Olinda Altomare Opinião

Não Nos Ofereçam Flores: Ofereçam-nos Respeito

A história da mulher no mundo é, em muitos sentidos, a história de uma travessia. Uma caminhada longa, marcada por silêncio, resistência e, sobretudo, pela lenta conquista do direito de existir com voz própria.

Durante séculos, a mulher foi mantida à margem das decisões que moldavam a sociedade. Sua presença era confinada aos espaços privados, como se sua inteligência, sua sensibilidade e sua capacidade de criação não pertencessem ao destino coletivo da humanidade. O mundo era narrado pelos homens, legislado pelos homens, pensado pelos homens. À mulher cabia, muitas vezes, apenas obedecer e permanecer invisível.

Mas a história não permanece imóvel.

Como um rio que insiste em encontrar passagem entre as pedras, as mulheres começaram a romper os limites impostos. Vieram as primeiras vozes que exigiram o direito à educação, depois o direito ao voto, o direito ao trabalho, o direito de decidir sobre o próprio corpo e o próprio destino. Cada conquista foi fruto de luta, de enfrentamento e, muitas vezes, de coragem solitária.

O século XX testemunhou avanços importantes. As mulheres passaram a ocupar universidades, tribunais, parlamentos, centros de pesquisa e espaços de liderança. A lei começou, pouco a pouco, a reconhecer direitos antes negados. O mundo moderno passou a declarar, ao menos em suas normas, que homens e mulheres são iguais em dignidade.

Entretanto, entre aquilo que a lei proclama e aquilo que a realidade pratica, ainda existe uma distância dolorosa.

O preconceito não desapareceu; apenas mudou de forma. Ele se manifesta nas pequenas frestas do cotidiano. Está no comentário desdenhoso que diminui a inteligência feminina, na desconfiança silenciosa diante de uma mulher em posição de autoridade, na expectativa ainda persistente de que ela precise provar, todos os dias, que merece ocupar o lugar que conquistou.

Na vida doméstica, muitas mulheres ainda enfrentam o peso invisível da sobrecarga. Trabalham fora, estudam, produzem, mas continuam sendo vistas como as únicas responsáveis pelo cuidado da casa, dos filhos, da rotina familiar. Como se o tempo da mulher fosse elástico e sua força inesgotável.

Na vida estudantil, ainda enfrentam olhares que questionam sua presença em determinadas áreas do conhecimento. Nas salas de aula, nas bibliotecas e nos laboratórios, muitas jovens ainda escutam, direta ou indiretamente, que certos caminhos não lhes pertencem.

E no ambiente profissional, embora avancem em competência e formação, continuam lidando com barreiras sutis e persistentes: salários menores, oportunidades desiguais, interrupções constantes de suas falas, avaliações mais severas, dúvidas silenciosas sobre sua capacidade de liderança.

Mas há algo ainda mais grave que atravessa essa realidade: a escalada da violência.

A violência contra a mulher não é apenas um problema social; é uma ferida moral aberta na consciência da humanidade. Ela se manifesta no lar, nas ruas, nos ambientes de convivência, muitas vezes praticada por aqueles que deveriam proteger. E o que mais assusta não é apenas a violência em si, mas a crueldade que frequentemente a acompanha — como se o simples fato de ser mulher ainda autorizasse, em certos espíritos deformados, a negação de sua dignidade.

Todos os dias, mulheres são silenciadas pela agressão, pelo medo, pela ameaça constante. Algumas perdem a liberdade; outras, tragicamente, perdem a própria vida.

Diante disso, é impossível não sentir indignação.

Não se trata de pedir gentileza decorativa. Não se trata de flores oferecidas uma vez por ano, em gestos simbólicos que pouco alteram a realidade concreta.

As mulheres não precisam de homenagens vazias.

Precisam de respeito.
Respeito no lar, onde o amor não pode conviver com a violência.
Respeito na escola, onde o talento feminino deve florescer sem desconfiança.
Respeito no trabalho, onde competência não tem gênero.
Respeito nas ruas, onde nenhuma mulher deveria caminhar com medo.

O que se reivindica, no fundo, não é privilégio. É algo muito mais simples e muito mais profundo: dignidade.

A dignidade de existir sem precisar justificar sua presença.
A dignidade de ocupar espaços sem ser constantemente testada.
A dignidade de viver sem medo.

A história das mulheres ainda está sendo escrita. Cada geração acrescenta novas páginas a essa narrativa de resistência e transformação, e, talvez a grande tarefa do nosso tempo seja transformar indignação em consciência, e consciência em mudança real.

Porque o mundo só será verdadeiramente justo quando nenhuma mulher precisar lutar, todos os dias, apenas para ser tratada como aquilo que sempre foi: plenamente humana.

Feliz existência para nós, mulheres!

@aeternalente

Olinda Altomare

About Author

Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.

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