Aos 50 anos de idade, Irene Alves de Almeida nunca frequentou uma escola. Analfabeta, não se deixou levar pela vergonha e está aprendendo a ler e a escrever no projeto SoleTRE, do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de Cuiabá. Um de seus sonhos é ser professora.
Conforme o TRE, 3.645 eleitores se declararam analfabetos no cadastro da Justiça Eleitoral. Diante desse dado, a Corregedoria Eleitoral lançou o SoleTRE em busca da inclusão social e da redução de eleitores que não sabem ler e escrever.
Com início no dia 29 de julho deste ano, o curso é ministrado por servidores e magistrados e terá a duração de cinco meses. São apenas dois encontros por semana, com duração de 1h30min, mas que podem fazer muita diferença na vida daquelas pessoas.
O Circuito Mato Grosso teve a oportunidade de acompanhar um dos encontros. A sala estava cheia e a maioria dos alunos são mulheres. No segundo dia de aula eles estavam aprendendo, inicialmente, as vogais. No decorrer da aula, todo o alfabeto foi apresentado e a professora pedia para que seus alunos dissessem palavras que se iniciavam com as letras citadas.
Alguns dos alunos se confundiam com algumas palavras devido ao som, como as que começam com “X” e “CH”. No meio da aula, a professora questionou quem ali nunca havia frequentado a escola. De cerca de 30 alunos, cinco levantaram a mão. Os demais têm algum conhecimento das letras, mas não sabem juntá-las e formas as palavras.
Entre os alunos estava Irene, que tinha algumas dúvidas e estava recebendo ajuda de alguns monitores nas atividades. A estudante contou que é uma das pessoas que nunca frequentou a escola. Disse, inclusive, que seus pais também nunca foram alfabetizados.

Aos 50 anos, Irene compartilha que trabalha como empregada doméstica e tem dois filhos. “Eu sou pai e mãe”, diz ela ao falar que cria os filhos sozinha. O mais velho tem 26 anos e não concluiu o ensino médio, enquanto o mais novo tem 10 anos de idade e frequenta o 5° ano do ensino fundamental. Ela quer se seu filho mais novo seja médico, mas ele quer ser jogador de futebol.
“Para mim, estar aqui é uma vitória. Para quem não sabe nada (ler e escrever), isso aqui é uma benção. Foi muito ruim esses anos sem saber ler. É ruim chegar em um lugar e não saber ler, as vezes fico com vergonha até de perguntar para as pessoas e elas ficarem questionando o porque eu não sei ler e escrever”, desabafa Irene.
Ela ainda acrescenta que quase desistiu do curso por vergonha também. “Tinha gente que sabia pelo menos o nome e eu não sabia nada”, declara. Ela diz que ouviu um servidor dizer “Já foi uma vitória você chegar até aqui. Não desista!”.
Agora que decidiu continuar no projeto que dura cinco meses, ela pretende começar a estudar em uma escola, já que saber o básico e sonha em, quem sabe um dia, cursar uma graduação. Ela quer ser professora, para ter a chance de ensinar outras pessoas também.
“Meu sonho é estudar, fazer uma faculdade e dar uma vida melhor ao meu filho. A única coisa que posso dar para os meus filhos é a educação. E se eu for uma professora também vou ter a chance de ensinar e mudar a vida de outras pessoas”.
Das experiências
Maria Luiza Sorano Mazzo Miorim é uma das professoras que está dando aulas no projeto SoleTRE. Ela cursou magistério quando jovem e depois se formou em direito. Durante 26 anos Maria Luiza foi servidora da Justiça Federal e precisou se aposentar por problemas de saúde.
Quando tinha por volta dos 20 anos, ela trabalhou com a alfabetização de adultos no interior do Estado de São Paulo. A professora compartilha que muitos alunos buscam se alfabetizar para poder ler a bíblia.
“Ser professora deles é uma experiência maravilhosa! Você pode dar um outro rumo para a vida da pessoa”, relata. Miorim diz também que se tornar uma pessoa alfabetizada pode melhorar a autoestima da pessoa. Ela se sente melhor.
Foi questionado se a professora tem conhecimento das razões que seus alunos não frequentaram a escola. Miorim diz que pelo que ouviu ali muitos casos são resultados da criação familiar.

“Tem famílias que não deixavam as mulheres estudarem, só os homens deveriam. Outros casos o marido era muito ciumento e não deixou a esposa estudar. Mas acho que muitos são por falta de oportunidade mesmo”.
Maria Luiza conta que uns 60% da turma tem muita dificuldade em juntar as silabas. Eles conhecem a letra, mas não conseguem fazer a associação. Além disso, muitos ali não têm coordenação motora fina, que é o uso dos músculos da mão, para escrita. “A gente tem que pegar na mão de alguns para poder ajudar nessa escrita”.
Na sala de aula é possível visualizar alunos com uniformes do trabalho e que relatam que terão que repor esses momentos de falta para frequentar as aulas. Além de alguns morarem muito longe do TER, que fica no Centro Político Administrativo de Cuiabá.
Como forma de incentivo aos alunos, durante a aula Maria Luiza contou para eles que a cada final de mês de aula, os alunos que não tiverem nenhuma falta irão concorrer a uma cesta básica. Foi notável a animação da turma.



