O que mais me entristece quando penso no Alzheimer e em outras doenças que comprometem a mente não é apenas o esquecimento. É imaginar uma vida inteira sendo apagada aos poucos. Primeiro uma palavra, depois um nome, um caminho conhecido, uma lembrança, o rosto de alguém amado. Como se a nossa história, escrita durante décadas com experiências, afetos, conhecimentos, dores, alegrias e conquistas, fosse perdendo uma frase de cada vez, até restar uma página quase em branco.
Para Sempre Alice mexeu profundamente comigo por isso.
Sempre me assustou a possibilidade de uma pessoa intelectualmente ativa, independente, dona de suas escolhas e de sua própria vida, começar a se perder de si mesma. Talvez porque eu valorize muito a lucidez, a autonomia, a capacidade de pensar, decidir, trabalhar e conduzir o próprio caminho. Existe uma tristeza imensa em imaginar alguém que acumulou tantos conhecimentos e tantas memórias passar a depender de outras pessoas até para os gestos mais simples da existência.
E o filme torna essa realidade ainda mais contundente ao escolher justamente uma mulher cuja vida foi construída em torno do conhecimento.
Alice Howland é professora universitária e especialista em linguística. É uma mulher inteligente, respeitada, articulada, mãe, esposa, profissional realizada e absolutamente independente. Sua relação com o mundo passa, sobretudo, pelas palavras. E são justamente elas que começam a desaparecer.
Primeiro, são pequenas ausências. Uma palavra que não chega. Uma informação que escapa. Um caminho conhecido que deixa de fazer sentido. Falhas aparentemente pequenas, dessas que todos nós experimentamos e muitas vezes atribuímos ao cansaço ou à distração. Mas os vazios aumentam. E aquilo que parecia apenas uma palavra esquecida começa a revelar algo muito maior: Alice está lentamente perdendo o acesso à própria história.
Para mim, essa é a parte mais dolorosa do filme, e da vida.
Porque nossas memórias não são apenas arquivos guardados em algum lugar da mente. Elas contam quem somos. Somos a criança que fomos, as pessoas que amamos, os lugares onde estivemos, as escolhas que fizemos, os erros que cometemos, aquilo que aprendemos e tudo o que superamos. Nossa identidade é também construída por essa longa narrativa que carregamos dentro de nós.
Por isso me parece tão triste imaginar que tudo possa ir desaparecendo.
Os livros lidos. As aulas ministradas. Os aniversários. As viagens. A casa onde se viveu. O nascimento dos filhos. Os amores. As conversas. Os cheiros. As músicas. As pequenas histórias familiares que ninguém mais conhece exatamente como nós conhecemos.
Uma vida inteira escrita dentro de uma pessoa, e, lentamente, as palavras começam a desaparecer da página.
Há momentos em Para Sempre Alice em que essa sensação é quase insuportável porque Alice ainda percebe o que está acontecendo. Existe um intervalo especialmente cruel em determinadas doenças cognitivas: aquele em que a pessoa conserva lucidez suficiente para compreender que está perdendo a própria lucidez. Ela reconhece os vazios. Percebe suas limitações. Sabe quem foi e consegue antever, ainda que parcialmente, quem poderá deixar de ser.
Julianne Moore transforma esse processo em uma atuação extraordinária. Merecidamente vencedora do Oscar de melhor atriz, ela não interpreta apenas uma mulher com Alzheimer. Ela nos permite acompanhar uma pessoa tentando permanecer dentro de si enquanto partes de sua identidade lhe escapam. Sua atuação está nos detalhes: no olhar que procura uma resposta, na pausa antes de uma palavra, na insegurança que começa a ocupar o lugar da antiga confiança, no constrangimento de quem percebe que já não consegue fazer aquilo que sempre fez naturalmente.
Há uma cena particularmente dolorosa em que Alice, ainda lúcida, deixa instruções para si mesma, pensando no momento futuro em que sua capacidade cognitiva estará muito mais comprometida. Para mim, é uma das passagens mais fortes do filme. É como se a Alice de antes tentasse alcançar a Alice do futuro e salvá-la de uma realidade que já não poderá compreender completamente. Mas a doença acaba criando uma distância entre essas duas mulheres que habitam o mesmo corpo.
E talvez seja justamente isso que tanto me assuste: olhar para alguém que conhecemos profundamente e sentir que, embora aquela pessoa esteja fisicamente diante de nós, já não conseguimos encontrá-la inteiramente ali.
Kristen Stewart, como Lydia, constrói com sensibilidade a relação entre mãe e filha. Alec Baldwin, como John, também ajuda a revelar uma dimensão importante da história: doenças como o Alzheimer nunca atingem apenas uma pessoa. A família inteira adoece de outra maneira. Todos precisam aprender a conviver com perdas sucessivas, reorganizar a vida, assumir responsabilidades e, sobretudo, enfrentar a dor de continuar lembrando ao lado de alguém que está esquecendo.
A direção de Richard Glatzer e Wash Westmoreland compreende a força dessa história e evita excessos. Não há necessidade de transformar o sofrimento em espetáculo. A câmera permanece próxima de Alice e, em vários momentos, parece nos colocar dentro de sua desorientação. A fotografia acompanha discretamente esse processo, mostrando um mundo que continua existindo normalmente enquanto, para ela, vai se tornando cada vez menos reconhecível.
Isso também me parece profundamente triste: o mundo não desaparece quando a memória desaparece. A casa continua no mesmo lugar. As pessoas continuam conversando. Os objetos permanecem onde estavam. Os filhos continuam sendo filhos. Mas, para quem perde as referências internas que davam significado a tudo aquilo, o conhecido pode se tornar estranho.
A trilha sonora de Ilan Eshkeri acompanha essa delicadeza. É contida, melancólica e nunca tenta nos dizer quando devemos sofrer. Apenas permanece ali, quase como uma presença silenciosa, enquanto assistimos ao apagamento progressivo daquela mulher.
Mas Para Sempre Alice não permite que confundamos perda cognitiva com perda de dignidade.
E considero essa uma das mensagens mais importantes do filme.
Quando alguém deixa de reconhecer os outros, não deixa de ser alguém. Quando perde a capacidade de organizar pensamentos, não perde o direito ao respeito. Quando já não consegue contar a própria história, sua história não deixa de ter existido.
Talvez seja justamente aí que a memória daqueles que permanecem adquira outro significado.
Quando uma pessoa já não consegue lembrar quem foi, aqueles que a amam passam, de certa forma, a guardar partes de sua história. Os filhos se lembram da mãe que ela foi. O companheiro se lembra da mulher que conheceu. Os amigos carregam conversas, risadas e momentos que talvez já não existam para ela.
É uma ideia bonita, mas que não deixa de ser profundamente triste.
Porque há algo de irrecuperável em uma lembrança que existia somente dentro daquela pessoa.
Talvez seja essa a imagem que permaneceu em mim depois de assistir a Para Sempre Alice: a de um grande livro escrito durante uma vida inteira cujas palavras começam, inexplicavelmente, a desaparecer. Primeiro algumas letras. Depois frases. Páginas inteiras. Até que quase nada daquilo possa mais ser lido por quem originalmente escreveu aquela história.
Uma página em branco, porém, não significa uma vida em branco.
Tudo aconteceu.
Tudo foi vivido.
Tudo teve importância.
Para Sempre Alice me assusta, confesso. Talvez porque me obrigue a olhar para uma das vulnerabilidades humanas que mais me inquietam: a possibilidade de perder a autonomia e, principalmente, de me perder de mim mesma. Mas também me lembra que, diante desse apagamento tão doloroso, existe uma responsabilidade que pertence aos que ficam.
Quando alguém já não consegue contar a própria história, nós precisamos continuar tratando aquela vida como uma história inteira, porque a memória pode se apagar, a inteligência pode se perder, as palavras podem desaparecer, a página pode se tornar branca, mas aquilo que uma pessoa foi, o amor que ofereceu, as vidas que tocou e as marcas que deixou no mundo não podem ser apagados com ela.
Felizes aqueles que, quando a memória já não consegue guardar a própria história, têm ao seu lado quem os cuide e quem perpetue, na própria vida, as páginas do enredo que um dia escreveram juntos.
Vale a pena assistir, e refletir……
@aeternalente

