Cidades

Desde 2016, Mato Grosso tem média de 545 casos de discriminação racial por ano

“Você conseguiu falar comigo por sorte; não estou morando mais no Brasil”. A fotógrafa Mirian Rosa, 33, fala, via telefone, de Portugal onde mora desde agosto do ano passado. Três meses antes da viagem sua vida quase virou de cabeça para baixo com a discriminação racial que sofreu.

“Cortei amizade com a maioria das pessoas que conhecia, tive que mudar o número de meu telefone, não conseguia mais sair pra rua. Fiquei em pânico”.

Deixou pra trás, em Cuiabá, um filho, os pais e os amigos que lhe eram confiáveis. “Depois que sofria discriminação soube quem era a pessoa que tinha me atacado; me disseram que ele era uma pessoal do mal e podia fazer mal a qualquer um, só pagando um dinheiro. Meus pais não me deixava mais sair de casa, e quando eu saía, assustava com qualquer coisa”.

Em 2 maio de 2018, num áudio gravado por Rafael André Janini, segundo a polícia, Mirian Rosa era chamada de “crioula maldita”, “mucama” e “saco de lixo” pelo fato de ser negra. Ela diz que não o conhecia, mas tinha uma amizade em comum com rapaz. Os ataques começaram a circulam por redes sociais após um encontro casual na praça Popular, área nobre de Cuiabá.

Esse tipo de crime ocorreu, em média, 545,3 vezes por ano em Mato Grosso desde 2016. O balanço do Sesp (Secretaria Estadual de Segurança Pública) não especifica os casos, mas lista 16 tipos de injúria, todos relacionadas a características de raça ou à prática religiosa.

Em 2016, a Sesp registrou 556 casos; em 2017, 562 e no ano passado, 518; janeiro e fevereiro de 2019 já somam 101 casos – de preconceito por raça, cor, etnia e religião. Os crimes ocorreram por ataque direto ou por incitação à prática de racismo ou intolerância religiosa.

A doutora em educação e coordenadora do Núcleo de Estudo e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), Cândida Soares de Castro, diz que o número de casos impressiona e pode ser maior. Mas, a dúvida é sobre o que acontece com as denúncias.

“Para um Estado com população de pouco mais de três milhões de habitantes esse número é muito alto. Mas, a pergunta que devemos fazer é o que está sendo feitos com as denúncias. Estão virando processo, estão sendo investigados?”.

Ela diz que existe um histórico de casos que ganham repercussão na mídia, mas caem no esquecimento enquanto as discriminações continuam a ocorrer. E o fato é agravado pela falta de políticas públicas para “desconstruir” a ideia de racismo.

“Eu questiono a ideia de que racismo é cultural, isso torna o problema banal, como se fosse normal. O racismo foi construído historicamente e pode ser desconstruído, o problema é que vemos isso ser trabalhado para mostrar o valor elementos de origem africana”.

A pesquisadora afirma que ocorrências de racismo ainda ocorrem por “falta de problematização” do assunto no cotidiano. O dia a dia ainda estaria permeado por “elementos que ressaltam a discriminação”. “Nas escolas, a literatura que chega à mão dos alunos é, na maioria, do século XIX que ressalta largamente a diferença de raça. Em contrapartida, não sabemos como está formação do professor para lidar com o problema, para mostrar aquilo que produção africana faz e contribui”.

A fotógrafa Mirian Rosa diz que não tem em vista um retorno para o Brasil. “Me sinto mais segura, e em outubro vou começar a estudar fotografia numa universidade daqui. Vim para fim algum tempo, mas agora não penso quando vou voltar para o Brasil”.

Redação

About Author

Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

Você também pode se interessar

Cidades

Fifa confirma e Valcke não vem ao Brasil no dia 12

 Na visita, Valcke iria a três estádios da Copa: Arena Pernambuco, na segunda-feira, Estádio Nacional Mané Garrincha, na terça, e
Cidades

Brasileiros usam 15 bi de sacolas plásticas por ano

Dar uma destinação adequada a essas sacolas e incentivar o uso das chamadas ecobags tem sido prioridade em muitos países.