Estamos em plena onda da comida saudável, tudo deve ser rigorosamente planejado: garantem que gordura faz mal e a carne, quem não consegue ficar sem, deve comer somente a super magra (seca, melhor dizendo) passada na chapa só com um pingo de óleo. Isso ainda como concessão, porque o ideal é a deliciosa “carne” de soja.
A alimentação precisa ser balanceada. O celular com um aplicativo que soma todos os consumos diários deve ficar sobre a mesa. Os celulares, devo dizer, porque cada familiar tem o seu. E o que é pior, não se contentam em medir o próprio consumo. Fiscalizam, cada qual, a comida do outro, discutindo entre si, se comeu uma colher de arroz ou duas. No fim, comparam quem foi campeão (invertido) de consumo.
Ventrecha de pacu frita? Nem pensar. Pra que comer esse veneno, se tem o filé de tilápia, magro e saudável, grelhado na chapa, sem sal e sem óleo? Muito mais nutritivo, afirmam, além de ecologicamente correto, pois é criada em cativeiro.
Açúcar? Esqueça. Use somente adoçante artificial. Nos fins de semana, se seguir toda a dieta sem desvios, pode comer um pouquinho do gostoso e natural açúcar mascavo.
O pão está cortado da dieta: descobriram agora que um dos maiores inimigos da saúde é o trigo. Depois de mais de cinco mil anos comendo o dito cereal, concluíram que ele é responsável por uma enormidade de doenças e pela obesidade.
E o sal? Quase o baniram da comida. Meio quilo de sal lá em casa está dando para o ano inteiro. Faz tanta falta que muitos invejam as vacas que, nas invernadas, lambem sal à vontade.
E a tal cerveja sem álcool? Alguns pesquisadores estão dizendo que não existe dose segura de álcool, o ideal é não tomar nada que tenha álcool.
Repetem ainda que não podemos comer alimentos industrializados, os que têm muitas calorias, aqueles com glúten, outros que aumentam o colesterol. Embutidos, nem pensar. Ovo pode: sem sal e sem azeite.
Não bastasse tudo isso, ainda insistem na ginástica, essa epidemia moderna. Prática que exige o comparecimento da vítima nas ruidosas academias, devidamente pilchada (vestida à caráter), acompanhada do indefectível personal trainer.
Tem ainda a água. Não convém tomá-la à vontade como antigamente. Agora é necessário saber que para tantos quilos de peso humano, são necessários tantos litros, bem distribuídos durante o dia. Pesquisei na Internet e descobri que devo tomar 2,1 litros por dia.
Estou me adaptando, ontem à tarde fiz o balanço do dia: uma hora de academia de manhã, alimentação sem proteína ou gordura animal, um sachê de 1 g. de sal, zero açúcar, duas colheres de arroz e dois pratos de verduras e legumes. Como faltavam 300 ml de líquido para completar minha cota diária, pensei em tomar uma latinha de cerveja.
—Você está louco? “No pain, no gain.”- Grita meu superego, repetindo em inglês esse clichê das academias.
Tomei a água que faltava e fiquei meio triste. Amanhã — pensei — vou consultar a Dra. Raimunda Sensitiva, psicóloga francesa que atende pela internet. Talvez ela descubra a causa do meu desconsolo.
Em seguida tomei um Rivotril e fui dormir.
Renato de Paiva Pereira.


