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Pesquisadores fazem ato em defesa de ex-diretor do Instituto Butantan

Pesquisadores e funcionários do Instituto Butantan prestaram uma homenagem ao médico e professor Jorge Kalil na manhã desta quinta-feira (23). O cientista foi afastado da direção do instituto depois que o presidente da Fundação Butantan pediu demissão e repercutiu o conteúdo de uma auditoria feita há dois anos que apontava irregularidades financeiras e administrativas na instituição durante a sua gestão.

A homenagem foi realizada durante uma solenidade em comemoração aos 116 anos do Instituto Butantan, no auditório do Museu Biológico, na Zona Oeste de São Paulo. O instituto vinculado ao governo do estado de São Paulo é um dos principais centros de pesquisa do país.

Os pesquisadores dizem que Kalil foi afastado por questões políticas, sendo desconsiderado o trabalho que fez. "O instituto se desenvolveu bem nos últimos anos, desde a infraestrutura até a pesquisa. Enfim temos um diretor do tamanho da instituição. Isso é briga de ego. Briga política", afirma a pesquisadora Denise Tambourgi.

"Todos nós apoiamos investigação. Somos pesquisadores, pessoas esclarecidas. Não condenados antes de investigar. Existem muitos compromissos e atividades em andamento que não podem ser interrompidas abruptamente. É prejudicial", disse.

A auditoria interna do Instituto Butantan apontou que Kalil usou cartão corporativo em período de férias e gerou despesas de mais de R$ 30 mil em passagens aéreas para Itália e Porto Rico.

O relatório, de 186 páginas também identificou que entre 2011 e 2014 houve falhas em processos de licitação, aumento de 1.350% no número de empregados na presidência do órgão, construção de uma fábrica de derivados de sangue que nunca operou, além da uma mudança no estatuto da fundação, que transferiria toda a gestão bilionária do órgão para o Instituto Butantan.

Relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE) de São Paulo apontou problema contábil e sumiço de R$ 8 milhões em bens do Instituto Butantan, na Zona Oeste da capital. O documento que analisa dados financeiros e patrimoniais do órgão, ao qual o G1 teve acesso em primeira mão, aponta também inconsistências de valores, diversos pagamentos de multas por atraso de contas e diferenças no controle do almoxarifado.

Kalil
Nesta manhã, Jorge Kalil compareceu ao evento de aniversário do instituto e se despediu dos funcionários, sendo aplaudido de pé e sob gritos de "Fica Kalil!". Ele conversou com o G1 e deu sua versão dos fatos repercutido e dos próximos passos na carreira.

"Montoro (que trouxe a tona o relatório que aponta as irregularidades) saiu porque o conselho do Butantan entendeu que ele estava indo em oposição ao caminho traçado pelo instituto. A fundação é de apoio ao insituto, e não o contrário. Por vaidade ele pediu para sair, e saiu atirando. Esse relatório estava na gaveta porque não havia nenhuma pendência, tudo foi respondido na época. Existe uma má fé na condução deste processo. Quiseram falar da minha idoneidade para me tirar da direção, apesar de tudo o que fiz", disse Kalil. "Sou absolutamente idôneo, trabalho há mais de 35 anos no serviço público em prol da ciência, da medicina e da educação. O que fizeram é um desrespeito e estou muito triste. Sou cientista e procuro a verdade", completou.

Sobre as acusações de viagens ao exterior com dinheiro do instituto, Kalil mostrou documentos que comprovam os convites aos congressos internacionais.

Sobre a fábrica de plasma, que estaria quase pronta, mas não em funcionamento, o especialista explicou que o projeto já estava parado quando é assumiu a direção e que, entre outros entraves, o projeto mal elaborado exigia 130 milhões de Euros para sua conclusão.

"Tenho todos os documentos. Está tudo organizado para que tudo sempre fosse bem feito. Podemos explicar tudo", garantiu. "Não vou continuar no Butantan. Sou professor titular da Faculdade de Medicina da USP e vou continuar com o trabalho. Não existe ambiente para continuar trabalhando aqui", concluiu.

Argumentos
O Secretário da Saúde, David Uip, explicou ao G1 o motivo do afastamento, mas não relacionou diretamente a saída de Kalil com as irregularidades apontadas pelo relatório.

Segundo Uip, Kalil pretendia fazer mudanças na gestão do Instituto Butantan e da Fundação Butantan. O médico pretendia gerir tanto a fundação, que é privada, quando o instituto, que é do Governo do Estado.

"Em novembro de 2015, eu determinei que houvesse duas gestões separadas, uma para a fundação e outra para o instituto. Ao longo de 2016, muitas coisas erradas foram acertadas, até que neste ano, o conselho curador [também presidido por Kalil] decidiu voltar para o modelo antigo, esvaziando a autonomia da fundação", explicou o secretário de Saúde.

Por não concordar com as ações de Kalil, o então presidente da Fundação Butantan, André Franco Montoro Filho, pediu demissão há duas semanas e fez menção ao relatório que indica as irregularidades.

"Não dá [para presidir Instituto e Fundação ao mesmo tempo]. Eu mesmo já assumi as duas gestões e percebi. Devido a essa incompatibilidade, o Montoro pediu demissão e repercutiu denúncias extremamente graves, que devem ser apuradas pela corregedoria, pelo TCE e pela curadoria da fundação", continuou.

Fonte: G1

Redação

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