A situação do ex-presidente Bolsonaro é muito delicada. É difícil equilibrar-se – e olha que ele não é bom nisso – entre cinco filhos de três mães diferentes, dos quais quatro disputam com a madrasta a atenção do pai para se manterem na política. A atual mulher do pai e os enteados não se bicam, como costuma acontecer nestes arranjos familiares.
Tem mais um detalhe: as duas mães destes quatro (Ana Cristina Bolsonaro e Rogéria Bolsonaro) também disputaram ou exerceram mandatos parlamentares, o que complica o jogo, pela provável influência política que têm sobre os filhos, mesmo que seja somente para instigá-los contra a madrasta.
Neste momento em que o Flávio divulgou na mídia uma carta manuscrita pelo ex-presidente, reforçando a decisão de nomeá-lo único porta-voz dos desejos paternos, uma coisa se destaca: os Bolsonaro, aqui também se inclui a Michelle, têm grande dificuldade na avaliação de riscos. Eles ignoram sinais evidentes de perigo e esquecem que quando a água está chegando no nariz — como é o caso da decisão do endereço de cumprimento da pena do patriarca — o conselho é não fazer marola.
Será que o Flávio, que é advogado, não percebeu que divulgar a tal carta seria “cutucar a onça com vara curta”? A onça aqui é o Ministro Moraes, que tem o poder de punir esta iniciativa, devolvendo o pai ao presídio e fazer, como realmente fez, proibir as visitas do filho por 90 dias, qualquer visita social por 30 dias e contatos políticos até as eleições.
Ainda. O Flávio, conhecendo as próprias limitações como advogado, não deveria consultar a equipe que defende o pai sobre os riscos da divulgação? Mais: a Michelle que se diz preocupada com a possibilidade de o Supremo determinar o retorno do marido para a Papudinha, não viu neste ato um sério motivo para justificar uma ordem imediata neste sentido?
Ou será que ela está tão escanteada das decisões da família que só soube da carta após a publicação?
Pai e filhos seriam muito corajosos ou incapazes de perceber o perigo? O próprio Jair, quando ainda estava no exército, não viu o risco de descumprir regras da caserna e levou 15 dias de prisão. Depois não percebeu a gravidade de confrontar instituições e imprensa e perdeu a reeleição. Inconformado, sem medir as consequências, quis melar o pleito e foi condenado à prisão.
O seu filho Eduardo, decidiu peitar a justiça brasileira para livrar seu pai da cadeia. Perdeu a batalha, junto com ela o mandato de deputado e ganhou uma condenação judicial.
O País está há anos dividido em dois grupos antagônicos e raivosos. Agora a direita se divide ainda mais, enquanto a esquerda unida, ameaça ganhar o jogo.
Essa divisão da direita está ganhando um novo subgrupo. A Michelle, que não tem o gene, mas parece ter assimilado a cultura dos Bolsonaro, bota lenha no fogo, criando a ala das mulheres — as tais Imparáveis —o que enfraquece a família e divide ainda mais a direita.
Por enquanto a insensatez do Flávio divulgando a carta, saiu barata e o pai continua na prisão domiciliar. Por enquanto, repita-se.
Renato de Paiva Pereira


