No início dos anos 70 Cuiabá era tomada por aproximadamente 20 turmas, grupo de jovens que disputavam território em busca de status. Quando se encontravam, iam para o confronto num tempo em que as brigas não envolviam armas e eram disputadas na força física.
Quem conta um pouco dessa história ao Circuito Mato Grosso é o servidor público aposentado Joacir Hermes de Amorim, que cresceu no Dom Aquino e inclusive criou um grupo no Facebook exclusivo para lembrar pessoas e fatos que fazem parte da história do bairro, onde nasceu a Turma do Morro, da qual foi integrante.
Também havia a Turma da Aldeia, Campo Velho, da Rua Santa Terezinha, da Rua Pedro Dorileo, I Love Baby, Caixa D’água, Turma do Marcelo, eram grupos do bairro Dom Aquino.
Além dessas, existiam ainda a Turma da Cidade Alta, Coophamil, Cruz Preta, Inferninho, Porto, Cristo Rei, Turma da Barão, da Popular, Banheirinho, Manga e Mangueiral, que se encontravam com um único objetivo: brigar por espaço, ser respeitada e a mais comentada.
“Eu acho que a Turma do Morro foi a primeira que apareceu, pois lembro que todo mundo queria pegar a Turma do Morro. Mas, aquela época, o pessoal ia para brigar por afirmação e fama, diferente de hoje em dia que existem facções criminosas”, explicou Joacir.
Outro detalhe que ele revela como motivação das brigas na época era a questão de namoradas.
“Além das brigas nos bailes, tinha o negócio de namorada, por exemplo, fulano de tal bairro está ficando com a menina do outro bairro, ai o pau pegava, tipo, o cara sai lá não sei da onde para pegar mulher aqui, ai está errado, ai rolava o quebra-pau”, relata em risos.
Entre os líderes das turmas, apelido prá lá de curiosos como Galo Cego, Zé Carretão, Catiçá, Elói Satanás, Cacique, Japão, Mário Boi, Dito Pé Torto, Jhonny Perna, Búfalo, Papa Ovo, Dito e Carlinhos Sujeira.
Os encontros eram realizados em algum ponto dos bairros, centros comunitários, e também nos bailes badalados da baixada cuiabana, como Clube Náutico, em Várzea Grande, Clube Dom Bosco, Nippo, Sayonara e Chuá todos na capital.
“Uma das brigas que me recordo foi em 1982, no antigo Chuá Lanches, entre a turma da Cruz Preta contra a turma do Morro. O Morro estava comemorando a vitória do jogo do Brasil no Chuá, quando chegou a turma da Cruz Preta. Aí foi pancadaria de aproximadamente uma hora e precisou de umas 15 viaturas da polícia para colocar ordem”.

As brigas, de acordo com Joacir, envolviam sempre murros, chutes, e às vezes pedra, pedaços de pau, e cadeiras e mesas de ferro da época como a briga ocorrida no Chuá Lanches, “As cadeiras e mesas de aço voava para todo lado, mas ninguém nunca morreu durante as brigas”, detalhou Joacir.
O status que Joacir conta que buscava era ser manchete do programa Ronda Policial, apresentado pelo radialista Luiz Mário na Rádio Cultura de Cuiabá.
“A gente não perdia um ronda policial, e toda segunda-feira o Luiz Mário falava da turma do Morro, e aquilo ali para nós era status, coisa de jovem querer se aparecer e ter mais poder na área, de mostrar que a turma do Morro era a maior e mais forte”.
Luiz Mário também falou com o Circuito Mato Grosso e lembrou os tempos difíceis quando as turmas tomavam conta de Cuiabá, e não davam sossesgo aos moradores nem em festas de aniversário.
“Aquele tempo era terrível. Cada uma (turma) queria defender o seu território. Naquela época ninguém podia fazer nem aniversário em casa que as turmas chegavam invadindo e quebrando tudo, som, mesas e acabava com a festa. Era difícil”.
A polícia, de acordo com Luiz Mário, conseguia colocar uma turma contra outra com notícias fantasiosas, para eles realizarem o “acerto de contas” entre eles. Na época o secretário de segurança era Oscar Travassos, e a polícia intensificou o serviço, a fim de, acabar com as brigas.
“Muitos dos integrantes das gangues e turmas na época, acabaram morrendo, indo para o lado errado e a polícia colocou esse povo para correr”, revela Luiz.
Para finalizar, Joacir diz que sente falta da época que os jovens brigavam apenas por status, os jovens eram sadios e a droga e facções ainda não tinham tomado conta da sociedade, como acontece hoje em dia.
“Hoje existe muito viciado, antigamente família que tinha alguém usuário de droga, era considerado um escândalo, quem usava (droga) tinha vergonha de usar na frente de outra pessoa, se escondia, hoje está tudo escancarado e as coisas estão cada vez pior”.



