Um é mais aventureiro e impulsivo. O outro é mais metódico e comedido. Mas juntos, os diálogos e ‘causos’ vivenciados por Nico e Lau são um prato cheio para quem gosta de diversão. Criados pelos atores Lioniê Vitório e Justino Astrevo, os folclóricos personagens de visual excêntrico, com camisas largas e cheias de estampas, além do modo de falar típico da baixada cuiabana, completam 25 anos de vida em 2020.
Ao Circuito Mato Grosso, os artistas contaram que a parceria de ambos teve início em 1989, durante uma apresentação em um grupo de teatro. No começo da trajetória, a dupla viajou para diversas cidades do Brasil para atuar em peças artísticas na modalidade stand up (gênero também conhecido como comédia de 'cara limpa').

O grande marco nas carreiras de Lioniê e Justino ocorreria seis anos depois do nascimento da parceria. Em 8 de abril de 1995, os atores foram convidados para participar de uma edição especial do programa Revista da Manhã, na TV Gazeta (atual TV Vila Real, afiliada da RecordTV), para comemorar o aniversário da Capital mato-grossense.
“Era para ser uma experiência pontual, já que seria a nossa primeira aparição em televisão. Na época, declamamos e interpretamos poemas em homenagem ao aniversário da cidade. Por ser algo novo, os personagens também não tinham nomes, mas, mesmo assim, a direção da emissora e o público geral acabaram gostando da nossa apresentação e nos convidou para ter uma participação mais frequente no programa”, comentou Vitório.
“Com a efetivação da nossa presença no Revista, pensamos em dar nomes aos personagens. Nico já era o meu apelido de infância, em razão da minha baixa estatura. E, para ficar mais popular, sugeri ao J. Astrevo que adotasse o ‘Lau’. Dividimos o nome ‘Nicolau’ ao meio. Deu certo! (risos)”, relembra.
A atuação de ambos no programa matutino também ficou marcada por ser a primeira vez que a dupla usou o sotaque tradicional dos cuiabanos. Astrevo ressalta que a utilização do modo de falar típico da capital e outras localidades do Estado foi influenciada por outro grande expoente da cultura local: Liu Arruda (1957–1999).
“O Liu e outros integrantes do grupo Gambiarra, que fazia teatro de rua, começaram a utilizar o linguajar tradicional em um período que as pessoas daqui enxergavam o próprio modo de falar como um motivo de chacota. Porém, com o passar do tempo, essa maneira de se comunicar acabou criando uma empatia muito grande com o público e contribuiu para o resgate da nossa cultura, já que havia um intenso fluxo migratório para Cuiabá”.

“Ele (Liu Arruda) ajudou a propagar e a defender costumes, hábitos e o linguajar local, trazendo de volta o sentimento de pertencimento das pessoas, fazendo com que elas se sentissem representadas. O trabalho dele abriu o mercado para os atores mato-grossenses. Contudo, o nosso objetivo não era e nunca foi imitá-lo, mas sim contar histórias e ‘causos’ regionais com a mesma forma de falar dos que aqui vivem”, salientou Astrevo.
Consolidação e novos desafios
Após o sucesso na TV e nos palcos, Nico e Lau mergulharam em outras plataformas para expandir os seus campos de atuação. A dupla já lançou livros, CDs, DVDs, revistas em quadrinhos e peças publicitárias. De acordo com Lioniê e Justino, navegar em diversos meios contribuiu para o crescimento e desenvolvimento de ambos como artistas, além de fortalecer a marca dos personagens no ramo empresarial.
“Todos esses trabalhos foram feitos com base no público que nos acompanhava em apresentações de teatro. O CD surgiu graças à interação da plateia, que cantava as músicas que fazíamos para cantar nas peças, apenas. Já o DVD veio para atender o público de outros estados, que não tinha como assistir ao nosso espetáculo porque não havia sites e redes sociais como atualmente”, analisou Vitório.
“Em seguida, notamos que as famílias levavam muitas crianças aos nossos shows e que a gente não tinha programado algo voltado para elas. Para melhorar o diálogo com os pequenos, desenvolvemos diversos conteúdos, criamos as revistas com histórias em quadrinhos da dupla, assim como mochilas, sandálias e roupas da nossa marca, entre outros produtos. Fomos entendendo as oportunidades que o mercado oferecia para sedimentar e consolidar a nossa marca”, explicou J. Astrevo.
O último objetivo alcançado da dupla foi a produção de duas obras cinematográficas. Lioniê e Justino enfatizam que a paixão pela sétima arte foi o combustível para conquistar o sonho de gravar filmes – os curtas-metragens Canhaim e Bala Perdida. “Sempre foi um sonho nosso (fazer cinema). Existe um mercado extraordinário para o nosso tipo de humor, que é uma comédia pura, mas sem ser ingênua. Começamos com dois curtas, mas ainda temos o objetivo de produzir um longa”.
Chico Anysio

Um dos momentos mais especiais para Vitório e Astrevo ocorreu em 2003. Na ocasião, a dupla estava completando oito anos de trabalho e recebeu o ator e humorista Chico Anysio (1931–2012) para uma apresentação teatral. Lioniê conta que o convite ao renomado comediante foi um movimento ousado da dupla, que iniciava a jornada no campo dos negócios. “Precisávamos de uma presença de peso para comemorar o nosso aniversário e o primeiro nome que nos veio a cabeça foi o dele. Ter o Chico em Cuiabá foi bom. Ver o Chico em cena, foi melhor ainda. Mas tê-lo ao nosso lado em um palco, foi fantástico. Foi uma das maiores conquistas que tivemos. Uma pessoa maravilhosa”.
Inovação e novos personagens
Mesmo com duas décadas e meia de estrada, os amigos de longa data contaram que investem em cursos e especializações em diversos segmentos artísticos, como direção, figurino, roteiro e cenografia, para criar novas histórias para os seus personagens. O objetivo é adequar temáticas e comportamentos contemporâneos, sem fazer com que os dois senhores percam suas características típicas.
“O grande segredo é encontrar o ponto de equilíbrio entre a inovação e o tradicional. Temos que abordar temas atuais e trazer costumes do dia a dia nos espetáculos para facilitar o processo de interação com a plateia, sem descaracterizar os personagens. Modernizamos o figurino, a forma de contar casos e a própria linguagem do Nico e do Lau. Acreditamos que esse foi um dos grandes fatores que contribuíram para a longevidade deles”, argumentou Astrevo.

Ainda na esteira da inovação e das mudanças, Lioniê ressalta que dois novos papeis, derivados da marca principal da dupla, surgiram nos últimos anos: o casal Nicolina e Laurenço. As personagens, que foram criadas para expor conflitos e situações da relação homem-mulher, também caíram rapidamente no gosto popular.
Papel do Poder Público
“O Poder Público é um agente que tem a missão básica de estimular e criar mecanismos que possibilitem a produção de conteúdos culturais. Isso ocorre por meio dos editais, que premiam projetos de artes cênicas, dança e obras audiovisuais, e também auxiliam artistas, sendo iniciantes ou veteranos. O nosso foco é preservar, fortalecer, e desenvolver os hábitos e costumes da nossa cidade”, analisou J. Astrevo, que atualmente comanda a Secretaria Municipal de Cultura de Cuiabá.
Artistas regionais
Lioniê Vitório e Justino Astrevo também elogiaram a atual geração de artistas cuiabanos e mato-grossenses e destacaram que organizam eventos e festivais artísticos periódicamente para dar oportunidades para os jovens comediantes.
“Nós criamos o festival Ataque de Risos justamente para incentivar o surgimento de novos talentos. Torcemos muito pelo sucesso de todos, porque com mais gente chegando e produzindo bons materiais, as condições de trabalho vão melhorar e a classe ficará muito mais valorizada”, frisou Lioniê.
“Fazemos muitos trabalhos em conjunto para trocarmos experiências com outros atores. Quanto mais pessoas atuarem com qualidade nesse mercado, mais as pessoas irão consumir os conteúdos locais. Isso nos estimula a estar sempre melhorando e fortalece o artista para poder negociar com a administração pública e também com a iniciativa privada”, finalizou Justino.



