O que um dia já foi motivo para piadas e atitudes racistas, hoje é um dos motivos de orgulho de Sabrina Teixeira de Figueiredo, 16 anos, uma modelo cuiabana. Negra e de cabelos cacheados assumidos, após três anos de alisamento, a jovem chamou atenção do Edson Guilherme, produtor de moda em Cuiabá, e ele garante que a adolescente é uma promessa no ramo.
A história de Sabrina nunca foi muito fácil. De uma família sem muitas condições financeiras, a jovem foi abandonada pela mãe com apenas três semanas de vida. Aos 15 anos, ela conheceu a progenitora e entendeu que tudo foi feito pelo seu melhor. Sua genitora não tinha condições financeiras de cria-la e a vó paterna era sua melhor chance.
“Eu não tive muitas oportunidades, muitas escolhas… Desde os seis anos eu sonhava em ser modelo. Eu gostava de ver as meninas nas passarelas, as roupas diferentes e os estilos. Eu sempre gostei de tudo que é ligado a moda”, conta a adolescente.
Enquanto mantinha seus sonhos, Sabrina sempre estudou em escolas públicas e atualmente é aluna do ensino médio na Escola Estadual Liceu Cuiabano. Durante a infância a menina sofria racismo. Sua cor e cabelo eram motivos de piadas e professores, inclusive, mandavam a criança prender seus cachos.
Desde a infância Sabrina deixou de gostar da cor dos olhos, a cor da sua pele e seus cachos. Por volta dos 12 anos de idade ela decidiu alisar o cabelo e passou por procedimentos químicos durante três anos, até que decidiu assumir sua verdadeira identidade capilar.
Enquanto todas essas questões familiares e de autoestima passavam pela vida de Sabrina, ela compartilha que no decorrer dos últimos anos apareceram pelo menos quatro oportunidades para que fosse tentar ser modelo em São Paulo. Todavia, sem condições financeiras para pagar sua passagem e moradia, ela continuou em Cuiabá.
Um dia o pai de Sabrina a contou que conhecia Edson Guilherme e que poderiam tentar um contato para ajudar a garota. Sempre com o apoio da família, ela buscou a agência e conheceu o produtor.

“Ele me viu e disse ‘seu estilo é diferente, eu gostei de você e quero você aqui’. Eu fiquei espantada quando ele disse isso, me deu mais vontade de ficar na agência dele e nunca mais sair. Ele disse que a cor da minha pele, os olhos e o cabelo são diferentes. Eu nunca gostei disso em mim desde pequena e ele me fez gostar de mim mesma, me aceitar do jeito que eu sou e o meu cabelo também”, relata Sabrina.
Para iniciar sua carreira, aa adolescente pediu ajuda financeira à tia, que sempre a incentivou e decidiu investir na sobrinha. Desde abril de 2019 ela é treinada e já realiza trabalhos como modelo, como um desfile de joias que participou este ano.
Com 1,75 m de altura, Sabrina passa por cursos de etiqueta, imagem e passarela. Atualmente, até quem um dia criticou seus cachos, há anos atrás, elogia e diz que fica melhor solto.
“Hoje eu me sinto melhor, me sinto bem. Se você tem um sonho é melhor ir buscar né. Mesmo que seja caro, tem que batalhar por ele”.
Para além da moda, Sabrina foi questionada sobre um futuro acadêmico. Ela garante que continuará seus estudos e planeja cursar a graduação de medicina ou designer de moda.
Ramos completamente opostos, ela declara que sempre gostou de cirurgias e é isso que chama atenção na área médica, não tem uma área específica. “Eu sempre gostei de cirurgia e sempre gostei de ter um desafio. Todo mundo sempre fala que medicina é difícil, que vai perder horas da sua vida, em estudos… mas se a gente não tiver estudo, o que a gente vai ter? Nada. A gente depende do estudo, com ele a gente sempre vai para frente”.
Já sobre ser designer de moda, ela relembra que sempre gostou de trabalhar com roupas e estilo. Sempre busca ajudar quem pede algum conselho desse tipo e por isso acredito que seja uma área que possa trabalhar.
Independente do ramo que seguir, Sabrina Teixeira de Figueiredo deseja que qualquer garota que sonhe em ser modelo, não importa o tamanho, cor da pele, tipo de cabelo, ela deve seguir o próprio sonho.
“Eu quero servir de inspiração! Quero inspirar outras meninas! Não tem muitas meninas negras, mas não é só menina branca, de cabelo loiro com olhos claros que consegue. Cada trabalho tem um padrão diferente. Todas podem”.
O produtor

“A Sabrina é uma menina que tem um visual exótico que combina com o mercado atual”, declara Edson Guilherme. O produtor que atua mais há mais de 30 anos no mercado de moda e atualmente tem um casting de 80 modelos entre mulheres, homens e crianças.
“A modelo precisa ter atitude e personalidade bacana para poder fotografar. A Sabrina é uma menina que a gente tem que respeitar, é uma menina que vai acontecer. Ela é uma promessa de mercado, é uma menina que pode se tornar uma grande top model. Ela é diferenciada. Se você colocar ela em uma parede com dez, ela é quem chama atenção.”
Sobre ser modelo, Edson explica que os treinamentos que aplica proporcionam a busca pela postura, atitude, estilo marcante e expressões fortes do profissional. Além de ensinar técnicas de passarela e posições de corretas para colocar a mão na cintura e no bolso.
“O modelo tem que ser uma pessoa natural e com muita atitude. E o mercado da moda é um mercado milionário e em ascensão. Todo mundo veste uma roupa, por mais simples que seja. Sempre vai ter trabalho na área”.
O produtor aponta que Mato Grosso tem muita matéria prima, muitas modelos saem daqui e brilham em outros estados, com oportunidades para o exterior, mas lamenta que não há uma identidade local de moda na região.
Edson Guilherme também fala que a moda está muito inclusiva. São várias pessoas com tamanhos, cores e estilos diferentes. “Hoje todo mundo está na moda. Não existe aqueles padrões de beleza que tem que ser seguido. Abriu um leque e os padrões de beleza estão mudando. Bota a cara no sol e vamos brilhar”.



