Nacional

Fotos pornográficas de jovens de 16 anos não será crime

A redução da maioridade penal, aprovada na Comissão Especial da Câmara dos Deputados quarta-feira, deixaria os jovens de 16 a 18 anos sem a proteção do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), adverte o professor de Direito Penal da Universidade de São Paulo (USP), Pierpaolo Cruz Bottini. Na prática, isso significa que servir bebidas alcoólicas a menores, por exemplo, deixará de ser crime. Publicar fotos pornográficas de meninas ou meninos entre 16 e 18 anos também não será passível de punição.

“Se ele é imputável, ou seja, é considerado pela lei como um adulto plenamente consciente dos fatos, ele é, para todos os efeitos, um adulto. Portanto, as proteções do Estatuto da Criança e do Adolescente não se aplicam a ele”, defende o advogado, que foi Secretário de Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça. Para o jurista, o encarceramento dos menores criará um “exército de apoio do crime organizado” nas cadeias.

O substitutivo do deputado Laerte Bessa ainda precisa passar pelo plenário da Câmara, antes de ser encaminhado ao Senado. A expectativa é que a votação pelo conjunto dos deputados seja pautada para o próximo dia 30.

Bottini exemplifica o que chama de “efeitos colaterais” da proposta. “Explorar a prostituição é um crime. Mas não será mais agravante se a pessoa que se prostitui for uma menina de 16 anos. Isso passará a ser considerada uma prática normal”.

O jurista considera um “grande erro” a alteração na lei. “A sociedade tem que punir aqueles que cometem crimes, mas a ideia de vingança é apenas uma resposta fácil e ineficaz”, diz o professor de Direito Penal.

Para ele, apenas a informação e o debate, sem precipitações, podem levar a soluções mais eficientes. “Os jovens, aos 16 anos, não são, certamente, adultos. É preciso que eles, em caso do cometimento de algum ilícito, sejam recuperados e não atirados aos cárceres.”

A redução da maioridade penal é tema de uma série de três debates que o DIA , ‘ Meia Hora ’ e o Observatório de Favelas estão realizando ao longo do mês. O segundo encontro está marcado para a próxima quinta-feira, às 19h30, na Praça do Vidigal. os debatedores serão Siro Darlan, Raff Giglio, Raull Santiago e Jorge Barbosa.

Presídios serão "escolas"

Com a experiência de quem foi membro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária do Ministério da Justiça, Pierpaolo Cruz Bottini alerta que a proposta aprovada pela comissão da Câmara, que prevê que os jovens entre 16 e 18 anos “cumprirão a pena em estabelecimento separado dos maiores de 18 anos e dos menores inimputáveis”, na prática, tem chances mínimas de funcionar.

“A lei já prevê que presos provisórios e não provisórios cumpram penas em locais separados, e que os apenados por crimes mais graves e menos graves não fiquem presos no mesmo local. Mas o país não tem condições de cumprir essa determinação”, afirma.

Para o jurista, os menores acabarão nas mesmas celas dos criminosos mais velhos e perigosos. “Isso é uma temeridade. Estaremos ajudando o crime organizado a formar uma nova geração de criminosos. E esse é um grande perigo para a sociedade”, diz ele.

Currículo

Pierpaolo Cruz Bottini é professor-doutor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Mestre e doutor em direito penal pela Faculdade de Direito da USP, e foi membro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária do Ministério da Justiça. O jurista também chefiou o Departamento de Modernização da Justiça do Ministério da Justiça em 2003 e 2004. Atualmente, Pierpaolo, cujo nome homenageia famoso cineasta italiano, é coordenador regional do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

Fonte: Terra

Redação

About Author

Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

Você também pode se interessar

Nacional

Comissão indeniza sete mulheres perseguidas pela ditadura

“As mulheres tiveram papel relevante na conquista democrática do país. Foram elas que constituíram os comitês femininos pela anistia, que
Nacional

Jovem do Distrito Federal representa o Brasil em reunião da ONU

Durante o encontro, os embaixadores vão trocar informações, experiências e visões sobre a situação do uso de drogas em seus