Neste fim de agosto, quando notícias sobre ondas de calor ocupam as conversas, afirmei que as falas sobre mudanças climáticas eram exageradas e que as atuais temperaturas de Cuiabá eu já teria visto há cerca de 40 anos. Garanti que, em 1986, quando aqui cheguei, vi em um termômetro de rua a marca de 42°C.
Depois, pensando no caso, resolvi me informar sobre as temperaturas aqui de nossa cidade nos últimos 40 anos.
Minha lembrança estava certa, mas a conclusão precipitada: em 1988, Cuiabá registrou 41,1ºC o que é muito próximo dos 42 ºC que testemunhei, mesmo porque termômetros de rua não são confiáveis.
Se eu tivesse ficado somente com os dados de 1988, teria confirmado minha tese furada de que não houve aumento das temperaturas aqui na capital.
Entretanto, a sequência dos dados pesquisados confirmou meu erro. Na conversa citada, agi como um negacionista desinformado.
Acontece que falar sobre uma temperatura alta atingida, em um momento específico é usar um dado enganoso, parcial e impreciso para justificar uma tese errada. Os dados me mostraram que, desde 1988 até 2006, os termômetros não passaram de 40ºC. A partir de 2010, começaram a passar dessa marca, chegando a atingir 44 graus em 2020, 2023 e 2024.
Mas a realidade é ainda pior: a comparação dos meses de agosto de diversos anos, mostra que, até 2019, nenhum dia deste mês chegou a 40 °C, e em agosto de 2020 houve pelo menos 9 dias consecutivos com 40 °C ou mais.
E, no ano de 2023, Cuiabá teve pelo menos 35 dias com mais de 40 graus, o que aumenta muito os danos que a temperatura alta pode causar.
A admissão do erro que cometi acima, livrando-me do rótulo de negacionista, não me põe entre os alarmistas defensores da ideia de que Cuiabá ficará inabitável no futuro mais ou menos próximo, como muitos garantem.
Meu precaríssimo conhecimento de clima e de emissões de CO₂ me põe em uma escala intermediária entre alguns ativistas do assunto aqui no Brasil: Carlos Nobre — preferido dos cientistas e do IPCC — e Luiz Carlos Molion, que representa um pensamento minoritário.
O primeiro defende que a principal causa do aquecimento é a ação do homem e que já estamos chegando próximo do ponto de não retorno da vegetação natural em alguns biomas. O Molion garante que a influência do homem no clima é muito pequena e que deveremos ter nos próximos anos um processo de resfriamento da Terra.
Neste ano, a imprensa tem se dedicado a noticiar as previsões sobre o El Niño que, conforme tendência natural da mídia, pinta com cores fortíssimas.
Mais uma vez aqui no Brasil as opiniões se dividem: a esquerda diz que o trem vai ser feio e catastrófico, acreditando no Carlos Nobre; e a direita, adepta das teses do Molion, rebate que o diabo não é tão feio como pintam. De repente, nem é feio.
Depois que descobri que meus 42 graus não provavam o que eu imaginava, desconfiei ainda mais das certezas, principalmente das minhas.
Renato de Paiva Pereira.

