A greve nacional dos caminhoneiros terminou há três semanas (em 31 de maio) mas ainda deixou uma série de discussões pendentes, como a padronização da tabela do frete, que foi uma das principais demandas durante o movimento grevista. Como resultado, o agronegócio de Mato Grosso teve o escoamento da safra prejudicado. Segundo Antonio Galvan, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja), a situação é preocupante em razão da falta de espaço para armazenagem das colheitas. Ainda, o produtor criticou a intervenção do governo para estipular uma tabela, a qual, segundo ele, vai prejudicar, principalmente, a sociedade.
A logística submetida aos produtores sempre foi ponto de discussão no agronegócio. Aliado a isso está a dificuldade de armazenagem da produção. Segundo Galvan, hoje, Mato Grosso não é capaz de armazenar sequer 60% da produção atual.
Devido às divergências sobre a tabela do frete, diversos produtores estão com a produção parada, sem escoar, por não entender como deverá funcionar o frete neste período, além de não concordar com a nova política. A observação, porém, é que o escoamento em questão se refere à safra de soja colhida nos últimos meses e armazenada em todo o Estado. Com a colheita do milho, que já está em andamento, será necessário retomar as exportações.
“Mato Grosso é totalmente deficitário em armazenagem de grãos. Esse é outro grande gargalo que nós temos. E agora temos muita soja aí que travou espaço para o milho, que está sendo enguiçado. O milho já está colhendo, mas se paralisou o embarque”, observou o produtor. Segundo ele, a pausa no escoamento da safra de soja já atinge quase três semanas.
“Isso prejudica todo mundo”, pontuou. De acordo com o representante da Aprosoja, o estado exporta cerca de 80% da produção e possui, ao menos 85% da colheita já comercializada, apenas aguardando para ser escoada.
Para o produtor, as discussões sobre custo do frete ainda estão longe de serem resolvidas, uma vez que são demandas antigas no setor do agronegócio. No entanto, os valores sugeridos pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) foram considerados “irreais”.
“Nós já tínhamos o problema de custo, da produção mesmo, mas agora, com essa questão do frete que está ai colocado pela ANTT, está começando a inviabilizar até o nosso segmento”, disse. “Com essa alta do frete, ele [o governo] tira do setor primário. Essa tabela aí não tem como você conseguir pagar, vai ficar insustentável”, garantiu.
Além de valores que chegavam a quase R$ 1 por eixo e quilômetro, a medida apresentada pela ANTT previa foi a obrigatoriedade do frete de retorno com eixo vazio. Isto é, mesmo que um caminhão escoasse a produção e retornasse a seu estado sem transportar qualquer carga, também se deveria pagar o transporte. A medida foi retirada da segunda proposta apresentada pela ANTT.
À época, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, observou que o valor final chegaria a atingir o dobro do custo anterior. Em coletiva de imprensa, ele disse: “A tabela era para ser um preço mínimo, mas, da forma que ficou, a tabela acabou ficando um preço máximo, até fora dos padrões que a agricultura pode pagar para transportar".
De acordo com Galvan, o setor agropecuário não concorda com a implantação de um preço mínimo para o frete, uma vez que isso poderá impactar no custo de produção.
“Nós não concordamos com tabela. O governo não pode intervir na iniciativa privada”, comentou. “Isso daí vai só dar trabalho. Vai dar um problema para o Brasil que você não tem nem ideia, para empresas, para tudo, porque não adianta insistir nessa tabela aí, porque vai ficar o mercado paralisado. Nós não aceitamos, nem quem compra e nem quem vende”, completou.
Ainda, o produtor observou que, causando impacto no custo de produção, por sua vez, os valores poderiam ser repassados ao consumidor final, isto é, a população, uma vez que, na maioria dos casos, são os compradores das safras quem pagam pelo transporte.
“Isso tudo vai explodir em cima do consumidor final, porque alguém vai pagar essa conta e vai ser a sociedade”, finalizou.

