Se você frequentou o Catecismo da Igreja Católica ou a Escola Dominical da Evangélica, deve ter ouvido sobre a besta de Balaão, a incrível mula que falava.
— “Elas continuam falando!” dirão os zombeteiros, referindo-se maldosamente a algumas influencers da moda.
Mas essa mula era muito comedida, ao contrário das de hoje. Parece que falou uma única vez e numa situação meio complicada. Para alguém que nunca frequentara escolas, apresentou um discurso até elegante: concordância perfeita, boa dicção e uso correto de pronomes.
A mula do profeta Balaão não pertence ao grupo dos animais folclóricos que aparecem nas fábulas de Esopo, tais como O Cordeiro e o Lobo, O Corvo e a Raposa ou o Coelho e a Onça, que supostamente conversavam como humanos. Afirmam muitos estudiosos da Bíblia que ela existiu realmente. Parece que seu dono não lhe conhecia o dom da fala, embora convivesse com ela por muitos anos e a utilizasse nas viagens proféticas.
Um dia, lá ia o profeta — conta a Bíblia — montado no ainda não famoso animal, preocupado com o que falaria ao rei Balaque, com quem ia se encontrar, quando a mula dá um bufo apavorado e, mudando rapidamente de rumo, quase joga no chão o cavaleiro, que aqui deveríamos chamar de muleiro, porque montava uma mula e não um cavalo.
A besta assustada enveredou por uma plantação de trigo, obrigando seu dono a usar seus dotes de ginete e a força física para interromper aquela carreira desembestada, sem trocadilho, é claro.
Estancada a correria, o animal empaca. O profeta, homem misericordioso, sereno e comedido, desceu o porrete na cabeça da mula, irritado com a sua repentina teimosia. Ele ficou admirado com o comportamento do bicho que sempre fora manso e obediente, e de repente está ali deitado no chão, recusando-se a levantar. E dê-lhe mais pauladas no lombo e na anca.
Foi aí que a mula abriu a boca e soltou o verbo: “Calma aí, sua besta!” Não, não, ela não falou desse jeito, isso é invenção do cronista. Seria demasiada ousadia chamar de besta o consagrado profeta que era também seu dono.
— “Por que estás me espancando desse jeito, meu senhor?” Disse ela, “não vês o Anjo que está à nossa frente, com a espada desembainhada, pronto para degolá-lo, se dermos um passo a mais?”
O Padre ou o Pastor deve ter-lhe ensinado, caro leitor, que nessa hora Balaão, o profeta, viu o Anjo e entendeu que estava desobedecendo as ordens divinas.
Acho que não se desculpou com o animal pelas porretadas que lhe dera, mas não tenho certeza. É bom confirmar com os professores de religião.
Boa mula esta. Livre de ressentimentos salvou da morte o seu dono que agorinha mesmo a espancava. Embora não se saiba com certeza, Balaão, arrependendo-se do destempero, deve tê-la recompensado ricamente. Provavelmente nunca mais trabalhou (ela, não ele), vivendo seus dias restantes com o cocho cheio de milho e em doce ociosidade.
Filosofando também, o que é próprio dos burros e das mulas, conforme nos garante o inigualável Machado de Assis.
Renato de Paiva Pereira.

