Por Sandra Carvalho, Raul Bradock e Cátia Alves
O corpo do motorista Olívio Backs, que morreu carbonizado num acidente ocorrido dia 15 de setembro deste entre Sorriso e Lucas do Rio Verde (412 e 360km de Cuiabá, respectivamente), está há 20 dias no Instituto Médico Legal (IML) da Capital e até hoje não foi liberado por falta de reagente para a realização do exame de DNA. A família começou a fazer uma “vaquinha” para comprar o produto depois que foi informada que não há previsão de chegava de novo estoque.
O advogado Luiz Alfredo da Cunha Bernardo, amigo da família, informou ao Circuito Mato Grosso que Olívio Backs morava no Sul do país e trabalhava de motorista para a transportadora Hungar Maringá. "Estão todos desesperados a espera da liberação do corpo", disse. Os familiares estão em Cuiabá desde o ocorrido
O outro lado
Em nota, a assessoria de imprensa informou que a compra do reagente está em andamento, mas que só deverá estar concluída em 15 a 20 dias. Informa, ainda, que a Politec, obteve ajuda de um parceiro para tentar amenizar a situação enquanto isso.
O equipamento oferecido está em testes para verificar se pode atender ao tipo de exame exigido. O teste deverá ser concluído ainda hoje e, se bem-sucedido, vai permitir a realização do exame e a liberação do corpo. A falta dos reagentes se deu em razão de um processo de compra que foi apenas parcialmente alcançado. Dos 13 lotes lançados, 7 foram desertos ou não atingiram o preço.
O Circuito Mato Grosso também falou com o técnico em necropsia do IML de Cuiabá, Valter Ferrari. Ele disse que outro problema é o baixo efetivo. "É pouco para o tamanho da demanda. "O estado está uma calamidade, falta o reagente para fazer o exame de DNA. Falta efetivo, nós atendemos todo estado de Mato Grosso e a demanda é muito grande".
O acidente

De acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), o acidente ocorreu no dia 15 de setembro, uma quinta-feira, na altura do km 712. Houve um engavetamento entres três carretas e um veículo utilitário
Parte da pista estava interdita para obras e a concessionária responsável pelo trecho da rodovia operava no esquema de siga e pare. Ainda segundo a PRF, o acidente começou quando uma das carretas bateu na traseira de outra carreta. Depois disso, um veículo utilitário e outra carreta se envolveram no acidente.
Com a colisão, uma das carretas pegou fogo. O motorista não conseguiu sair do veículo e morreu no local. Os condutores das outras carretas não tiveram ferimentos.
No carro utilitário, além do motorista, havia seis pessoas. Três passageiros foram encaminhados para uma unidade hospitalar em Lucas do Rio Verde. A pista da rodovia chegou a ficar interditada, mas foi liberada em seguida.
Circuito Mato Grosso já havia denúnciado o descaso com IML
Em julho de 2016, o jornal Circuito Mato Grosso fez uma reportagem falando sobre a falta de estrutura da Polícia Técnica de Mato Grosso (Politec), sobretudo o IML de Cuiabá. O presidente do Sindicato dos Peritos Oficiais Criminais de Mato Grosso (Sindpeco-MT), Alisson Trindade informou que nem 30% dos serviços do IML eram realizados devido a falta de estrutura física e material pelo qual o Instituto sofria.
“Hoje temos um corpo técnico muito capacitado, vários servidores com mestrados e doutorados, mas não conseguem fazer o trabalho porque não têm estrutura nem materiais adequados”, desabafou.
Na época, o presidente do sindicato explicou que um ofício foi protocolado apontado todas as irregularidades nas unidades e enviado para o Secretário de Estado e Segurança Pública (na época), Fábio Galindo, mas que não obtiveram resposta. “A situação está realmente muito crítica. É preciso aumentar o orçamento da Politec, porque com o atual não dá para comprar os materiais básicos para o perito realizar os trabalhos”, acrescenta Trindade.
Leia mais: IML só consegue atender 30% das perícias em Mato Grosso
O servidor do IML, Valter Ferrari relatou com exclusividade ao Circuito Mato Grosso que apenas dois rabecão estavam aptos a atender ocorrências em Cuiabá. “Se acontece mais que duas ocorrências em locais distantes, uma delas será prejudicada pela demora, porque não tem profissional nem equipamento para ir buscar o corpo”.
O IML de Cuiabá possui há dois anos um aparelho de Raio X que não funciona por falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para os técnicos. O técnico também apontou o pequeno quadro de pessoal para atender as ocorrências. O setor de antropologia atende todo o Estado nas questões de corpos ‘esqueletizados’ ou carbonizados, mesmo com equipe reduzida e na época da matéria, 18 corpos vindos do interior já estavam no local aguardando analise.
O Ministério Público Estadual entrou com ação contra o Governo do Estado, após uma denúncia feita na ouvidoria do MPE relatando problemas estruturais no prédio do IML de Cuiabá. A ação elenca problemas como “goteiras; infiltrações; vazamento de água; rachaduras na laje; sanitários entupidos; mau cheiro; proliferação de insetos, entre outros”, o documento destaca ainda que o prédio em questão pertence ao Estado de Mato Grosso, sob a guarda da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), a quem cabe a sua manutenção e adequação às normas vigentes.



