Adriana Nascimento – Especial para o Circuito Mato Grosso
As duas últimas semanas têm sido de muito trabalho para o deputado federal Fábio Garcia (PSB/MT). O tempo que o parlamentar poderia gastar elaborando novas propostas para melhorar a sociedade ele tem usado para explicar à mídia por que é contra o Brasil investir R$ 800 milhões num projeto que colocará o País dentro de um seleto grupo que poderá fazer descobertas importantes não só para o povo brasileiro, mas para toda a humanidade. Trata-se do investimento no projeto do maior telescópio do mundo promovido por uma entidade renomada internacionalmente e do qual participam apenas 14 países sendo o Brasil possivelmente o 15º e o único da América do Sul investindo já que o Chile só participará por ceder seu espaço, uma vez que tem o céu mais limpo de nuvens, ideal para a observação astronômica de qualidade. Mas o parlamentar acha o projeto não prioritário alegando que as estrelas que devem ser observadas são o povo brasileiro e não as do céu. Como se pesquisas astronômicas se resumissem a isso.
O que é mais destoante da não participação do Brasil, conforme a alegação do deputado, é que ele não quer esse ‘gasto’ para que sejam priorizadas outras áreas como a Educação. Ele afirmou em reunião com o diretor do Planetário Via-Láctea (PVL) em Cuiabá, Carlos Wagner Ribeiro, na última semana, que o Brasil teve um corte linear na Educação assim como na Saúde e, portanto, não vê como o país poderá pagar para participar do projeto num momento como esse de contingenciamento. Contudo, Ribeiro deu a ‘fórmula’, dentro de um documento assinado por mais de mil planetaristas, pesquisadores e astrônomos de todo o país ao deputado. É simples, economizar 50% das Verbas de Gabinete dos deputados por algum tempo e voilá! Lá estão os recursos.
O diretor do PVL lembrou ainda que, recentemente perdemos a oportunidade de fazer parte do CERN, uma das instituições de pesquisa mais relevantes do planeta por causa da lentidão da Câmara dos Deputados em apreciar o acordo de cooperação. “São dois vexames internacionais em nosso currículo. Agora, estamos no limiar de perder mais uma oportunidade. Existe fila de espera para fazer parte do ESO (Observatório Europeu do Sul). Apenas dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) Rússia e a Índia só estão esperando nossa desistência para lançar suas candidaturas. E estamos muito próximos de perder mais uma oportunidade única de fazer a diferença no desenvolvimento tecnológico do País”, garantiu Ribeiro.
Pressão
Por conta da atitude do deputado se instalou uma enxurrada de manifestações da comunidade astronômica de todos os cantos do país. Pouco depois de sua retirada do projeto de pauta na Câmara foi criada uma petição online, que até a manhã da última terça-feira (18.02) já tinha mais de três mil e 100 assinaturas. Por parte da mídia, embora em Mato Grosso somente o Circuito MT deu destaque ao assunto logo que o fato surgiu, a coisa só explodiu mesmo após o colunista Salvador Nogueira, da Folha de S. Paulo, ter feito duras críticas ao parlamentar o que o fez conversar com representantes da comunidade científica em Brasília e parecer rever sua posição.
Outra crítica veio do responsável pelo CiencTec Tv, Sérgio Sacani, que informa que o deputado não deve “entender nada de astronomia” para fazer uma coisas dessas até porque não deve ter tido astronomia na escola. Ele exemplifica de forma bem simples a importância da astronomia no dia a dia. “Qualquer câmera de hoje em dia, como a do computador ou a do celular que tira selfie, só existe por causa da astronomia. Foi a astronomia que desenvolveu, por exemplo, os detectores CCD, que existem em todas as câmeras, mas que foram feitos, inicialmente, para detectar imagens do espaço por causa da sensibilidade, por isso que o i-phone consegue tirar fotos no escuro” relata .
O projeto
Falando ainda em Educação, no documento entregue por Carlos Wagner ao deputado, é lembrado que todos os anos o Brasil perde milhares de cientistas e engenheiros para os países que fazem parte do consórcio do ESO. “Por que será que não podemos colocar essas mentes trabalhando aqui ao invés de ‘doá-los’ para outros países se desenvolverem com eles? Veja quantos Prêmios Nobel nós temos… E quanto os países que fazem parte do ESO, do CERN e da ISS tem. Isso indica alguma coisa?”.
Diante da pressão o deputado fez o compromisso de, a partir desta semana, começar a buscar informações sobre como pode ocorrer esta participação do Brasil sem prejuízo das áreas que ele considera prioritárias e que, aliás, já têm recursos alocados na Constituição, não sendo, portanto, necessário, ficar na estação e perder o trem para as estrelas.