Eles são vistos como boas pessoas que vivem a “serviço de Deus”, porém alguns têm mesmo é usado a confiança dos fiéis para abusar sexualmente de crianças. A Delegacia Especializada do Idoso, Criança e Adolescente (Deddica) registrou recentemente algumas dessas ocorrências de estupro e violência sexual praticados por falsos profetas divinos.
Mato Grosso tem índices vergonhosos quando o assunto é violência sexual. Só em casos oficiais, registrados, foram 242 ocorrências apenas entre janeiro e julho deste 2018.
No dia 28 de agosto, policiais da Delegacia Especializada de Defesa da Mulher, da Criança e do Idoso de Várzea Grande (região metropolitana) prenderam o suspeito J.I.C., 53 anos, que atuava como pastor no bairro Mangabeiras e é suspeito de abusar de 10 crianças com idade entre 6 e 14 anos.
Segundo a polícia, o acusado conquistava a confiança das famílias pelo cargo de pastor que ocupava e, depois, assediava as crianças. Quando conseguia cometer os abusos, “pagava” quantias que variavam de R$ 20, R$ 25 a R$ 50. Oito crianças prestaram depoimento ao delegado Cláudio Álvares Sant’Ana, da Deddica, e confirmaram os abusos.
As investigações duraram cerca de sete meses e foram iniciadas em fevereiro, quando ele foi detido acusado de molestar crianças que frequentavam sua igreja. Conforme o boletim, uma das mães desconfiou da mudança de comportamento diário do filho e perguntou o motivo da transformação. A criança então afirmou que o pastor o teria molestado, assim como a vários colegas da igreja.
Ela acionou a Polícia Militar, que conversou com três crianças, de 6, 10 e 11 anos, todos do sexo masculino. Eles confirmaram a versão do primeiro menino. O pastor foi preso e encaminhado à delegacia sem resistir à prisão. A igreja em que ele fingia evangelizar fica no bairro Parque Mangabeiras, em Várzea Grande.
Por se tratar de menores de idade, o Conselho Tutelar foi acionado para acompanhar a ocorrência.
Em um dos depoimentos, uma criança disse que o pastor chegou a cometer abuso contra um menor na frente de outras crianças e, no final do estupro, acabou dando uma quantia em dinheiro aos menores para que não contassem o ocorrido.
Números e solução horrendos
Como o número de abusos contra crianças em Mato Grosso é pra lá de preocupante, a Polícia Judiciária Civil informou que investiga minuciosamente as 242 ocorrências de violência sexual registradas apenas nos últimos seis meses deste ano.
Ao Circuito Mato Grosso, a PJC informou que a Deddica realiza também trabalho preventivo, com apresentação de palestras em escolas do interior e comunidades carentes, distribuindo cartilhas e incentivando a denúncia caso aconteça algum abuso ou maus-tratos.
A Delegacia da Criança e do Adolescente tem um trabalho especial com as vítimas. Em cada caso que chega à delegacia, é feito um acompanhamento psicossocial. O objetivo é ouvir a vítima e analisar o caso sem causar trauma ou dano maior, ainda mais por se tratar de casos especialmente delicados, envolvendo crianças. A Polícia Civil ainda informa que as denúncias podem ser feitas pelo disque 100 ou pelo 197, anonimamente. O trabalho com apoio da população é fundamental para solucionar esses casos.
Infelizmente, os números de abusos acontecidos podem ser ainda maiores, pois várias denúncias chegam diariamente aos Conselhos Tutelares da capital, mas é necessário filtrar e priorizar o atendimento do mais grave para o de menor potencial, devido à falta de equipes em número suficiente para atender à demanda.
Em conversa com o conselheiro tutelar, do 2º Conselho Regional do Pedra 90, Marcivon Nunes, recebemos a informação de que todos os casos que chegam ao conhecimento da equipe são analisados e apurados para que, havendo culpados, os mesmos possam responder pelos crimes e serem punidos.
Atualmente, Cuiabá dispõe de 30 conselheiros tutelares divididos em seis conselhos, sendo que cada um atua com cinco profissionais. O conselho da Regional Pedra 90 atende 58 bairros, inclusive os localizados em zonas rurais da capital. Marcivon explicou que mesmo com a distância e dificuldades de logística, o conselho tem sido atuante.
“Ao receber alguma denúncia, vamos até o local do fato e averiguamos se a informação é procedente ou não. Sendo procedente, por exemplo, em casos de abuso sexual, levamos até a delegacia, em seguida ao Instituto Médico Legal (IML), para realização de exames; sendo constatado o abuso, a vítima é levada a uma unidade de saúde para tomar os remédios e evitar doenças venéreas, em seguida, a vítima é encaminhada ao psicólogo e a denúncia, confirmada ao Ministério Público (MP)”, disse.
O crime de estupro de vulnerável é constituído a partir de qualquer conduta sexual, com ou sem consentimento, com menores de 14 anos, e estende-se a vítimas que podem estar em alguma situação considerada vulnerável, como, por exemplo, apresentar problemas mentais ou estar sob o efeito de drogas ou bebidas alcoólicas.
Outros casos
Um caso que ganhou repercussão em Cuiabá aconteceu em abril de 2017, quando o pastor Paulo Roberto Alves foi preso em flagrante após abusar sexualmente de uma menina de 11 anos de idade na frente da tia da vítima, que também era menor de idade – tinha apenas 16 anos.
De acordo com os militares do 3º Batalhão, eles estavam em rondas próximo à Avenida das Torres quando notaram que uma caminhonete Toyota Hilux deixou duas meninas em um ponto de ônibus na avenida. Ao perceber a presença da polícia, o suspeito acelerou a caminhonete e fugiu do local. Os militares o acompanharam por alguns metros, anotaram a placa do veículo e retornaram ao ponto de ônibus para falar com as meninas.
Em depoimento aos policiais militares, a adolescente confessou que o pastor ligou durante todo o dia insistindo para sair com ela e com a sobrinha de 11 anos e que, depois de muita insistência, elas acabaram cedendo aos desejos pervertidos dele.
O criminoso foi até a residência delas e de lá as levou para casa dele, localizada num condomínio no Jardim Itália, e, segundo a adolescente, foram os três para o quarto dele, local onde ele estuprou com penetração a criança de 11 anos enquanto a menina de 16 assistia ao ato.
No final do abuso, ele deu R$ 100 para a mais velha e R$ 50 para a criança. Os policiais foram até a residência do suspeito e o prenderam em flagrante. Levado até a delegacia, foi reconhecido pelas vítimas como responsável pela atrocidade.
Em julho do mesmo ano, o juiz Jurandir Florêncio Castilho Júnior, da 14ª Vara Criminal de Cuiabá, indeferiu o pedido de revogação da prisão preventiva do pastor. Em seu julgamento, o magistrado disse que, diante da gravidade concreta contra o pastor, é necessária a manutenção da prisão para “manter a ordem pública”.
“Notadamente, considera-se a periculosidade do réu, que demonstra desprezar o bem jurídico tutelado ao buscar a satisfação de sua lascívia com crianças e adolescentes”, disse. O juiz determinou ainda que se informe à Igreja Assembleia de Deus sobre o caso para eventual expulsão.
Já em maio deste ano, um pastor foi preso suspeito de ter estuprado uma criança de 3 anos durante um culto em Primavera do Leste (240 km da capital). O suspeito estava sendo procurado desde 2017 quando praticou o abuso.
Na época dos fatos, a menina participava de culto dentro da igreja, em um momento de oração, quando se aproximou do pastor enquanto brincava no local. Exames médicos realizados pela Perícia Oficial de Identificação Técnica (Politec) confirmaram o abuso e que também a criança foi agredida pelo acusado que tem 61 anos de idade.
Naquela ocasião, alguns fiéis da comunidade evangélica teriam tentado convencer familiares para que não denunciassem o fato. A mãe relatou à polícia ter ficado confusa com a reação da comunidade, sem saber o que fazer.
A mãe da vítima acabou levando a criança até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) depois que a criança reclamou de dores nas partes íntimas. Na consulta clínica houve a constatação da violência sexual e acionamento do Conselho Tutelar, que encaminhou a denúncia à Polícia Civil.
Sargento da PM contrata criminosos para cometerem roubo e sequestro a empresário
Policiais militares do 4º Batalhão realizaram na manhã de terça-feira (4) a prisão de dois criminosos que sequestraram um empresário para roubar dele uma caminhonete Toyota Hilux em frente à loja Auto Peças São Cristóvão, em Cuiabá. De acordo com os suspeitos, eles foram contratados por um sargento aposentado da PM para cometer o crime.
Segundo consta no boletim de ocorrência, o Ciosp acionou a PM e informou sobre um roubo a veículo em que o proprietário foi feito refém e levado com os criminosos. Imediatamente, policiais iniciaram as buscas e, já na Rodovia dos Imigrantes, conseguiram localizar a caminhonete com as características suspeitas.
Os policiais realizaram o acompanhamento e solicitaram que o condutor parasse o automóvel, porém a ordem foi desobedecida. Foi solicitado o apoio do Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer) e demais viaturas.
Já próximo à entrada do bairro Bonsucesso, a equipe obteve êxito na abordagem, sendo constatado que no veículo havia dois suspeitos e a vítima. Durante a busca veicular, nenhuma arma de fogo foi encontrada, sendo localizado, no banco traseiro, somente uma faca e um facão.
A vítima informou que a todo instante os criminosos o ameaçavam de morte e perguntavam se na caminhonete havia rastreador. O suspeito Jean Carlos Barbosa de Arruda Viera, 30 anos, informou aos policiais que um veículo Hyundai HB20 de cor prata dava apoio ao roubo e sequestro e que no automóvel havia mais dois suspeitos identificados como Junior e Victor.
Jean Carlos ainda informou que os quatro criminosos foram contratados por um sargento aposentado conhecido pelo nome de Adão, e que o militar da reserva teria passado as informações sobre a residência, locais e horários e o veículo em que a vítima estaria.
Na Rodovia dos Imigrantes, sentido bairro São Simão, uma equipe da PM que dava apoio à situação visualizou o HB20 com dois ocupantes, os quais, ao perceberem a presença da polícia, empreenderam fuga abandonando o carro.
Uma testemunha relatou que um dos fugitivos seria filho do proprietário da Chácara Moto Bala, na região. O automóvel em checagem constou ser produto de roubo. Além de Jean Carlos, os policiais prenderam o seu comparsa Cleyton da Paixão Souza de Jesus, 35.
A Polícia Civil investiga o caso e irá averiguar se Adão é mesmo policial militar aposentado e tenta localizar os dois suspeitos, que estão foragidos. A vítima acompanhou os policiais na delegacia.
Cleyton e Jean deverão responder pelos crimes de sequestro, roubo, formação de quadrilha, extorsão, lesão e ameaça.

