Olinda Altomare Opinião

O Convite: quando amar também significa aprender a enxergar o outro

O Convite é um filme sobre relacionamentos, mas, acima de tudo, sobre aquilo que acontece com eles depois que a vida real entra pela porta.

Porque se apaixonar talvez seja a parte mais espontânea do amor. Difícil mesmo é continuar enxergando o outro depois que chegam o tempo, a rotina, as frustrações, as responsabilidades e, principalmente, as expectativas que cada um carregava silenciosamente sobre aquilo que imaginava que uma vida a dois deveria ser.

É a partir de um encontro entre casais que o filme constrói uma história aparentemente simples, mas que, aos poucos, vai revelando questões muito mais profundas. À medida que as conversas avançam, também caem algumas máscaras, e percebemos que nenhuma relação pode ser compreendida apenas pelo que mostra do lado de fora.

Casais aparentemente felizes podem carregar distâncias enormes. Relações imperfeitas podem esconder vínculos profundos. E aquilo que julgamos na vida dos outros quase sempre é apenas a pequena parte que conseguimos enxergar.

Essa, para mim, é uma das primeiras grandes provocações do filme: não existe relacionamento visto de fora.

Cada casal constrói uma linguagem própria, feita de histórias que ninguém conhece completamente, de renúncias, cumplicidades, feridas, pequenas delicadezas e também de silêncios que foram se acumulando ao longo dos anos.

E talvez um dos maiores perigos de uma relação comece justamente quando deixamos de perguntar ao outro como ele está porque acreditamos que já sabemos a resposta.

A convivência cria intimidade, mas pode criar também uma perigosa sensação de conhecimento absoluto.

Passamos a acreditar que conhecemos aquela pessoa porque sabemos como toma o café, de que lado da cama dorme, aquilo que a irrita ou o que costuma fazê-la sorrir. Mas seres humanos continuam mudando. Os desejos mudam. Os medos mudam. Os sonhos mudam.

E, amar alguém por muitos anos exige a disposição de conhecê-lo muitas vezes.

Há uma diferença enorme entre conhecer a história de uma pessoa e continuar interessado em descobrir quem ela está se tornando.

O Convite também fala sobre expectativas.

Entramos nos relacionamentos levando conosco modelos construídos ao longo da vida: aquilo que vimos em nossas famílias, aquilo que desejamos repetir, aquilo que juramos jamais reproduzir e até as histórias idealizadas que aprendemos sobre o amor.

O problema começa quando esperamos que o outro corresponda a um personagem que criamos para ele.

Ninguém consegue viver por muito tempo dentro da expectativa de outra pessoa.

Relacionamentos amadurecem quando deixamos de perguntar “por que você não é aquilo que eu esperava?” e começamos a perguntar “quem é você, de verdade, e consigo amar essa pessoa que está diante de mim?”.

Isso não significa aceitar tudo.

Amor não deve ser confundido com anulação, tolerância ilimitada ou permanência a qualquer custo. Há relações que precisam terminar justamente para que as pessoas possam voltar a existir plenamente.

Mas também existem relações que não precisam terminar: precisam de conversa, precisam retirar debaixo do tapete aquilo que foi sendo empurrado durante anos, precisam recuperar a coragem de dizer “isso me machuca”, “sinto sua falta”, “não estou feliz”, “preciso de você”, “precisamos mudar”.

É certo que muitas relações não acabam quando o amor termina: elas começam a acabar quando termina o diálogo.

Por isso o filme nos faça pensar tanto sobre a intimidade. Intimidade não é apenas dividir uma casa, uma cama, contas ou compromissos. Intimidade é poder mostrar ao outro aquilo que existe por trás das nossas defesas. É conseguir ser vulnerável sem transformar essa vulnerabilidade em fraqueza. É poder dizer aquilo que sentimos antes que o silêncio transforme sentimentos pequenos em ressentimentos enormes.

E há outra questão muito bonita na história: nenhum relacionamento permanece igual.

O amor do início não pode ser exigido da mesma maneira depois de muitos anos, porque as próprias pessoas já não são as mesmas e isso não significa necessariamente que o amor diminuiu: algumas vezes, ele apenas mudou de forma.

A paixão pode perder a urgência, mas ganhar intimidade. A novidade pode diminuir, mas surgir em seu lugar uma cumplicidade que somente o tempo é capaz de construir.

O problema não está em o amor mudar, está em não percebermos no que ele se transformou.

Por isso, vejo O Convite também como um filme sobre escolhas.

Existe uma visão romântica segundo a qual encontramos alguém, nos apaixonamos e, a partir dali, o amor se encarrega do restante, mas vida demonstra algo muito diferente.

Depois do encontro existe a convivência. Depois da paixão existem os dias comuns. E é justamente nesses dias, aparentemente sem importância, que uma relação é construída ou abandonada.

Amar é sentimento, mas relacionamento também é atitude.

Está na maneira como ouvimos, na forma como falamos quando estamos magoados, no respeito que mantemos mesmo durante uma discussão, na capacidade de pedir desculpas, na disposição de reconhecer que nem sempre estamos certos, e, principalmente, na decisão de não tratar como garantida a presença de quem escolheu caminhar ao nosso lado.

Tenho convicção de que uma das formas mais silenciosas de perder alguém é exatamente deixar de percebê-lo.

Continuamos dividindo os mesmos espaços, cumprindo os mesmos compromissos e repetindo as mesmas rotinas, mas já não perguntamos o que o outro sente. Já não observamos suas mudanças. Já não reconhecemos seus esforços.

E, com certeza, ninguém deveria se tornar invisível dentro de uma relação construída justamente para ser um lugar de encontro.

O filme também nos convida a abandonar a comparação. Sempre haverá um casal aparentemente mais apaixonado, mais harmonioso, mais divertido ou mais feliz, mas não conhecemos a intimidade das fotografias bonitas.

Não sabemos o que acontece quando as portas se fecham.

Relacionamento não é uma competição sobre quem parece mais feliz. É uma construção profundamente particular entre duas pessoas que precisam encontrar uma maneira possível e saudável de caminhar juntas.

A pergunta mais importante não é se existe um relacionamento perfeito: não existe.

A pergunta é se existem duas pessoas dispostas a olhar honestamente para aquilo que construíram e perguntar: ainda queremos estar aqui?

Se a resposta for sim, esse “sim” precisa significar alguma coisa.

Precisa significar presença, escuta, respeito, desejo de mudança quando a mudança for necessária, porque permanecer apenas por permanecer não é necessariamente uma prova de amor, na maioria das vezes é apenas medo, hábito ou acomodação.

Relacionamentos verdadeiros precisam conservar algum espaço para a escolha.

Escolher novamente aquela pessoa, não porque ela seja perfeita, mas porque conhecemos suas imperfeições e ainda reconhecemos nela alguém com quem desejamos dividir a vida.

Ao meu ver, essa é a reflexão mais bonita deixada por O Convite: um relacionamento não se sustenta apenas pelo amor que um dia uniu duas pessoas, mas pelo cuidado que elas continuam oferecendo àquilo que construíram e querem continuar construindo juntas.

O grande convite do filme é exatamente esse: olhar novamente para quem está ao nosso lado, para aquilo que deixamos de dizer, para as pequenas distâncias que permitimos crescer, e também para tudo aquilo que, apesar do tempo, ainda permanece.

Sinto que amar alguém durante muitos anos não significa simplesmente continuar ao seu lado, significa, de tempos em tempos, conseguir olhar para aquela pessoa — agora diferente, marcada pela vida, pelos erros, pelas alegrias e pelas cicatrizes — e ainda encontrar razões para dizer:

eu continuo escolhendo você.

Vale muito a pena assistir

@aeternalente

Olinda Altomare

About Author

Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.

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