No dezoito de março antigo, no ano mil trezentos e quatorze, Paris guardava silêncio sob um céu pesado e forte. Era a história preparando um capítulo duro da sorte.
Pelas margens frias do Sena um murmúrio vinha do chão, o povo olhava distante com temor no coração. Pois uma fogueira surgia como triste condenação.
Na praça da velha cidade ergueram lenha e carvão, e ali estava um velho mestre de coragem e tradição. Era Jacques de Molay diante da perseguição.
Guardião de antigos segredos, de coragem e devoção, último grão-mestre templário da sagrada instituição. Carregava sobre os ombros o peso da acusação.
Reis temiam os templários por sua força e união, riqueza, honra e coragem despertaram perseguição. E o poder quando se assusta atira contra a razão.
Filipe, o rei da França, temendo perder poder, lançou sobre aquela ordem o peso de um falso sofrer. Pois muitas vezes na história a verdade faz tremer.
Vieram julgamentos duros, confissões arrancadas à dor, prisões frias e injustiças sob o medo do terror. Mas nem ferro quebra o espírito de quem defende o valor.
E naquela manhã cinzenta ergueu-se o destino final, a fogueira já preparada num silêncio sepulcral. Era a história escrevendo um capítulo imortal.
Dizem que antes das chamas ele fitou o infinito, como quem conversa com Deus num último grito bendito. Sabendo que o tempo guarda tudo que é justo e bonito.
Sua voz cruzou a praça como vento no arrebol, palavras que atravessaram os séculos como um farol. Mesmo quando a chama sobe não se apaga o que é sol.
O fogo subiu nas lenhas como um grito no ar, mas a verdade das eras ninguém consegue queimar. Pois o que nasce na justiça sempre volta a brilhar.
O Sena seguiu correndo como corre a existência, levando para os séculos aquele ato de resistência. E o tempo anotou calado na pedra da consciência.
Assim passaram-se os anos como rios indo ao mar, reinos caíram no pó novos mundos vieram passar. Mas certas datas da história ninguém pode apagar.
Sete séculos caminharam sobre a poeira da terra, impérios nasceram fortes e depois tombaram na guerra. Mas algumas memórias vivem como estrelas na serra.
Entre mil trezentos e quatorze e dois mil e vinte e seis chegar, o calendário somou o tempo sem descansar. São setecentos e doze anos que a história veio contar.
Setecentos e doze anos de memória e reflexão, mostrando que o tempo guarda a voz da transformação. Pois a verdade resiste no coração da razão.
O tempo é velho escriba que escreve sem se cansar, gravando nas páginas do mundo o que devemos lembrar. Cada século é um passo na arte de caminhar.
A humanidade aprende com dor e revelação, que nem toda chama acesa traz justiça ou redenção. Mas o espírito da verdade vive além da opressão.
E cada geração que passa volta a olhar para trás, vendo que a força da história nos ensina sempre mais. Pois quem conhece o passado constrói o amanhã em paz.
Assim a fogueira antiga virou símbolo e lição, de que a chama da injustiça não destrói convicção. Somente prova a coragem de quem guarda a tradição.
Paris seguiu seu destino entre guerras e evolução, mas aquela velha praça ainda guarda a recordação. De um homem que enfrentou a injusta condenação.
O Sena continua correndo como corre a eternidade, levando memórias antigas para dentro da humanidade. Como espelho da consciência e da busca da verdade.
Pois o tempo é mestre sábio da memória universal, transformando sofrimento em ensinamento imortal. Como pedra lapidada na jornada espiritual.
Hoje o mundo olha distante para aquele antigo clarão, e percebe que a história não termina na perseguição. Pois a verdade floresce no jardim da construção.
A memória dos séculos é livro que nunca fecha, cada página da história é uma lição que se encaixa. Como estrela que ainda brilha mesmo quando a noite deixa.
E quem observa o passado com sabedoria e razão, descobre que cada queda é também transformação. Como pedra bruta que um dia se torna obra na mão.
Assim termina o relato de memória e reflexão, de um dia que atravessou os séculos da civilização. Deixando viva na história uma eterna interrogação.
Que o tempo seja lembrança de justiça e evolução, para que o homem aprenda o valor da compaixão. E construa novos caminhos na estrada da razão.
Pois quem entende o passado descobre a verdadeira luz, que ilumina o pensamento e o futuro que conduz. Como estrela que orienta os viajantes da cruz.
E no dezoito de março novo de dois mil e vinte e seis nascer, a memória da história antiga volta em versos a viver. Pois o tempo muda o mundo mas não muda o que deve ser.
Jesivaldo Aragão é poeta, escritor e mestre maçom da ARLS Ivo Cuiabano Scaff 94, jurisdicionada ao Grande Oriente do Estado de Mato Grosso e com sede na cidade de Peixoto de Azevedo – MT.
Foi correspondente dos jornais Mato Grosso e Extremo Norte. Sua obra literária percorre diversos estilos, entre eles poesia filosófica, literatura de cordel, narrativa simbólica, crítica social, espiritualidade e reflexão existencial. Seus livros estão publicados na Plataforma Amazon.
O texto acima é uma homenagem ao dia 18 de março de 1314 onde, em Paris, foi executado na fogueira Jacques de Molay, o último Grão-Mestre da Ordem dos Cavaleiros Templários. Preso anos antes por ordem do rei Filipe IV da França e submetido a um longo processo conduzido com apoio da Inquisição, De Molay foi acusado de heresia e outros crimes. No momento final, porém, proclamou a inocência da ordem e denunciou as injustiças do julgamento. Sua morte marcou simbolicamente o fim definitivo dos Templários, tornando-se um dos episódios mais dramáticos e lendários da história medieval europeia.



