O inquérito Policial Militar, que investigou a conduta de membros da corporação no esquema que grampeou mais de 100 pessoas entre 2014 e 2015, concluiu que os cinco policiais militares acusados dos crimes criaram um 'Núcleo de Inteligência' para fazer interceptações telefônicas com o intuito de obter informações privilegiadas. Com base no IPM, o Ministério Público denunciou os coronéis Zaqueu Barbosa, Evandro Lesco (ex-chefe da Casa Militar) e Ronelson Barros (ex-adjunto da Casa Militar), o tenente-coronel Januário Batista, e o cabo Gerson Correa Junior (servidor da Casa Militar).
Com exceção de Batista, os demais acusados estão presos. Todos negam terem cometido quaisquer crimes.
Para obter as autorizações judiciais e fazer a interceptação de telefones, a PM usava como justificativa um relatório do chamado 'Núcleo de Inteligência', no qual dizia que a quebra de sigilo telefônico era necessária para investigar crimes de policiais militares. Mas o IPM afirma que esse núcleo não existia dentro dos quadros da Polícia Militar, que por sua vez já conta com a Diretoria da Agência Central de Inteligência (Daci).
A finalidade política foi evidenciada, conforme o IPM, porque os primeiros a serem grampeados, em setembro de 2014, foram o advogado José Antônio Rosa, que trabalhou em campanha no pleito daquele ano, e o então tenente-coronel Alexandre Mendes, que era casado com a juíza Ana Cristina Silva Mendes, que trabalhava na Justiça Eleitoral.
Na época em que os grampos começaram a ocorrer, Lesco, Barros, Batista e Gerson eram cedidos ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado). O coronel Zaqueu Barbosa, que foi chefe da PM em 2015, também trabalhou no Gaeco, como coordenador militar.
O grupo espionou ainda outros advogados, um desembargador, políticos, jornalistas, policiais militares, médicos, uma ex-amante do ex-secretário da Casa Civil, Paulo Taques – que deixou o cargo em maio, dias antes do escândalo dos grampos vir à tona – e o telefone funcional usado pelo Gaeco.
Denúncia
O promotor de Justiça Mauro Zaque denunciou à Procuradoria-Geral da República que avisou o governador Pedro Taques (PSDB) em outubro de 2015, quando comandou a Secretaria de Segurança Pública, o governador Pedro Taques (PSBD) sobre a existência de um "escritório clandestino de espionagem".
Em depoimento encaminhado à PGR, Zaque afirmou que em 2015, quando ainda estava no governo, ouviu o coronel Zaqueu Barbosa dizer que as interceptações telefônicas eram feitas por determinação de Taques.
O promotor de Justiça afirma que levou o assunto ao governador e que este ficou constrangido, mas não fez nenhum comentário.
Zaque afirma ainda ter avisado Taques por meio de dois ofícios. O primeiro chegou a ser enviado para o MPE, mas a investigação foi arquivada depois de cinco dias por falta de provas. O segundo, que o governador alega nunca ter recebido, foi protocolado na Casa Civil, mas cancelado no mesmo dia e substituído por outro, conforme apontou auditoria da Controladoria Geral do Estado.
Antes do relatório da CGE vir à tona, Taques chegou a entrar com representação contra Zaque em instituições como o Conselho Nacional do Ministério Público e a PGR, acusando-o de falsificação de documento público.
O governador nega qualquer envolvimento com o esquema de espionagem ocorrido durante a gestão dele.


