Joilson me ligou informando que meu filho estava em atendimento médico, me desesperei, eu pedia a todo instante para falar com ele, porém o cabo não deixava e só informava que ele estava bem”.

Jane contou que ligou para o seu marido, o 2º tenente do Corpo de Bombeiros Antônio Claro, informou a ele a situação e que Antônio, quando chegou ao hospital, informou que Rodrigo teve a primeira convulsão e em seguida foi transferido para um hospital particular da capital.

A mãe de Rodrigo, ainda muito emocionada, disse que seu filho foi morto por pura maldade, “Rodrigo não fez mal a ninguém. Rodrigo foi morto por pura maldade, o que a tenente Ledur fez com meu filho foi uma barbaridade”.

Ainda em seu depoimento, Jane lembrou os últimos dias na presença do filho: “eu ficava conversando com meu filho no hospital e ele sem nenhum tipo de reação ou sinal. Enquanto ele vegetava, eu conversava com ele como mãe. Um médico chegou a me dizer que se meu filho saísse daquela teria graves sequelas, perderia todos os movimentos e ficaria na cama para sempre, tudo isso devido à falta de oxigênio que sofreu durante as torturas praticadas por Ledur”, contou, muito emocionada.

Depois de ser ouvida, Jane foi liberada, porém do lado de fora da sala de audiência a pressão dela baixou devido à forte emoção sofrida durante o depoimento e ela precisou ser socorrida por uma equipe médica; passou a noite em um hospital de Cuiabá, em observação.

Outro depoimento que marcou pela emoção foi o Antônio Claro, que disse que desde que o filho morreu ele está afastado das atividades de bombeiro militar e que sente até dificuldade para voltar a usar o uniforme de bombeiro novamente.

“Os senhores podem ver que eu estou aqui prestando depoimento e não estou fardado, pois não consigo mais colocar minha farda. Para ser bem sincero aos senhores, eu já pensei em tirar a própria vida, mas em sonho Rodrigo me disse para não fazer isso e, com a força em Deus, estamos lidando com essa perda".

Antônio disse também que o filho era uma boa pessoa e que queria apenas realizar o sonho de ser bombeiro. “Era o sonho dele, e quando ele passou no concurso e escolheu o nome de guerra, disse que iria usar o mesmo que o meu, Claro, e relatou: ‘pai, escolhi o Claro, pois sei que uma hora o senhor vai se aposentar, e eu quero dar continuidade à história que o senhor fez como bombeiro, vou honrar o nosso nome como você fez’. Era esse o desejo dele ser bombeiro para ajudar as pessoas”.

O oficial afastado por problemas de saúde informou que pelo que os colegas de curso relataram a ele que o que foi feito na Lagoa Trevisan não foi apenas um simples treinamento e sim uma sessão de tortura contra seu filho.

Acusação versus defesa

O soldado Thiago Serafim Vieira também prestou depoimento naquela tarde como testemunha de acusação e teve um embate durante o interrogatório feito pelo advogado de Izadora Ledur.

Após prestar os esclarecimentos ao juiz e promotor do MP, Thiago foi confrontado pelo advogado Huendel Rolim, que faz a defesa da oficial. Huendel perguntou a Thiago se o que aconteceu durante o treinamento não seria normal e Thiago não gostou do questionamento.

“O que você acha? A pessoa pulando em cima de você e jogando água na sua cara, é normal?”. O advogado respondeu: “não sei, eu não fiz curso para bombeiro, você fez”. Thiago respondeu: “então, se você não fez, eu estou te falando”.

O advogado aumentou a voz e pediu que o militar respondesse somente sim ou não, sem retrucar. Thiago ficou em silêncio, encarando o advogado, e perguntou por que o jurista estava alterando a voz. “Você perguntou, eu estou respondendo. Não sei por que você está alterando a sua voz, fala baixo que eu respondo”, disparou.

Thiago ainda explicou, em seu depoimento, que Izadora era intimidadora e que os alunos tinham medo e não respeito pela oficial. “Se ela soubesse que algum aluno era ruim na água, aí que ela judiava mesmo, começava a pegar no pé, tenho certeza que se eu fosse ruim na água também teria sido perseguido por ela”.

Questionado sobre o que aconteceu na água, ele disse que a tenente Ledur passou a dar caldos em Rodrigo.  Ele pedia insistentemente para a tenente parar os caldos, porém ela continuava.  Para não deixar Rodrigo morrer afogado, Maiuson mergulhava e subia novamente, empurrando Rodrigo com a tenente em cima dele, para que a vítima pudesse respirar.

O promotor Allan do Ó Souza disse que as cenas descritas eram um verdadeiro cenário de filme de terror.

Depressão é peça de sua defesa

A tenente já apresentou nove atestados alegando problemas de saúde, por conta desses atestados, o Conselho de Justificação, que julgará se a oficial pode ou não ser exonerada do Corpo de Bombeiros por conta da morte do aluno, fica paralisado. A defesa de Ledur alegou que a tenente tem passado por depressão e problemas psicológicos que a impossibilitam de voltar às atividades funcionais.

A tenente do Corpo de Bombeiros, mesmo afastada das atividades por conta dos atestados, continua recebendo o seu salário integralmente, hoje no valor de R$ 14.824,59. Nas mídias sociais, a mãe do aluno bombeiro que faleceu durante o treinamento com Ledur mostrou-se indignada com a decisão de uma possível aposentadoria da oficial.

“Resta a você fingir que está passando por uma depressão profunda e quem sabe conseguir, com a ajuda de pessoas influentes, futuramente, uma aposentadoria mediante reserva remunerada. Fique sabendo que conseguimos ludibriar os homens, porém, a Deus, esse ninguém consegue trapacear”, diz parte de uma publicação realizada pela mãe de Rodrigo.

A morte de Rodrigo

Dia 10 de novembro de 2016 e o cenário era a Lagoa Trevisan, em Cuiabá. Alunos realizavam treinamento do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso. Depois de sofrer uma sessão de tortura com caldos e humilhações, Rodrigo teria engolido muita água e vomitou bastante na beira do lago.

Ele alegou estar sentindo fortes dores na cabeça e pediu para ser liberado, indo por conta própria até a Policlínica do bairro Verdão, onde recebeu o primeiro atendimento e ali se notou que a situação do jovem era gravíssima.

O jovem Rodrigo morreu após cinco dias internado no Hospital Jardim Cuiabá, na capital. Ele deu entrada no hospital com aneurisma cerebral. O jovem já havia comunicado sua mãe sobre a conduta da oficial com ele. Rodrigo afirmara que ocorreram outros casos e que as sessões de afogamento eram comuns. Outros alunos que estiveram no curso confirmaram a perseguição da tenente com o então aluno.

Rodrigo, no dia da aula na Lagoa Trevisan, horas antes chegou a enviar uma mensagem no celular de sua mãe relatando que estava com medo da aula e de Izadora Ledur, que estava pressentindo que algo não acabaria bem naquela tarde. Desde então a família busca por justiça e luta pela condenação da tenente.

 

Redação

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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