Cidades

Órgãos investigam abuso de trabalho em arenas olímpicas

Funcionárias passam horas em pé, sem cobertura e até oito horas sem comida. Alguns chegam a desmaiar (Foto: Divulgação/Ministério do Trabalho e Emprego)

As reclamações de falta de comida e serviços em diversos locais de competição se avolumaram nos primeiros dias de Olimpíada. Os trabalhadores terceirizados, no entanto, enfrentam suas próprias dificuldades: muitos enfrentam jornadas excessivas, falta de  folgas e só se alimentam depois de mais de oito horas de trabalho. Nesta quarta-feira (10), na sede do Ministério Público do Trabalho, no Centro do Rio, uma das empresas vai assinar um termo de ajustamento de conduta para melhorar as condições dos trabalhadores até a próxima sexta-feira (12). Caso o acordo não seja respeitado, a autuação prometida pode ser transformada em multa.

Entre as melhorias pedidas conjuntamente pelos Ministério do Trabalho e Emprego e MPT, estão garantia do acesso de trabalhadores ao refeitório, disponibilizar água, permitir alimentação saudável duas vezes por dia (para jornada de oito horas) ou até três, em casos de jornada de 12x 36 horas. Além disso, as empresas devem providenciar tendas, bonés e protetores solares, assentos para descanso dos trabalhadores, adoção de ponto de registro eletrônico.

De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego, a situação foi vista no Engenhão, Maracanã, Deodoro e na Arena Olímpica. A Man Power Group, empresa de recursos humanos que é citada em seu site como recrutadora oficial para a Olimpíada, foi convocada para prestar esclarecimentos, assim como a Food Team, já autuada por problemas do mesmo tipo no Parque Olímpico, a Dicas do Chefe e a Marzan, especializada em limpeza.

No Parque Radical, em Deodoro, há relatos de jornada de trabalho exagerada e trabalhadores desmaiando de fome, em dias de sol forte durante a Olimpíada. "Queremos que as empresas que exploram a atividade trabalhista tanto na parte de alimentos quanto de souvenirs que respeitem a legislação trabalhista. Porque o trabalhador mal tratado serve mal, e isso vai contra o espírito olímpico, e compromete o serviço feito ", afirmou o auditor fiscal Cláudio Secchyn.

O lanche servido a eles é uma pilha de cachorros quentes, colocados em uma caixa de papelão e dadas depois de até 8 horas de trabalho contínuo, sem cobertura. A média de trabalho é de 12 a 15 horas, em média, segundo auditores fiscais."A legislação não diz que tipo de alimentação deve ser, mas o bom senso diz que não se pode comer só sanduiche. Não é saudável", afirmou.

Horas extras
A quantidade de horas extras também é um problema para a legislação trabalhista. Segundo Secchyn, o acordo da empresa Food Team seria ilegal, segundo a legislação vigente. “A gente não está entendendo como estando dentro da legislação. Teria que haver um trabalho em dois turnos, com acréscimo de até duas horas diárias para que esse acordo pudesse ocorrer”, disse Cláudio.

Serão encaminhados para as empresas autos de infração referentes ao atraso de fornecimento de documentação, falta de intervalo para repouso e alimentação. Se for comprovado, também haverá autos de infração encaminhados pela falta de pagamento horas extras. "Sabemos que esses grandes eventos empregam muita gente, mas também que essas terceirizações acabam precarizando o trabalho", afirmou o chefe de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, Márcio Guerra. "As empresas se mostraram dispostas, mas têm que mostrar essas melhorias imediatas até sexta-feira (12)", reforçou ele.

Em nota, a Food Team informou que “o aumento do turno de trabalho de alguns funcionários ocorreu por conta da ausência de aproximadamente 40% do efetivo contratado” e afirmou que “todos os direitos trabalhistas, inclusive as horas extras efetivamente trabalhadas, serão devidamente pagas e respeitadas”.

Já a Man Power Group e a Marzan não responderam até o fechamento desta reportagem. O Comitê Rio 2016 informou que preza pelo respeito aos direitos trabalhistas e acompanha de perto a solução dos problemas pelo concessionário

‘Muita humilhação’, reclama funcionária
Contratada pela Man Power Group para trabalhar como caixa durante a olimpíada, uma mulher de 26 anos, que pediu para não ser identificada, disse que se sentiu humilhada pela falta de respeito da empresa com os funcionários. Ela afirma que nos dois primeiros dias de trabalho sequer lhes foi garantido água para beber.

“É muita humilhação. O que não falta é testemunha e eu vou processar a empresa quando o trabalho acabar. O que mais me revolta é eles se dizerem a maior empresa de RH especializada em grandes eventos no Brasil, e faz as pessoas passarem por essa humilhação”, desabafou.

Ela contou ao G1 que os problemas com a empresa começaram antes mesmo do início do trabalho na Olimpíada. “Tivemos que passar por vários treinamentos em São João de Meriti. E para passar por eles tínhamos que enfrentar filas enormes, sob o sol, sem alimentação. Muitas pessoas não aguentavam e passavam mal”, contou.

Encaminhada para trabalhar em uma loja no Parque Olímpico de Deodoro, ela afirmou que passou mal no segundo dia de trabalho. “Eles prometeram que ia ter café da manhã e almoço. Chegando lá não tinha nada no café. No almoço, serviram só um pão com salsicha e um refrigerante para dividir com outro funcionário. E isso só depois do fim do trabalho, depois das 17h. Como ficar esse tempo todo sem comer? E não tinha sequer água pra gente beber”, destacou.

Após mobilização dos prestadores de serviço, que segundo ela chegaram a cruzar os braços exigindo alimentação e água, a empresa disponibilizou cartões para que pudessem almoçar nos refeitórios do local, além de garantir o fornecimento de água. “Só de almoçarmos melhorou bastante. A gente consegue ficar até o fim do dia dispostos”, afirmou.

Fonte: G1

Redação

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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