Olinda Altomare Opinião

O Dia em que a Seleção Deixou de Parecer com o Brasil

Antes mesmo de entender as regras do futebol, qualquer brasileiro aprende a reconhecer o que uma Copa do Mundo representa. Ela nunca foi apenas um campeonato. É um daqueles raros momentos em que um país inteiro parece respirar no mesmo ritmo, em que ruas ganham novas cores, desconhecidos se cumprimentam como velhos amigos e milhões de pessoas depositam, durante noventa minutos, um pouco de suas esperanças em onze jogadores.

Confesso que não entendo de futebol. Não sei discutir esquemas táticos, escalações ou estatísticas. Mas talvez justamente por isso consiga olhar para a Seleção Brasileira por um ângulo diferente. Não observo apenas o jogo: observo o que ele desperta nas pessoas.

A Seleção Brasileira sempre foi muito maior do que um conjunto de atletas. Ela se tornou um símbolo de um povo que aprendeu a sobreviver às dificuldades sem perder a capacidade de sonhar.

 O brasileiro acorda cedo, enfrenta longas jornadas de trabalho, supera crises econômicas, desafios familiares, injustiças e incertezas. Ainda assim, encontra forças para recomeçar no dia seguinte.

 Há uma persistência silenciosa que faz parte da nossa identidade, e talvez seja exatamente isso que esperamos enxergar quando a Seleção entra em campo.

Não exigimos vitórias em todos os jogos. O esporte, como a vida, também conhece as derrotas. O que o brasileiro dificilmente aceita é a falta de entrega. Porque quem luta diariamente para vencer seus próprios desafios reconhece imediatamente quando alguém veste uma camisa apenas como uniforme, e não como compromisso.

As grandes seleções que marcaram nossa história não conquistaram apenas títulos. Conquistaram respeito porque transmitiam a sensação de que cada jogador carregava nos ombros muito mais do que uma bandeira. Carregava a responsabilidade de representar milhões de pessoas que jamais estariam em um estádio, mas que se viam refletidas naquela coragem de disputar cada bola até o último segundo.

É justamente essa identificação que parece ter se enfraquecido nos últimos anos.

A impressão que muitos brasileiros têm, ainda que cada torcedor possa enxergar a questão de maneira diferente, é que a Seleção perdeu parte daquela alma que fazia o país acreditar junto. O talento continua existindo. O Brasil continua formando alguns dos melhores jogadores do mundo. Mas talento, por si só, nunca foi suficiente para emocionar uma nação.

O que sempre encantou foi a combinação entre habilidade e entrega. Entre técnica e raça. Entre o brilho individual e o compromisso coletivo.

O povo brasileiro conhece o valor do esforço. Sabe que nem sempre o mais forte vence, mas acredita profundamente em quem luta até o fim. É por isso que tantas derrotas históricas foram recebidas com respeito, enquanto algumas eliminações recentes deixaram uma sensação amarga de distanciamento. Não apenas pelo resultado, mas pela impressão de que faltou representar aquilo que existe de mais genuíno em nossa gente: a capacidade de insistir quando tudo parece perdido.

Talvez a essência do futebol brasileiro nunca tenha sido apenas o chamado “futebol-arte”. Talvez ela sempre tenha sido o encontro entre alegria, criatividade, coragem e perseverança. Um povo que improvisa soluções para as dificuldades da vida também se encantava ao ver uma Seleção que transformava talento em coragem e dificuldade em oportunidade.

Representar um país não significa apenas cantar o hino ou vestir um uniforme. Significa compreender que milhões de pessoas enxergam naquele grupo uma extensão de si mesmas. Esperam ver humildade diante das vitórias, dignidade diante das derrotas e, sobretudo, a disposição de jamais desistir enquanto houver tempo no relógio.

A Copa do Mundo continuará sendo muito mais do que futebol. Será sempre um espelho daquilo que desejamos acreditar sobre nós mesmos. E talvez seja por isso que cada eliminação doa tanto. Não porque um troféu tenha escapado, mas porque, por alguns instantes, sentimos que a imagem refletida em campo deixou de parecer com o povo que, todos os dias, continua enfrentando suas próprias partidas com coragem, persistência e esperança.

É possível que a Seleção Brasileira volte a conquistar títulos. Mas, antes disso, precisa reconquistar algo ainda mais valioso: a identificação com seu povo. Porque o brasileiro não espera perfeição. Espera apenas reconhecer, em cada jogador, a mesma determinação que move milhões de brasileiros anônimos, que caem, levantam e seguem lutando, sem jamais abandonar a camisa invisível que vestem todos os dias: a de acreditar que desistir nunca foi uma característica do Brasil.

Que pena!

@aeternalente

Olinda Altomare

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Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.

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