A administradora responsável pela recuperação judicial do produtor rural José Pupin — nacionalmente conhecido como o “Rei do Algodão” — voltou a acionar a Justiça para pedir a decretação oficial da falência do grupo. O argumento central da petição é que o estrangulamento financeiro dos recuperandos chegou a um nível tão crítico que eles não possuem condições de arcar sequer com os custos essenciais para manter o processo de reestruturação funcionando.
O pedido foi protocolado no dia 18 de junho na 1ª Vara Cível de Campo Verde. Para a administradora Glaucia Albuquerque, a circunstância revela a total inviabilidade de manutenção do regime de recuperação judicial.
Sem dinheiro para o básico
De acordo com o documento apresentado ao juízo, a persistência do calote, mesmo após diversas tentativas de captação de recursos, “revela uma situação mais ampla do que o simples atraso de uma obrigação”.
Antes de pedir a falência, a administradora tentou salvar os custos do processo solicitando que parte dos recursos provenientes do arrendamento da Fazenda Lima fosse reservada para o pagamento de sua remuneração. Contudo, uma decisão da 3ª Vara Cível de Cuiabá determinou que os valores do arrendamento ficassem bloqueados para cobrir outra execução de dívida. Sem dinheiro em caixa e com os bens travados, a administradora reconheceu que não restou outra alternativa senão pedir a falência.
No mesmo pedido, ela solicitou a retirada do sigilo de documentos anexados ao caso, alegando que não há mais motivos para preservar o caráter reservado do colapso financeiro.
Sombra do escândalo no TJMT
O agravamento do caso ocorre em um momento de alta tensão nos bastidores jurídicos. O pedido de falência esbarra em denúncias recentes feitas pelo próprio Pupin, que apontou possíveis irregularidades na condução de sua recuperação judicial.
O caso do “Rei do Algodão” foi citado nas investigações que apuram um suposto esquema de venda e compra de sentenças envolvendo o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) — escândalo que veio à tona após a quebra do sigilo das mensagens do celular do advogado assassinado Roberto Zampieri.
Um passivo histórico de R$ 3,5 bilhões
O processo de José Pupin Agropecuária e Vera Lúcia Camargo Pupin se arrasta desde 2017 e é considerado um dos maiores e mais antigos casos de recuperação judicial ligados ao agronegócio de Mato Grosso, envolvendo um passivo superior a R$ 3,5 bilhões.
Ao longo dos anos, o histórico do grupo tem sido marcado por promessas de pagamento e renegociações frustradas:
- Um plano de pagamento foi aprovado em 2018, mas logo acumulou queixas de descumprimento por parte dos credores.
- Em 2024, um novo aditivo ao plano foi aprovado para tentar dar fôlego ao produtor rural.
- Em 2025, a Procuradoria-Geral do Estado de Mato Grosso (PGE-MT) já havia pedido a conversão da recuperação em falência devido ao calote em acordos fiscais.
Relatórios recentes da administração judicial apontam uma forte omissão de informações contábeis por parte da empresa, além de um endividamento crônico e baixa capacidade de pagamento em curto prazo. A decretação final da falência agora depende da análise minuciosa do juiz responsável pelo caso.



