Cidades

Depressão Pós-Parto um problema que atinge 25% das mulheres brasileiras

Uma gravidez planejada e com tudo para ser a realização de toda mãe, enxoval, berços e felicidade, porém, para Raquel Ferreira Leite Ribeiro, essa história foi um pouco diferente, pois quase no final do período da gravidez, sintomas de depressão foram surgindo, e ela sem saber da real situação, passou a rejeitar a própria filha após o nascimento da criança ela descobriu que sofria de depressão pós-parto.

De acordo com uma pesquisa feita com 24 mil mulheres de todo o País, e conduzida por Mariza Theme, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fiocruz (RJ), a depressão pós-parto ou (DPP) atinge mais de 25% das mulheres brasileiras.

Com Raquel não foi diferente, ela contou ao Circuito Mato Grosso, que no ano de 2014 teve a DPP, quando estava esperando a segunda filha. “Foi uma gravidez planejada, eu e meu esposo decidimos ter mais um filho, a nossa filha mais velha também já cobrava um irmão (a). Quase no final da gravidez passei a sentir alguns sintomas, mas achei quer apenas a ansiedade da gravidez e coisa normal, mas quando minha filha nasceu no primeiro dia que ela veio para casa, já tive a primeira crise”, disse Raquel.

Raquel contou que lhe faltou ar, dor no peito e cabeça, com uma sensação imensa de mal estar, e ao procurar o médico no dia seguinte, foi informada que os sintomas seriam de princípio de depressão pós-parto, mas Raquel disse que não acreditou e não deu importância a prescrição médica.

“Até então eu não dei atenção, pois pensei, como eu teria uma depressão pós-parto se já tinha uma filha, a gravidez foi planejada, estava tudo certo, e na minha cabeça a DPP seria para mulheres que não quisessem ter filhos, o médico me receitou um remédio, porém, eu não tomei, e isso foi meu erro, porque muita das vezes as pessoas tem rejeição do remédio, mas se o médico passou a gente tem que tomar”.

Não tomando o remédio, a mãe relata que os sintomas da DPP só foram se agravando, e ela passou a rejeitar a filha e não aceitar a criança.

“Quando os sintomas aumentaram, eu passei a olhar para a minha filha, e a impressão que eu tinha era que ela não era minha filha, eu não gostava dela, não tinha nenhum sentimento por ela, e olhava e pensava, a minha primeira filha foi totalmente diferente, eu sentia amor, vontade de abraçar, afeto de mãe, já pela segunda não, colocava ela no colo e não sentia nada, não gostava das coisas dela, não gostava do guarda-roupa, da banheira, e isso já nos primeiros dias”, relatou.

Com o agravamento da DPP, Raquel contou que passou a ter outros problemas como síndrome do pânico, medo de ficar só e a sensação que a qualquer momento ficaria “louca”. Os sintomas e sofrimento solitário de Raquel duraram por três meses, até o marido descobrir que a esposa não estava bem.

“Meu marido me pegou chorando desesperadamente, ele não sabia do meu problema, pois eu não contava a ninguém e não demonstrava nenhum sinal da doença. Sempre pensava na minha cabeça que no outro dia o problema passaria, eu não comia e teve um dia que tomei só um copo de suco durante o dia todo. Quando meu marido me viu naquela situação me perguntou o que estava acontecendo, ai me abri pra ele”, explicou.

Depois de saber do problema da esposa, o casal procurou o médico e iniciou o tratamento para a DPP.

“Eu sou evangélica e muito apegada a Deuss, muitas pessoas ligam a depressão com espírito ruim, mas isso é uma doença grave, e durante o tratamento, minha família foi fundamental no processo, meu marido, minha irmã, minha mãe, sobrinha. Nesse período é muito importante a ajuda da família, que não pode achar que é frescura, moagem, ou que quem sofre só quer chamar a atenção”, explanou.

“Meu esposo nesse período foi muito companheiro mesmo, me ajudou muito e minha família também me deu todo apoio, e se não fosse por eles, eu não teria conseguido sair dessa situação difícil que aconteceu na minha vida”, continuou.

Por orientação médica e acompanhamento, Raquel só parou de tomar o medicamento quando teve certeza que estava resolvido os problemas.

“Para o tratamento, é 50% remédio e 50% força de vontade da pessoa, a pessoa tem que se esforçar e correr atrás da cura. O pensamento positivo ajuda demais, e a pessoa não pode se entregar, pois se isso acontecer, ela não consegue se levantar”.

Após seis meses de tratamento Raquel conta que começou a melhorar foi vendo a filha com outros olhos, aceitando e amando cada vez mais a garota, que hoje tem quatro anos de idade. No total, Raquel tomou remédio por um ano e realizou o acompanhamento médico até estar 100%.

De acordo com o médico que diagnosticou a DPP em Raquel, os problemas dela em parte foram acarretados pela mudança de rotina repentina após ter ganhado a criança e também o medo do parto.

“Eu fiquei com muito medo do parto, e esse medo que eu tive, me causou um trauma, e com tudo isso a rotina que parou, o trauma  do medo do parto, e eu não ter informado estes sintomas ao médico só aumentou o meu problema”.

Especialista explica

A depressão puerperal (DPP) é uma doença em estado grave, e o número que são expostos, não condizem com a realidade, e a quantidade de mulheres que sofrem de depressão pós-parto é bem maior, mas algumas não relatam o problema vivido, é o que explica a doutora em psicologia clínica, Maria de Lourdes Turbino Neves.

“A sociedade constrói um ideal de maternidade para a mulher, e de acordo com esse desejo da sociedade, a mulher precisa ser mãe, e a mulher assume isso, mesmo que, algumas vezes contra a vontade, e na maioria das vezes as mães que não relatam o sofrimento, passam por tudo isso, e sem tratamento, e é quando ocorrem os casos gravíssimos, onde mães tentam sufocar ou matar o filho”, explicou Maria de Lourdes.

A psicóloga explicou a reportagem que a existem algumas mulheres com predisposição a desenvolver a DPP.

“As pesquisas nos mostram, que são mulheres com tendências a estados depressivos, que sofrearam algum tipo de abuso sexual, adolescentes que tiveram filhos, e casos que mulheres que não queriam engravidar, mas acaba ficando grávida. Com a gravidez, há uma mudança física e psíquica com a mulher, pois é uma mudança hormonal fazendo com que seu estado emocional fique altera, causando sentimentos diferentes, fragilidade de humor, entre outros sintomas”, detalhou.

No entanto, há casos de mulheres que realizaram um planejamento para engravidar, fez quarto, comprou enxoval, mas quando o filho (a) nasce, acontece a depressão.

“Quando a criança nasce, há uma quebra de vínculo emocional, também devido a questões hormonais e isso tem um impacto, a mulher tem um bebê no útero, uma fusão entre os dois e de repente o corpo não está mais com o bebê, aquela idealização já não existe mais. Quando a criança nasce, muda a rotina dos pais. Os primeiros meses com o bebê são difíceis, e aí, acontecem os problemas”.

De acordo com as pesquisas, os casos estudados revelam que a maior parte da depressão em geral, estãocom as mulheres.

“Essas mulheres que já passaram por um processo depressivo anteriormente, tem uma grande chance de desenvolver uma depressão pós-parto. O que a gente percebe com a mãe que acabou de dar a luz, é que elas vão pra casa, e começam a apresentar instabilidade de humor, choram com facilidade, se sentem cansadas, sente um vazio e não conseguem aceitar as mudanças do corpo, vivendo momentos de ambiguidade”, disse a psicóloga.

Psicologa Maria de Lourdes Turbino Neves
Mãe morta

A psicóloga explicou que existe o termo “mãe morta” que é um dos conceitos centrais na obra do psicanalista francês  André Green,  a mãe não consegue interagir com a criança, e dar sentido na relação entre mãe e filho, e com isso a criança sofre, pela falta desse amor, falta de carinho e com isso, pode desenvolver futuramente, problemas psíquicos graves, é uma pessoa que está só o corpo presente, mas fora de si.

Maria de Lourdes deixou claro que a depressão é uma doença grave comprovada cientificamente, e que a mãe quando comete algum ato com a criança ela está fora de si, não é algo que a mãe escolhe fazer com o filho.

“Os relatos dizem, que a mãe sente uma certa raiva do filho quando está com o sintoma grave de depressão pós-parto, e nós que estudamos isso, percebemos que são aquelas mães que foram filhas que não se interagiram com a genitora, que foram crianças que não tiveram uma interação saudável e aceitável com as mães, e pelo que conhecemos e estudamos, percebemos que essa mãe também pode ter sofrido de depressão, e de uma gravidez para outra pode acontecer ou não a depressão puerperal”.

Tratamento

A maior parte das mães segundo Maria de Lourdes que apresentam a depressão, elas não se dão conta, e acham que é uma situação normal, começa sentir tristeza, não consegue se interagir com a criança, e se não tiver um acompanhamento o quadro depressivo vai se agravando.

“As mães só procuram de fato ajuda, quando são orientadas, por isso a necessidade de ter uma boa assessoria, ou seja, ter a sogra, irmão, parentes e pai da criança, observando o que acontece nessa interação, pois as mães muitas vezes, ela sente tudo aquilo, mas não é capaz de pedir ajuda”.

“Normalmente o que escutamos de estudos de casos, essas mães só não chegaram ao extremo em alguns casos, pois teve alguém junto”, completou.

Para o tratamento, é necessário que seja feito por meio de medicação e acompanhamento médico.

“O papel da medicação, é estabilizar, e o papel da psicologia é levar a paciente a compreender as ações, o que leva a pessoa a praticar tal ato, ajudar a pessoa a encontrar  o porque sou assim? De onde vem essa depressão pós-parto? É fazer uma reflexão sobre o papel da maternidade, o porque de querer ser mãe, qual era o desejo na maternidade, entre outros fatores”.

“Os estudos revelam que cada mãe, cada depressão, é um sofrimento, uma intensidade diferente de sofrimento psíquico, até pela própria singularidade do ser-humano, e quando essa mãe se dá conta, já está doente e com situações avançadas”, complementou.

Para finalizar, Maria de Lourdes relata que é fundamental o apoio da família e acompanhamento quando está em tratamento, pois não se consegue sair da depressão sozinha, "O pael do pai é fundamental para acolher a mãe a criança, ele assume um papel de guaridão da família, dispensando cuidados ao bebê e acolhendo a mãe, e além do pai, os avós e familiares são muito importantes e fundamentais para que a mãe supere o estado depressivo". 

Raquel Ferreira e sua filha
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Redação

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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