DESTAQUE 3 Justiça

MP processa prefeito de São José dos Campos por favorecer amante com cargos públicos

Anderson Farias e servidora são alvos de ação por improbidade administrativa; escândalo mistura traição, boletins de ocorrência e crise familiar na política paulista

O Ministério Público de São Paulo (MPSP) abriu uma pesada ofensiva judicial contra o atual prefeito de São José dos Campos, Anderson Farias Ferreira, e a servidora municipal Milena Guimarães Coelho. A denúncia aponta para um suposto esquema de “nepotismo afetivo”, onde o chefe do Executivo teria usado a máquina pública para beneficiar Milena com cargos comissionados e funções de confiança enquanto os dois mantinham um relacionamento amoroso extraconjugal.

A ação foi movida pela 7ª Promotoria de Justiça da cidade e escancara a confusão entre interesses privados e a gestão pública. Anderson assumiu o comando da prefeitura ao suceder Felício Ramuth (MDB), atual vice-governador do estado de São Paulo.

“A confusão entre os cargos públicos municipais e as relações amorosas do sr. Anderson Farias deveria ter sido evitada […] revelando-se manipulação das funções públicas para benefício pessoal e favorecimento ilegítimo”, destacou a promotora Ana Cristina Ioriatti Chami na peça processual.

A Rota do Favorecimento e as Punições Exigidas

Milena ingressou originalmente na prefeitura como enfermeira concursada. No entanto, o MPSP aponta que sua ascensão a posições estratégicas coincidiu com o envolvimento afetivo com o prefeito, o que viola frontalmente os princípios da impessoalidade e da moralidade, seguindo o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) para casos de nepotismo, mesmo sem vínculo formal de casamento.

As apurações destacam uma série de nomeações sob suspeita garantidas pelo Executivo:

  • Ouvidoria da Saúde: Cargo de confiança exercido entre 2022 e 2024.
  • Junta de Recursos: Participação garantida por meio de decretos assinados diretamente pelo próprio prefeito.
  • Urbam: Indicação para integrar o Conselho de Administração da empresa municipal responsável pela limpeza urbana.

A Promotoria também investiga uma suposta jornada dupla irregular, apurando se as horas trabalhadas na prefeitura conflitavam com os horários de atuação da servidora em uma clínica particular de estética (acusação que ela nega). Após a explosão pública do escândalo, Milena pediu exoneração de seu último cargo de chefia, como diretora de Vigilância em Saúde.

O que o MPSP pede à Justiça: Para punir o suposto esquema, o órgão exige a condenação dos envolvidos com o pagamento de multas, suspensão dos direitos políticos, proibição de fechar contratos com o poder público, além da quebra de sigilo e análise de geolocalização do celular de Milena para cruzar dados de presença.

O Estopim: Dossiês, Medida Protetiva e Ruína Financeira

A trama política ganhou contornos de caso de polícia no ano de 2025. O relacionamento paralelo veio à tona após a então primeira-dama, Sheila Thomaz, perder abruptamente a presidência do Fundo Social do município.

Naquela ocasião, a própria Milena procurou a polícia para registrar um boletim de ocorrência. No documento, ela assumiu ser parceira do prefeito e acusou Sheila de perseguição e espionagem. Segundo a servidora, a ex-esposa de Anderson teria montado um “dossiê” com fotos de sua rotina para forçar sua demissão. Dias depois, a prefeitura emitiu uma nota fria oficializando o divórcio do prefeito e o desligamento definitivo de Sheila da gestão.

O término, no entanto, expôs um lado sombrio do antigo casamento. Em outubro de 2025, a Justiça (através da Vara da Violência Doméstica) concedeu uma medida protetiva a favor de Sheila, proibindo qualquer contato e obrigando o prefeito a manter 200 metros de distância. Nos autos, a ex-primeira-dama relatou um histórico de ameaças, humilhações e agressões físicas que teriam atingido, inclusive, a filha do casal.

Abalada pelo divórcio conturbado e afastada do poder público, Sheila Thomaz recorreu às redes sociais para expor sua nova realidade. Para complementar a renda, ela chegou a vender marmitas. A crise financeira foi agravada por uma tragédia pessoal severa: Sheila precisou viajar a Dublin, na Irlanda, para socorrer um de seus filhos, que sofreu um grave atropelamento e precisou amputar uma das pernas.

A Prefeitura de São José dos Campos contesta a ação de improbidade administrativa e defende, nos autos, a estrita legalidade e capacidade técnica de todas as nomeações realizadas.

Lucas Bellinello

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