Olinda Altomare Opinião

Hamnet:  a vida antes de Hamlet Quando a dor encontra um lugar na arte

Esse é um filme que consegue tocar delicadamente em lugares para os quais, muitas vezes, não temos palavras.

Inspirado no romance de Maggie O’Farrell e dirigido por Chloé Zhao, o filme se aproxima de William Shakespeare não pelo homem que a História consagrou, mas por aquilo que existia antes do gênio, antes do dramaturgo, antes de Hamlet: o homem, o marido, o pai. E, sobretudo, aproxima-se de Agnes, sua esposa, para contar a história de uma família que precisa descobrir como continuar existindo depois que uma ausência muda para sempre o significado de estar no mundo.

Hamnet, filho de William e Agnes, morre ainda menino. Importante compreender desde o início que o filme não pretende explicar historicamente como nasceu Hamlet. Ele faz algo mais delicado. Ele  constrói, a partir das lacunas deixadas pelo tempo, uma ponte possível entre a experiência da perda e a criação artística. E é justamente nesse território entre realidade e imaginação que a história encontra sua maior força.

Antes de Hamlet, houve Hamnet.

Antes do personagem que atravessaria séculos refletindo sobre vida e morte, houve um menino que correu, brincou, foi amado e ocupou um lugar único dentro de uma família. Antes das palavras que entrariam para a história da literatura, houve um silêncio devastador dentro de uma casa.

E é nesse silêncio que o filme permanece por muito tempo.

O luto apresentado em Hamnet não é apenas tristeza. É desorientação. Porque perder alguém que amamos profundamente não significa apenas sentir falta daquela pessoa; significa precisar reorganizar o mundo depois que uma parte fundamental dele desapareceu. A cadeira continua ali. Os cômodos permanecem. Os dias amanhecem. As pessoas continuam vivendo. Mas aquele que ficou sabe que alguma coisa mudou de lugar para sempre.

Agnes, interpretada com extraordinária intensidade por Jessie Buckley, se mostra para mim o verdadeiro coração da narrativa. Há nela uma ligação quase instintiva com a natureza, com os filhos, com aquilo que não precisa ser explicado racionalmente para ser compreendido. Sua dor parece física, como se o corpo materno continuasse procurando o filho que já não pode encontrar.

E há algo profundamente verdadeiro nisso: certas ausências permanecem inscritas no corpo.

William, vivido por Paul Mescal, sofre de outra maneira. E o filme é especialmente sensível ao mostrar que duas pessoas podem amar profundamente a mesma pessoa e, ainda assim, viver sua perda de formas completamente diferentes. Agnes permanece próxima daquilo que perdeu; William parece precisar partir. Ela mergulha na dor; ele procura transformá-la.

Não há necessariamente uma forma mais correta de sofrer, e essa, ao meu ver, é uma das grandes delicadezas do filme.

O luto não possui manual, prazo ou linguagem única. Algumas pessoas precisam falar. Outras silenciam. Algumas permanecem próximas das lembranças. Outras precisam se afastar delas para conseguir respirar. E, muitas vezes, justamente quando duas pessoas mais precisam uma da outra, a dor pode colocá-las em margens diferentes do mesmo rio.

Mas o amor continua ali.

Ferido, silencioso, quase irreconhecível, mas continua.

A natureza ocupa um espaço fundamental nessa narrativa. A terra, as árvores, os animais, a luz e as mudanças das estações parecem lembrar constantemente que a vida possui um movimento próprio, indiferente às nossas tragédias particulares. O mundo continua florescendo mesmo quando alguém acredita que nunca mais conseguirá florescer.

Há certa crueldade nisso, mas também algum consolo.

A natureza nos recorda que somos parte de algo infinitamente maior. Nascemos, amamos, perdemos, permanecemos por algum tempo e, depois, também partimos. Entretanto, aquilo que oferecemos ao mundo enquanto estivemos aqui pode continuar germinando em lugares que talvez jamais conheçamos.

A fotografia de Łukasz Żal compreende perfeitamente essa relação. Há uma beleza quase tátil nas imagens, uma câmera que parece observar sem invadir, permitindo que os ambientes, os rostos e os silêncios contem aquilo que os diálogos não conseguem dizer. Chloé Zhao, conhecida por seu olhar sensível para personagens profundamente humanos, conduz a narrativa sem transformar a dor em espetáculo. Ela permite que o sofrimento simplesmente exista.

A trilha sonora de Max Richter acompanha essa atmosfera com a delicadeza necessária. A música não tenta explicar a emoção; ela parece surgir de dentro dela. Em determinados momentos, quase sentimos que a melodia ocupa exatamente o espaço onde as palavras deixaram de alcançar.

E então chegamos à arte.

É aí que Hamnet deixe de ser apenas uma história sobre perda e se transforme em uma reflexão sobre aquilo que fazemos com as nossas dores.

William escreve.

Não porque escrever possa trazer seu filho de volta. Não porque a arte seja capaz de apagar a morte. Mas talvez porque existam sentimentos grandes demais para permanecer apenas dentro de nós. É preciso colocá-los em algum lugar. Alguns os colocam em palavras. Outros, na música, na pintura, na fotografia. Há quem plante um jardim, quem conte histórias, quem preserve objetos, quem simplesmente repita o nome de alguém para impedir que o tempo o transforme em esquecimento.

A arte não elimina a ausência.

Mas pode dar uma forma a ela.

E então Hamlet surge.

Dentro da construção poética proposta pelo filme, podemos imaginar aquela obra não apenas como criação de um dramaturgo, mas como uma espécie de monumento íntimo erguido por um pai. O nome quase igual — Hamnet, Hamlet — torna-se uma ponte entre aquele menino que viveu poucos anos e um personagem que atravessaria séculos.

É uma ideia devastadora e, ao mesmo tempo, belíssima.

Porque talvez algumas pessoas permaneçam exatamente assim: não apenas nas fotografias que guardamos ou nas histórias que contamos, mas nas transformações que provocaram em nós. Quem amamos profundamente modifica nossa maneira de olhar o mundo. E, nesse sentido, continua existindo em cada gesto nosso que nasceu daquela convivência.

A cena em que Agnes entra em contato com a representação teatral dessa dor sintetiza de maneira extraordinária essa ideia. Aquilo que, para o público, é teatro, para ela é memória. Aquilo que os outros observam como personagem, ela reconhece como filho. E, por alguns instantes, arte e vida deixam de ocupar lugares diferentes.

Talvez seja essa uma das razões pelas quais criamos.

Para tornar visível aquilo que não conseguimos explicar.

Para conversar novamente com quem já não pode nos responder.

Para conservar alguma coisa quando o tempo insiste em levar tudo.

E talvez seja também por isso que fotografamos, escrevemos, pintamos, fazemos música ou contamos histórias. Existe dentro de toda criação uma pequena tentativa humana de vencer a passagem do tempo. Apertamos o disparador de uma câmera porque sabemos, ainda que inconscientemente, que aquele instante jamais acontecerá novamente. Escrevemos porque algumas emoções precisam sobreviver ao momento em que foram sentidas.

A arte não nos torna imortais, mas talvez conceda alguma permanência ao amor.

E Hamnet fala justamente disso: de uma ausência que não deixa de doer, mas encontra outra maneira de existir.

É certo que há dores que não passam, elas apenas aprendem a habitar outros lugares dentro de nós. Com o tempo, talvez deixem de ocupar todos os cômodos da alma, mas haverá sempre uma porta que conduz até elas.

E não há necessariamente tristeza nisso.

Há memória.

Há amor.

Há a prova silenciosa de que alguém esteve aqui e foi importante o bastante para deixar o mundo (o nosso mundo) diferente depois de partir.

Vejo essa como a mais bonita leitura de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet: antes da grande obra existiu um menino; antes da literatura existiu um pai; antes da arte existiu o amor.

E quando a vida já não conseguiu conservar aquilo que ele amava, a arte encontrou uma maneira de não deixar que desaparecesse completamente.

Vale a pena assistir.

@aeternalente

Olinda Altomare

About Author

Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.

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