O jovem estudante de Arquitetura Pedro Thame apresenta sua exposição “Criação do lugar: A Procissão de São Benedito”, no Museu de Arte e de Cultura Popular da UFMT (MACP), até o dia 30 de setembro.
Mais do que resultado de seu trabalho final de graduação em Arquitetura e Urbanismo pela UFMT, a exposição mostra a sensibilidade das lentes que buscaram vivenciar para que houve uma real imersão nos ritos da cidade e da fé.
O trabalho, que foi orientação da Profa. Dra. Doriane Azevedo, faz parte do 25º Seminário de Educação, promovido pela UFMT e pelo IFMT e que, esse ano traz o tema Diversidades Culturais, Sujeitos e Saberes.
“O trabalho propõe explorar a Procissão de São Benedito, enquanto patrimônio cultural imaterial mato-grossense, tendo como ponto de partida a discussão do conceito de lugar. Destacando características próprias do lugar criado pela Procissão, com ênfase ao conteúdo simbólico dessa forma de apropriação do espaço. Outras questões voltadas à apreensão da paisagem da cidade ainda são levantadas, como sua condição enquanto bem coletivamente construído e sua dimensão simbólica no cotidiano”, explica o autor.
Em entrevista, Pedro Thame explica sua relação com a fotografia e o trabalho realizado para o seminário em educação.
Como nasceu a ideia dessa exposição e do tema tratado?
Fotografo desde antes de entrar na faculdade e, durante o curso, tive contato com diferentes abordagens que, é claro, acabaram influenciando o modo de como me aproximar de diferentes assuntos. Fui trabalhando na medida do possível essas abordagens e vi no trabalho final a oportunidade de me aprofundar nelas.
Durante o trabalho, explorei alguns desses conceitos juntamente da prática que já tinha desde antes – algo como uma continuação mesmo, um prosseguimento do que já fazia. O trabalho rendeu algumas análises, dentre elas a da Procissão. Daí veio a ideia de uma exposição mostrando esse resultado, abrindo para novas ideias e interpretações.
A Procissão nos deu uma base bem rica para realizarmos diferentes análises. De cara, se mostrou mais chamativo o fato de ela acontecer uma vez ao ano e transformar fortemente os lugares por onde ela passa. Fomos identificando também outras características, como o seu valor simbólico, sua tradição, sua construção marcantemente coletiva, dentre outras.
O passo seguinte foi a justaposição com imagens feitas nos mesmos lugares em situações sem o acontecimento da Procissão. O que levantou questões sobre a condição do espaço da cidade no cotidiano, que é dominante. De modo que o trabalho ficou estruturado assim, articulando imagens do lugar da Procissão e lugares do cotidiano, assumindo suas diferenças e refletindo sobre ambos.
Qual a tua relação com a fotografia e como ela começou? Por qual motivo?
Como muita gente, comecei a me interessar por fotografia ainda na infância. Meu pai fotografava a família com frequência e aquilo (o ato, o objeto, a foto-resultado) prendia muito minha atenção e me deixava com vontade de fazer também. Logo ganhei uma câmera que rendeu muitas brincadeiras e registros engraçados. Fiquei flertando com a fotografia durante a adolescência, mas foi um pouco antes de entrar na faculdade que me aproximei mais.
Meu pai foi quem me ensinou a fotografar, acabei aprendendo o básico com câmera mecânica e no filme. Depois veio o digital, mas não deu muito certo, minha câmera estragou, voltei para o analógico e estou nele até hoje.
Fotografar com filme hoje em dia é um processo muito instigante. Tem um tempo diferente. Parece que permite que se esteja de fato no lugar. Nada de ficar se prendendo em checar o resultado imediatamente, ou registrar máximo que der. A limitação da quantidade de fotos obriga selecionar mais o que será registrado, é um registro mais lento no final das contas, e mais próximo também, mais cauteloso. O tempo até ver a foto revelada também faz com que a foto passe a ter outro significado que não possuía antes. Daí isso se junta ao processo de editar e a narrativa vai surgindo com outra cara.
Alguém mais na família fotografa?
Minha irmã Maria Bárbara desenvolve com seu amigo Pedro Brites o projeto Vênus, que traz diversas discussões sobre o ser feminino. Mas nossos temas não convergem – ainda.
Qual a sua intenção ao registrar a Procissão de São Benedito? E a questão do pertencimento se faz presente nesse contexto?
Há algum tempo comecei a frequentar a Festa de São Benedito e, em uma das vezes que fui, peguei por acaso o final da Procissão. Não conhecia, não sabia que acontecia, e fiquei maravilhado com a ideia de algo tão bonito e forte acontecer naquelas mesmas ruas que eu transitava, na ignorância do meu cotidiano comum.
Acontece que gosto de fotografar temas variados da cidade que, de modo geral, estão ligados a acontecimentos e lugares de acesso livre e democrático. E a Procissão se insere muito bem nesse contexto. Então, naturalmente, comecei a frequentar e registrar. Depois veio o trabalho, que tomou esse rumo.
Já havia feito outra exposição?
Participei de uma exposição fruto de um concurso promovido pelo SESC, na Casa do Artesão. O tema era Cuiabá em uma abordagem mais geral, foi em 2014. Valeu como aprendizado. Mas o contexto das fotos era diferente. Naquela ocasião, as fotos eram avaliadas e selecionadas individualmente. Na exposição de agora, o conjunto que é importante, não as fotos da maneira isolada.
Como você consegue organizar a rotina de estudante de arquitetura e artista e, ainda, produzir suas fotos, como as em preto e branco que posta em uma página do Instagram.
Conciliar a fotografia com o curso de Arquitetura e Urbanismo não é coisa fácil não, por conta da exigência do curso.
Às vezes os assuntos se sobrepõem, um estudo na faculdade que trata de algo que dê subsídio para fotografia, como disse. Mas isso não é constante. Na prática, é uma alternância – quando não estou envolvido com as atividades da faculdade ou no estágio, lido com fotografia em casa ou saio para fotografar. Todo o processo analógico também demanda tempo maior, que acabo acomodando entre trabalhos e projetos, idas e vindas. Vez ou outra, um acaba sacrificando o outro, mas aprendi a não sofrer mais com isso.
Há um tempo criei esse perfil no Instagram (@cidadeobscura) com o desejo de publicar livremente algumas fotos. Tem sido uma experiência bacana, tenho conhecido pessoas legais, que têm trabalhos muito bons. Tento manter a regularidade das postagens, mas confesso que às vezes não dá.
A arquitetura ajuda com o olhar ou engessa?
A formação em arquitetura e urbanismo é ampla e com certeza colabora.
O entusiasmo não é pela foto de obra de arquitetura, mas pela foto daquilo que é o objeto de trabalho e estudo do arquiteto: o espaço. Espaço em suas diferentes abordagens, enquanto paisagem, enquanto lugar.
Qual é a tua verdade enquanto fotógrafo?
Acredito que sempre estamos construindo ficções que de maneira nenhuma são neutras. Somos sempre permeados de intenções, é preciso estar ciente disso.
Mas, sobretudo, acredito na vivência. Antes de qualquer foto feita, acredito que preciso estar no lugar, me inserindo de alguma forma, me afirmando na mesma medida em que me coloco vulnerável.




