Opinião Renato Paiva

 O El Niño, a Direita e a Esquerda

Nós, os animais, sempre fomos muito briguentos. Primeiro, com arranhadas, mordidas, bicadas, coices ou chifradas, defendíamos nossa comida ou território. Depois, quando aprendemos a falar, percebemos que muitas situações poderiam ser resolvidas com uma boa conversa. Nem todas, claro, muitas ainda dependiam dos recursos primitivos.

Quando a linguagem ou a cognição — não sei qual delas veio primeiro — separou nossa turma da dos chimpanzés, passamos a constituir a espécie que chamaram sapiens. Hoje sabemos que adjetivo elogioso autoconcedido foi exagerado: não somos tão sábios como pensamos.

Mesmo evoluídos, continuamos formando blocos ou tribos hostis umas às outras e com baixa tolerância com os que teimam em pensar diferente de nós.

Desde sempre arrumamos alguns pontos de discórdia para estimular contendas: etnia, religião, posição social, nacionalidade, idioma, profissão e, por último, o que interessa a esta crônica: viés político, ou mais precisamente, direita e esquerda.

Há pouco tempo — 50 anos, se tanto — a “inteligência” brasileira, representada pelos intelectuais e pela imprensa, botou na cabeça das pessoas que declarar-se de direita era depreciativo. Chiques e cultos eram os esquerdistas. 

Entretanto, isso mudou. Hoje cada um toma a posição política que lhe aprouver, mas as hostilidades, tais como nos bandos de outrora, se mantiveram: trocamos mordidas, unhadas e coices por xingamentos, vulgaridades e grosserias, usando a mesma fala que um dia nos diferenciou dos nossos primos chimpanzés.

Se alguém defende a primazia do Estado, redistribuição de renda, a modernização dos costumes ou condena o uso da força pelas polícias, é normalmente classificado como de esquerda. Ao contrário, se prega a diminuição do Estado, valoriza a iniciativa privada, aplaude o esforço individual, defende a tradição, os costumes e as religiões, será visto como de direita. Estas duas correntes distintas atualmente se odeiam.

Mas há pessoas que, sem fanatismos, misturam posições. Alguém pode ser economicamente liberal (direita) e, ao mesmo tempo, defender ideias progressistas nos costumes (esquerda), ou o contrário. Por isso, a divisão entre direita e esquerda é um rótulo que não serve para todos.

Acrescento agora, por minha conta, algumas preferências que podem dividir pessoas aqui no Brasil. Quem é admirador das teses do meteorologista Carlos Nobre, defensor da teoria que as mudanças climáticas ocorrem por conta da ação humana, é esquerdista. Mas, se concorda com o discurso do também estudioso do clima Ricardo Felício que diz o contrário, é direitista. 

Ainda, conforme constatou uma recente pesquisa, os que consideram o Cristiano Ronaldo como maior jogador de futebol do mundo, são de direita. Os fãs do Messi que afirmam ser ele muito melhor que o jogador português, são de esquerda.

Por último o discurso que há meses ocupa a impressa: o El Niño. Os que acham que o fenômeno será mesmo de “tirar pica-pau do oco” como está sendo alardeado pela ONU, IPCC, NOAA/CPC são progressistas. 

Agora os que, ao contrário, acreditam que o “Diabo não é tão feio como pintam”, são apelidados de negacionista, classificação pejorativa que busca ridicularizar a ideia dos conservadores.

Politizamos a ciência, o futebol e o El Niño. Nossas tribos são mesmo terríveis.

Renato de Paiva Pereira.

Renato Paiva

About Author

Deixar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Você também pode se interessar

Opinião

Dos Pampas ao Chaco

E, assim, retorno  à querência, campeando recuerdos como diz amúsica da Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul.
Opinião

Um caminho para o sucesso

Os ambientes de trabalho estão cheios de “puxa-sacos”, que acreditam que quem nos promove na carreira é o dono do