Cidades

‘Estamos sempre inovando’, diz drag queen sobre o Pajubá, o dialeto LGBTQI+

“Nhaí, amapô! Não faça a loka e pague meu acué. Deixe de aquê se não eu puxo o teu picumã!”, essa é a frase que uma das questões do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) abordou em seu primeiro dia de prova deste ano. Apesar de pouco conhecida entre os héteros, o Pajubá é o dialeto “secreto” dos LGBTQI+ e muito utilizado em seu dia a dia.

É importante esclarecer que, apesar de muito discutido nas redes sociais, para responder a questão do exame não era necessário conhecer as palavras, mas apenas identificar o motivo do Pajubá ser considerado um dialeto. E não se sabe quando ele surgiu, mas tem influência e expressões africanas, algumas palavras são utilizadas também pelas religiões afro-brasileiras e pode ter surgido ainda no Brasil colonial.

Pensando em tudo isso, o Circuito Mato Grosso entrou em contato com a promoter de eventos e drag queen Elza D Brasil. Ela não conhecia o dialeto denominado como “Pajubá” até então, eram apenas as palavras que ela e seus amigos mudam do que é utilizado normalmente. “Olha, eu vou fazer 45 anos e conheço essas palavras desde quando me entendi como gay. Me assumi aos 12 anos e nessa época já tinha o linguajar”, contou.

Aos risos, Elza explicou algumas palavras como “acué” que significa dinheiro, “amapô” é mulher, “bofe” significa homem e “Uó” é algo ruim. São muitas palavras, existe até mesmo a Aurélia, a dicionária da língua afiada, que foi lançado em 2006 e possui mais de 1.300 palavras do Pajubá.

“É o dialeto gay e sempre mudamos as palavras comuns, são nossas palavras e estamos sempre inovando nosso vocabulário”, relata. Elza ainda explica que cada região e estado do país possui as suas características, não é algo fechado.

Ela conta que está sempre usando as palavras e quando questionada sobre como conversa com alguém que não domina, explicou que “quando conversamos com as pessoas que não sabem elas ficam ‘Oi? O que você está falando?’ e se for uma pessoa amiga a gente explica, se não for ela vai ficar lá boiando”.

A drag queen acredita que a criação e utilização do dialeto é justamente pelos LGBTQI+ serem taxados como “diferentes” perante a sociedade. “Nós não somos (diferentes), mas criamos isso para sermos, foi criado para nos destacar do restante e eu achei o máximo o Enem puxar isso”.

Ela aponta o sofrimento que causa se assumir homossexual. São anos de bullying, violência, até mesmo dentro do próprio lar e nas ruas. O Brasil é um dos países que mais mata LGBTQI+, a homofobia marca presença entre os brasileiros e Elza, com um ar de esperança, relembra que novelas, autores, livros e outros estão trabalhando mais os temas que abrangem esse público e esclarece algo para os demais. “Nós estamos nessa luta constante pelos direitos iguais e respeito, então o Enem abordar isso é maravilhoso. Um dia esse país vai olhar para o gay e não será um olhar de nojo, desdém, aberração… Nós não somos aberrações”.

Apesar de toda essa situação ser “Uó”, Elza ri do dialeto e mantém a esperança de mudanças.

Sobre a frase inicial do texto que foi utilizado no Enem, significa algo como: “E aí, mulher! Não se faça de desentendida e pague meu dinheiro. Deixe de truque, senão eu puxo o teu cabelo”.

 

{relacionadas}

Redação

About Author

Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

Você também pode se interessar

Cidades

Fifa confirma e Valcke não vem ao Brasil no dia 12

 Na visita, Valcke iria a três estádios da Copa: Arena Pernambuco, na segunda-feira, Estádio Nacional Mané Garrincha, na terça, e
Cidades

Brasileiros usam 15 bi de sacolas plásticas por ano

Dar uma destinação adequada a essas sacolas e incentivar o uso das chamadas ecobags tem sido prioridade em muitos países.