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Mensagem dois dias antes da decisão e R$ 3,2 milhões em movimentações: como Faissal Calil entrou na mira da Operação Gemini

Conversa com advogado assassinado e suposta atuação como “laranja” do desembargador Dirceu dos Santos embasaram ordem de busca e apreensão contra o deputado bolsonarista.

O deputado estadual Faissal Calil (PL) foi incluído nas investigações da Operação Gemini a partir de um caso específico: o suposto pagamento de R$ 1 milhão por uma empresa madeireira para obter decisão favorável em ação de reintegração de posse em Cláudia, no norte de Mato Grosso. O elemento central que conectou o parlamentar ao esquema foi uma conversa trocada com o advogado Roberto Zampieri dois dias antes de o desembargador afastado Dirceu dos Santos proferir a decisão favorável à empresa.

Segundo a decisão do ministro João Otávio de Noronha, do STJ, Zampieri assegurou a Faissal, naquela troca de mensagens, que a decisão seria aquela que haviam combinado. Para a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, o diálogo demonstra que houve acerto prévio do resultado judicial.

O caso havia chegado à segunda instância em 2021, após mais de uma década tramitando com decisões favoráveis à Associação dos Trabalhadores Rurais da Gleba Santo Expedito. A distribuição do recurso ao gabinete de Dirceu dos Santos também é questionada pelos investigadores: os processos anteriores relacionados ao mesmo conflito agrário vinham sendo distribuídos às Câmaras de Direito Público e Coletivo, não à câmara do desembargador. A PF aponta que Faissal, ex-assessor do magistrado, atuou como “articulador estratégico” para direcionar o processo ao gabinete de Dirceu.

Além do episódio da madeireira, as investigações apontam que Faissal teria operacionalizado uma estrutura financeira montada pelo desembargador para ocultar o recebimento de vantagens indevidas. A análise bancária identificou depósitos e saques em espécie que somam R$ 3,2 milhões, além de transferências sem justificativa negocial realizadas por empresas do agronegócio com disputas judiciais em andamento no TJMT. O parlamentar teria atuado como intermediário no recebimento de recursos, pagamento de despesas de familiares do magistrado e negociações imobiliárias por meio de terceiros.

Roberto Zampieri foi assassinado com 12 tiros ao deixar seu escritório em 5 de dezembro de 2023, em Cuiabá. O conteúdo de seu celular, recuperado durante as investigações, revelou uma rede de venda de sentenças que levou ao afastamento de diversos magistrados em todo o país e se tornou o epicentro de um dos maiores escândalos de corrupção do Judiciário brasileiro.

Dirceu dos Santos permanece afastado desde março por determinação do CNJ. Seu patrimônio é avaliado em mais de R$ 16 milhões — incompatível com os rendimentos da magistratura. Entre os bens investigados está um apartamento de R$ 1 milhão no edifício Vila Real, no bairro Duque de Caxias, em Cuiabá, adquirido “por permuta” em conjunto com Faissal Calil.

Lucas Bellinello

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