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Grandes eventos estimulam o mercado da exploração sexual infantil

“Eu quero ter uma boneca. Quero ter lápis para desenhar. E quero uma mochila rosa. Uma mochila rosa para eu poder ir à escola”. Enquanto escondia-se embaixo de uma mesinha de centro, Lilya, personagem do diretor sueco Lukas Moodysson, sonhava em voz alta com uma infância comum. Mas aos 16 anos, a jovem que deu nome ao filme Para Sempre Lilya, lançado em 2002, teve sua infância roubada pela exploração sexual infantil.

Infelizmente, a triste história que marcou o enredo do longa-metragem não é fictício para Lilya, tampouco para muitos jovens brasileiros. Segundo a coordenadora da Secretaria do Turismo Isabel Barnasque, grandes eventos como as Olimpíadas, que começaram sexta-feira (5), aumentam os índices de exploração sexual no Brasil. Só que o crime é tão silencioso e tão difícil de ser desvendado, que não há nem mesmo dados concretos sobre ele.

— É sabido que quem agencia esse tipo de serviço se aproveita de momentos em que o País recebe grande quantidade de pessoas de fora para divulgá-los e fazer aliciamentos de jovens em situação de fragilidade.

A representante da ONG (Organização Não-Governamental) Childhood, Eva Cristina Dengler, explicou que as formas de aliciar esses menores de idade para a prostituição infantil não seguem um padrão, mas que todas estão relacionadas à vulnerabilidade das vítimas.

Segundo Eva, essas fragilidades estão, na maior parte das vezes, relacionadas com más condições econômicas, sociais e dependência química.

— Exploradores buscam vítimas que não sejam favorecidas economicamente, apresentem uma vulnerabilidade social ou sejam dependentes de drogas, uma vez que, elas precisam de dinheiro para sobreviver e/ou para sustentar o vício. Desta forma, esses jovens acabam cedendo mais facilmente à abordagem dos criminosos.

De acordo com Eva, há uma relação direta entre a era das redes sociais e a facilidade com a qual os jovens são ‘ofertados’. Ela conta que muitos criminosos anunciam as vítimas em grupos fechados do Facebook e do Whatsapp, o que torna a comercialização e a negociação mais fáceis.

— Há casos em que as próprias famílias ofertam as crianças. É muito comum ver, em estradas brasileiras, pais oferecerendo os filhos para prestarem serviços sexuais a motoristas. Tal fato gera uma naturalização da situação, e a exploração sexual infantil não pode ser considerada algo natural. É por isso que a conscientização sobre esse tipo de crime é essencial.

Segundo os dados disponibilizados pela Childhood, a maior parte das vítimas de tráfico sexual são adolescentes de 12 a 17 anos.

Campanhas preventivas
Diversas campanhas foram lançadas contra a exploração sexual antes das Olimpíadas do Rio de Janeiro, que começaram na quinta-feira (4). A própria Unicef criou aplicativos para smartphones que estimulam as pessoas a doarem para fundações que cuidam de crianças que foram vítimas do crime. Um deles é o Team Unicef Get Active For Children e o outro é o Projeta Brasil — este último criado em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos.

A responsável pela área de proteção à criança da Unicef (Fundo das Nações Unidas), Fabiana Gorenstein, explica que o segundo aplicativo mostra o contato de associações de proteção infantil próximas ao usuário, além de permitir que ele faça denúncias por escrito.

Ao ser contatada pela reportagem, a Secretaria de Turismo afirmou que também entrou na ação contra a exploração infantil: segundo a Pasta, representantes se reuniram com empresários da rede hoteleira, cafés e hostels do Brasil, conscientizando-os sobre a potência do crime que, na maior parte das vezes, ocorre nesses estabelecimentos. Além disso, placas em 13 línguas especificam que tanto a exploração como o tráfico de crianças são crimes. Elas foram espalhadas por estradas, rodovias e aeroportos. De acordo com Isabel, esses avisos ficarão disponibilizados nos aeroportos do Brasil até o fim dos jogos paraolímpicos.

O consensual para todas as especialistas: a principal forma de combater a exploração sexual infantil é com informação e educação para a população sobre os perigos de submeter uma criança ao trabalho sexual.

— Como os casos de exploração são, normalmente, silenciosos, ou seja, pouco descobertos por causa da clandestinidade da ação dos exploradores, precisamos falar cada vez mais sobre a gravidade da prostituição infantil.

Ressocialização

As ONGs que atuam na prevenção da exploração sexual infantil também têm a missão de amenizar os estragos causados na vida das vítimas. Além dos danos físicos, a maior parte dos jovens que chegam à ONG em busca de proteção e ressocialização apresenta problemas psicológicos graves, disse Eva, da Childhood.

— Muitos não querem conversar, nem mesmo para contar o que aconteceu. E isso é extremamente compreensível. Por isso, o primeiro cuidado na hora de começar a ressocialização de uma vítima de exploração sexual é dar tempo ao tempo. O jovem precisa se sentir à vontade para falar com a ONG, e não obrigado, uma vez que, passou muito tempo fazendo algo contra a própria vontade.

Eva afirmou, ainda, que muitos menores de idade que chegam à Childhood após denúncias de exploração estão viciados em drogas ilícitas, o que dificulta ainda mais o processo de ressocialização.

— Nos casos em que essas vítimas são dependentes químicos, procuramos dar a elas todo o apoio psicológico que precisam não apenas para se livrarem das drogas, mas também para começarem uma nova vida, longe do tráfico e da exploração sexual. A criança é submetida a uma violência psicológica grande o tempo todo e, muitas vezes, não consegue mais separar as coisas.

Fonte: R7

Redação

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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