Cidades

Trans são excluídos do mercado de trabalho em Mato Grosso

O Brasil continua sendo um dos países mais violentos do mundo para trans e homossexuais. O alto índice, segundo pesquisas, é resultado de uma pequena parcela da população que vive à margem da linha de risco da vulnerabilidade social. Indiretamente, o mercado de trabalho também tem contribuído para a produção e elevação desses números, quando muitos resolvem fechar as portas e muitas vezes humilhar essas pessoas, devido ao preconceito e ao padrão imposto pela sociedade. Em pleno século XXI ainda existem pessoas que acreditam que capacidade e “vestimenta” devem caminhar lado a lado, um dos motivos pelo qual a indústria também deixa de produzir e a crise domina o mercado.

Juliana Rangel, 52 anos, é transexual

Juliana Rangel, 52 anos, é transexual e está desempregada há um ano e meio. Ela conta sobre as dificuldades que enfrenta na hora de procurar emprego, muitas vezes nem chega a ser recebida pelos representantes dos locais.

“Muitas pessoas acham que é uma opção ou questão de orientação sexual. Só que não tem nenhuma relação. Eu me identifico realmente com o sexo feminino, com o universo feminino, pois assim me sinto muito mais feliz. Eu já cheguei a chorar de tanto ter sido maltratada em ambientes de trabalho, tanto que em shoppings só recebo negativas, às vezes nem me recebem”, revela.

Juliana Rangel antes da transformação

Além disso, a locutora conta que sofreu inúmeros preconceitos na época em que trabalhava e que chegou a ser humilhada por causa de sua aparência, tanto que foi mandada embora.

“Eu trabalhava em uma farmácia naquela época e chegou um homem lá dizendo que eu não era mulher e sim homem e que não poderia trabalhar lá. Ele conseguiu fazer com que me mandassem embora. Sofri muito, até desisti de sair em muitos lugares. Uma vez o gerente disse que queria me matar, eu aguentei porque ia fazer o quê? Eu precisava do trabalho, né”, conta a trans.

Juliana sobrevive atualmente com economias que conseguiu juntar ao longo da vida. Ela destaca que também cuida da mãe que já é idosa e está debilitada, de modo que depende exclusivamente dos seus cuidados. Contudo, a trans reclama ainda que desde que se assumiu como mulher nunca mais foi contratada.

“Desde que assumi de verdade, não consegui mais nada, nem na informalidade. Já levei currículo em várias lojas e é sempre ‘não’. Eu estou cansada de tanto sofrer preconceitos, às vezes até desanimo. Eu moro com a minha mãe e faço tudo porque ela tem 80 e está debilitada, não pode fazer. A gente vive com muito pouco, meus irmãos também ajudam”, explica.

Preconceito pode levar à prostituição

vice-presidente do Grupo Livremente em Cuiabá, Xica da Silva

A vice-presidente do Grupo Livremente em Cuiabá, Xica da Silva, 25 anos, explica a importância do Movimento LGBT (sigla para lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros) ao qual ela também faz parte, na luta para a categoria ter os direitos assegurados.

“Hoje eu sou vice-presidente do Grupo Livremente e por ser travesti e fazer parte desse movimento levo, sim, vários ‘nãos’. Corremos atrás dos nossos objetivos, nossos direitos e a gente busca essa meta, principalmente com relação ao nome social que é uma dificuldade muito grande porque como não regularizamos o nome social ainda, no currículo está um e na apresentação é outro. Acaba que pessoa que vai contratar sempre fala que vai retornar e nada”, reclama.

Xica explica, contudo, que pela falta de espaço muitas travestis acabam ficando sem opção e entram para o mercado da prostituição.

“É muito difícil hoje em dia você encontrar uma transexual ou uma travesti no mercado de trabalho por causa do preconceito. Se não somos aceitos nesses lugares, a rua vai nos acolher. Alguns nem chegam a procurar serviço. Já outros saem da escola e desistem por causa do currículo que não está nos padrões que a sociedade pede”, enfatiza.

Comércio ainda segue modelo arcaico

O país ainda continua atravessando situação de crise em diferentes aspectos além do financeiro e a inserção no mercado de trabalho é tema pouco discutido com setores de contratação, como explica o vice-presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá (CDL), Célio Fernandes.

 “O comércio no geral ainda segue aquele padrão ou modelo arcaico de civilização. Estamos longe de tornar o mercado de trabalho igualitário, em que as pessoas são escolhidas pela sua competência e não pela escolha de gênero. Infelizmente essa é uma das barreiras que essas pessoas vêm enfrentando”, disse.

Questionado sobre capacitação, encontros ou seminários ministrados pela CDL, Célio respondeu que a organização não promove este tipo de evento, mas que alguns associados interessados no tema visam tratá-los em seus respectivos espaços.

“Não, a CDL não chega a promover estes eventos com cobertura específica para debater esse tema. Mas alguns associados, sim, de vez em quando encaminham convites para debater temas correlacionados”, afirma.

 

 

Redação

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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