Valmir Moretto, Elizeu Nascimento, Faissal Calil e Juarez Costa tentam blindar suas imagens contra denúncias que vão de fraudes em licitação a esquemas de venda de sentenças e propina milionária
O ano eleitoral de 2026 em Mato Grosso tem sido marcado por uma forte ofensiva das autoridades contra a classe política. Em meio a um cenário nacional já tensionado por escândalos, quatro parlamentares mato-grossenses que buscam a reeleição em outubro enfrentam o desafio de fazer campanha sob a sombra de graves investigações.
Os deputados estaduais Valmir Moretto (Republicanos), Elizeu Nascimento (Novo) e Faissal Calil (PL), além do deputado federal Juarez Costa (Republicanos), viraram alvos do Ministério Público e da Polícia Federal (PF) em operações distintas ao longo do primeiro semestre. Agora, correm contra o tempo para tentar neutralizar o desgaste de imagem perante os eleitores.
Abaixo, entenda as acusações que pesam sobre cada um e as estratégias de defesa adotadas.
Valmir Moretto: O “ato falho” no vídeo da licitação
Em março, Valmir Moretto entrou no radar do Ministério Público e do Tribunal de Justiça (TJMT) após um vídeo viralizar nas redes sociais. Durante a assinatura de um contrato de pavimentação asfáltica ao lado do ex-governador Mauro Mendes (União), o deputado celebrou a vitória da empresa de sua família na licitação dizendo: “Duas da Agrimat e uma minha”.
A fala, captada sem que ele percebesse que estava sendo gravado, acendeu o alerta, pois a Constituição proíbe o envolvimento de parlamentares em licitações públicas.
- A defesa: Moretto alega que a Oeste Construtora pertence ao seu irmão desde 2018 e que usou a expressão “minha” apenas por força do hábito. Ele classifica a investigação, que corre em sigilo, como difamação e distorção por parte da imprensa.
Elizeu Nascimento: R$ 150 mil em casa e a “Emenda Oculta”
No final de abril, o Núcleo de Ações de Competência Originária (Naco) deflagrou a Operação Emenda Oculta. Elizeu Nascimento tornou-se suspeito de desviar mais de R$ 7 milhões em emendas parlamentares destinadas aos institutos ISMAT e IBRACE. Os valores seriam repassados a uma empresa de eventos.
A investigação flagrou movimentações bancárias atípicas do deputado e de seu irmão, o vereador Cezinha Nascimento (União). Durante o cumprimento de mandados, a polícia apreendeu mais de R$ 150 mil em espécie na casa do deputado. O TJMT negou o seu afastamento da Assembleia, mas impôs medidas cautelares.
- A defesa: Elizeu alega tranquilidade e justifica que o dinheiro vivo é fruto de verba indenizatória, salário, aposentadoria da PM e do seu “hábito” de guardar valores em casa. Sobre as emendas milionárias, afirma que o recurso foi destinado à compra de kits de educação física para escolas militares.
Faissal Calil: Venda de sentenças e lavagem de dinheiro
Em junho, a Operação Gemini (desdobramento da Sisamnes) colocou o deputado Faissal Calil na mira da Polícia Federal. Ele é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro e venda de sentenças no Judiciário estadual. A PF aponta que o parlamentar teria atuado como “laranja” do desembargador aposentado Dirceu dos Santos (também alvo da operação). A quebra de sigilo bancário identificou mais de R$ 3,2 milhões em saques e depósitos suspeitos.
- A defesa: O deputado foi o único a divulgar um vídeo nas redes sociais para se defender. Ele justificou as movimentações e as trocas de mensagens com o falecido advogado Roberto Zampieri afirmando que atua há anos como advogado na questão fundiária e que os diálogos se referiam a uma disputa legal de terras em Ribeirão Cascalheira, e não à compra de decisões judiciais.
Juarez Costa: Propina de R$ 30 milhões e carro de luxo
Também em junho, o deputado federal Juarez Costa foi formalmente delatado no Superior Tribunal de Justiça (STJ) por ex-executivos da concessionária Aegea. Ele é acusado de receber R$ 30 milhões e uma BMW como propina para favorecer a empresa na concessão dos serviços de água e esgoto em Sinop, entre 2009 e 2016, quando era prefeito do município.
- A defesa: Juarez emitiu nota negando veementemente o recebimento de vantagens indevidas. Ele argumenta que o vazamento do caso é uma retaliação com motivação política (“eleitoreira”), uma vez que os fatos são antigos. Em coletiva, chegou a alfinetar seu principal adversário regional, o ex-deputado Nilson Leitão.
A estratégia da sobrevivência política
Todos os citados negam qualquer tipo de envolvimento nos crimes. Segundo o jornalista e marqueteiro político Kleber Lima, o posicionamento rápido e transparente é a melhor tática de controle de danos.
“O eleitor decide o voto com base na percepção da realidade. Uma denúncia, ainda que não seja verdadeira, se parecer verdadeira para o eleitor, pode ser fatal”, explica o especialista.
Lima destaca que a blindagem desses candidatos dependerá da força de suas reputações, construídas ao longo dos anos com suas bases. “O mais difícil é provar a inocência, porque depende, às vezes, de decisão judicial. O que pode ser feito é tentar tirar o foco da denúncia”, avalia o marqueteiro, ressaltando que, faltando poucos meses para as eleições, o tempo pode jogar a favor dos parlamentares — desde que fatos novos não venham à tona.


