Cidades

Falhas, parcialidade e desordem na Secretaria de Mobilidade Urbana

Ahmad Jarrah

Receber um visitante, uma encomenda ou prestadores de serviços tais como recarga de gás canalizado, eletricista dentre outros, tornou-se uma missão quase impossível para o moradores da avenida José Monteiro de Figueiredo, a Lavapés – ou melhor, dos moradores e comerciantes de apenas um lado da avenida – o único que teve canceladas as poucas vagas de estacionamento que atendiam estas demandas simples, porém vitais ao dia a dia. Até embarcar e desembarcar passageiros tornou-se proibido e, pior, perigoso, já que veículos e principalmente ônibus passam pelo antigo acostamento em toda velocidade a poucos centímetros de quem se aventura a parar o carro para buscar ou deixar uma pessoa.

Não existem estudos que justifiquem a proibição unilateral de estacionar. Tampouco os moradores foram chamados para qualquer tipo de audiência pública, nos últimos cinco anos, ou mesmo uma reunião com a Secretaria de Mobilidade Urbana. Da noite para o dia, lá estava a faixa amarela pintada apenas de um lado do asfalto e na sequência uma, duas e até três motos com agentes de trânsito multando os veículos estacionados.

Do outro lado da avenida, separado apenas pelo canteiro central tudo continua como sempre foi. Coincidência ou não os beneficiados conseguem seguir, sem atravessar a avenida, para o Shopping Goiabeiras ou ainda parar em frente ao prédio do ex-coordenador financeiro da campanha eleitoral de Mauro Mendes e seu amigo pessoal, Mauro Carvalho. A liberalidade por ali continua plena! Questionado por escrito sobre os muitos estudos e projetos que deveriam avalizar tantas modificações numa avenida importante como esta, pasmem, recebemos um “projeto de adequação viária” feito pelo Shopping Goiabeiras no ano de 2005. Nada mais. 

Explique-se melhor secretário!

“Reitero, as mudanças não foram feitas pensando no shopping”… Assim o secretário de mobilidade urbana, Thiago França, se defende do questionamento da reportagem sobre as mudanças no trânsito envolvendo a avenida, cuja resposta enviada pelo próprio secretário e sua equipe foi o projeto do Shopping Goiabeiras, com direito, inclusive, à logomarca do empreendimento. Não vieram anexos quaisquer outros estudos ou projetos realizados por parte da prefeitura da capital. Inclusive, o Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) e o Relatório de Impacto de Vizinhança (RIV), que geram o Relatório de Impacto de Trânsito (RIT) que, reza a lenda, existem na Secretaria de Meio Ambiente, não foram disponibilizados nem tampouco justificada uma possível proibição de acesso a eles.

O projeto data de 2005, 11 anos atrás, e não sofreu qualquer alteração mais de uma década depois já que segundo Thiago França não houve necessidade, pois projetos assim são pensados até para 30 anos à frente. O secretário não menciona por exemplo, a realização das obras de mobilidade urbana, que em 2005 nem em sonho ocorreriam, já que não havia como adivinhar uma Copa do Mundo e, muito menos, a cidade de Cuiabá como uma das sub-sedes do mundial. Audiências públicas para ouvir moradores e comerciantes do entorno, os mais impactados com as mudanças também “ouve-se” falar que existiram, mas nem as que teriam ocorrido em 2015, tampouco as de 2005 estão registradas em qualquer lugar. Tanto a assessoria de Thiago França, quanto a secretária adjunta, Anna Regina Feurharmel, dizem que não sabem quando nem onde foram realizados tais encontros de interesse desses cidadãos. É o disse, pelo não disse. 

Falhamos, paciência!

Ao ser questionado sobre a decisão unilateral de estacionar na avenida, o secretario admitiu falhas, mas foi evasivo. 

“O estacionamento realmente é uma parte sensível na cidade”, admitiu e assumiu ainda que houve falha de comunicação das mudanças que aconteceram no local em relação aos moradores: “A comunicação realmente falhou, principalmente no início da operação. Os jornais só focaram no fechamento dos retornos e nos canteiros e nós não conseguimos comunicar os moradores a tempo”, reconheceu. Essa “falha” na comunicação das mudanças impediu aos moradores recorrerem ou mesmo apresentarem outras sugestões em relação às alterações da via e mudanças de fluxo do local, cabendo apenas aceitar o que foi imposto. 

“Tendência mundial”, diz a adjunta

Segundo a Secretária Adjunta, as faixas de pedestre foram associadas aos semáforos para as  pessoas conseguirem fazer a travessia da via de forma segura. Em relação ao local da colocação da faixa, Anna Regina argumenta que não foi feito de forma independente. “Existe uma contagem do número de pessoas e onde é feita a travessia. Quais são os lugares em que as pessoas atravessam mais, independente de faixa ou não. Também observamos a legislação de trânsito. A partir dessa observação das linhas de desejo de travessia é que depois são instaladas as faixas de pedestre”, explica. 

A Secretária adjunta afirma que todas as mudanças foram avaliadas e que houve uma melhora considerável no trânsito daquela área “O Volume de veículos que se acomodava na via era muito extenso, causando engavetamento. Essa questão foi solucionada”, afirma. 

Em relação aos locais de estacionamento, Anna Regina Feuerharmel afirma que a prefeitura está estudando pontos para implantação de placas para locais de embarque e desembarque, mas que as vagas para estacionamento não vão voltar. “É uma tendência mundial de supressão de estacionamento, uma tendência global, o asfalto é um espaço muito caro. A orientação global é de prezar pelo pedestre e não os carros”.  Entretanto, o bairro não facilita a locomoção de pessoas a pé, e sim de carro, em direção ao Shopping. 

A assessoria do Shopping Goiabeiras foi procurada para dar a sua versão e explicar o porquê dessa parceria com a prefeitura e também o porquê de os projetos e estudos todos terem sido realizados pelo empreendimento. A resposta do Shopping foi esta.

"O Goiabeiras Shopping cumpriu as obrigações assumidas na aprovação do Relatório de Impacto referente à expansão do Empreendimento, obedecendo a premissas nele definidas e em conformidade com o projeto específico de adequação viária. Este mesmo documento foi, posteriormente, aprovado pela Secretaria de Mobilidade Urbana (SEMOB), objetivando mitigação do impacto, organização, modernização e melhoria do trânsito no seu entorno."

As mudanças

Todo o projeto implicou no fechamento de quatro retornos no canteiro central –  que também está maior – e a instalação de dois semáforos: um, em frente ao Shopping- Rua Almirante Henrique Pinheiro Guedes com a antiga Lava Pés – e o outro no cruzamento da Rua Tenente Alcides Duarte de Souza com a Lava Pés (esquina da Drogasil). 

Em toda a extensão da avenida foram colocadas somente duas faixas de pedestre, a primeira localizada no semáforo, em frente ao shopping, e também no outro semáforo, próximo à Drogasil. 

Também foi feita a inversão de uma quadra da Almirante Henrique Pinheiro Guedes (lateral do Shopping, do posto de gasolina) que tinha mão única sentido Lava Pés. Já na Rua General Rabelo (na outra lateral do shopping), também foi alterada uma quadra; a via que descia,  passa a subir, no sentido da avenida.

Com essas inversões, a Almirante Henrique Pinheiro Guedes e a General Rabelo formam um binário: a primeira desce, e a outra, sobe. Próximo a estas ruas, outras duas vias que hoje são mão dupla formam também outro binário: a General Neves passa a ter sentido único até a Tenente Alcides Duarte de Souza; e a Major Otávio Pitaluga, sentido único para a Almirante Henrique Pinheiro Guedes.

A Rua Tenente Alcides Duarte de Souza (lateral do 44º Batalhão) continua funcionando em mão dupla, já que é uma importante via por onde trafegam os ônibus do transporte coletivo (na esquina desta rua com a Lava Pés está instalado o outro semáforo). Quem sobe a Tenente Alcides Duarte de Souza tem a opção, no semáforo, de entrar à direita na Lava Pés, sentido Choppão; à esquerda na Lava Pés, sentido Santa Rosa, ou seguir direto, atravessando a Lava Pés, e acessando a Mascarenhas de Moraes, permitindo, assim, a ligação dos bairros Duque de Caxias I e Duque de Caxias II.

No Bairro Duque de Caxias II foi feita outra mudança com intenção de desafogar o tráfego da Lava Pés. A Rua Marechal Zenóbio da Costa (rua da antiga Secopa) continua mão dupla entre a Avenida Lava Pés e a João Bento e, tem sentido único entre a Corsino Amarante e a João Bento. A alteração será na Corsino Amarante, que será mão dupla do cruzamento da João Bento com a Avenida Senador Filinto Müller.

Veja mais na edição 574

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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