A pastora Orminda Carlos de Barcelos Almeida, matriarca de uma família investigada por integrar o Comando Vermelho (CV) em Mato Grosso, desempenhava um papel central e ativo na engrenagem criminosa da facção. É o que aponta a denúncia ajuizada pelo Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco) no último dia 11.
Embora mantivesse uma postura socialmente discreta, as interceptações da Operação Fariseus revelaram que Orminda funcionava como a principal ponte de comunicação e logística entre faccionados presos na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá, e membros do grupo em liberdade.
“Família Suja” e Venda de Armas
O material probatório reunido pela Polícia Civil e pelo Ministério Público inclui fotos, cartas e dezenas de mensagens. Em um dos diálogos mais comprometedores, Orminda avisa à filha, Rhavenna Barcelos (principal alvo da operação), que iria a um sítio com o marido buscar um armamento: “Vamos lá buscar uma arma pra vender”.
O marido em questão era o também pastor Nivaldo de Almeida, que faleceu de câncer na semana passada. Nivaldo aparece nos autos segurando uma arma e fazendo o sinal da facção.
Apesar do envolvimento profundo, as interceptações flagraram um momento de conflito moral da pastora. Em conversa com a filha, Orminda lamenta que a família estivesse fazendo “o que Deus não queria”. A resposta de Rhavenna foi direta: “Somos uma família suja”.
A Fachada Religiosa e a Confiança dos Presos
A Operação Fariseus, deflagrada em julho, desvendou que o grupo utilizava um projeto social ligado à igreja, chamado “Equipe Evangelismo Resgatando Vidas”, como fachada. O serviço religioso servia para facilitar a entrada de celulares na PCE e estabelecer o trânsito clandestino de mensagens, ordens e dinheiro.
O grau de intimidade de Orminda com os criminosos era tamanho que cartas apreendidas revelaram que três presos — identificados como Júlio, Júnior e Escobar — a chamavam carinhosamente de “mãe”. Nas correspondências, eles pediam que a pastora guardasse valores financeiros e levasse itens específicos para dentro do presídio.
A investigação também aponta que Orminda dominava a rotina da cadeia, avisando a filha quando os detentos estavam “sem telefone” após revistas nas celas.
Conexões com a Alta Cúpula do CV
A atuação da matriarca não se limitava a criminosos de baixo escalão. O Gaeco mapeou o contato direto da família com as principais lideranças do Comando Vermelho no estado:
- Renildo Silva Rios (“Zoio” ou “Velhote”): Apontado como o fundador do CV em Mato Grosso e namorado de Rhavenna. Em dezembro de 2024, Orminda repassou uma ordem direta de Renildo para que a filha “vigiasse o morro” no Rio de Janeiro.
- Jonas (“Batman”): Quando o faccionado saiu da prisão, a pastora avisou Rhavenna rapidamente. Investigações mostram que Orminda chegou a frequentar a residência do criminoso e mantinha contato com ele enquanto estava foragido.
- Sandro Louco: O principal líder da facção em MT também surge nas conversas. Em fevereiro deste ano, Rhavenna pediu à mãe que ela e Nivaldo fossem visitar o criminoso de alta periculosidade.
A denúncia do Ministério Público acusa Orminda de lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa. A acusação destaca que sua presença no esquema não era meramente circunstancial por causa da filha, mas sim uma atuação estruturada de recebimento e guarda de valores ilícitos. O caso agora aguarda análise do Poder Judiciário.

