Opinião

A mesa que ninguém senta mais.

 Entre gritos e sussurros, meus pais me ensinaram que discordar de alguém não precisa ser motivo para deixar de sentar à mesma mesa.

Na casa dos meus pais, o jantar começava sempre com a mesma pergunta: o que você aprendeu na escola hoje. E eu, que era um nerd convicto, respondia com uma precisão quase irritante, matéria por matéria. O interessante era que, em disciplinas como história, meus pais sabiam mais do que eu. Os dois eram muito inteligentes, cada um à sua maneira, e o mais curioso é que essa inteligência vinha acompanhada de visões praticamente antagônicas sobre tudo. Meu pai, médico e ex-militar, dava a opinião dele sobre a notícia do jornal com uma calma de lorde inglês. Minha mãe, socióloga e empresária, discordava do jeito completamente oposto: pequena, ligada no 220 volts, quase esperneando de tanta convicção. Ali ficavam os dois, num lado do espectro cada um, ele impassível, ela pirotécnica, discutindo política com o garfo na mão, na frente de um filho que prestava atenção em cada palavra.

O contraste era, sinceramente, hilário. Minha mãe gritava o argumento inteiro, batia na mesa às vezes, e meu pai respondia baixinho, quase sussurrando, como se estivesse tomando chá em algum clube britânico do século passado. O volume dos dois nunca combinava com o conteúdo. Ela parecia estar perdendo a discussão pela intensidade. Ele parecia estar vencendo só por não levantar a voz. E no fim, nenhum dos dois vencia nada, porque a discussão nunca teve esse objetivo. Era só o formato de conversar deles.

Demorei anos para entender que aquilo ali era uma aula que eu não sabia que estava fazendo. Eu aprendia, sem perceber, que dava para ser muito inteligente e discordar de alguém igualmente inteligente sem que isso virasse guerra. Que uma opinião contrária, mesmo gritada, mesmo sussurrada de volta com toda a calma irritante do mundo, não precisava terminar em ruptura. Isso não estava em nenhum boletim escolar, mas foi, talvez, a matéria mais bem ensinada da minha infância.

Hoje eu penso muito nessa diferença: existe discordância de opinião, de leitura de mundo, de interpretação de fato, que é só isso, opinião. E existe posição que fere a dignidade de outro ser humano, que para mim já não é mais opinião, é outra categoria de coisa. Meus pais discordavam sobre a primeira categoria o tempo inteiro, com toda a intensidade britânico-vs-220-volts que vocês já conhecem. E mesmo discordando todo santo dia, nenhuma dessas discussões nunca precisou de reconciliação, porque nenhuma delas cruzava a linha que hoje eu levo muito a sério.

Semana que vem eu conto o que eu acho que aconteceu com esse treino de discordar sem romper. Hoje fica só o registro: minha mãe gritava, meu pai sussurrava, e a mesa continuava lá no dia seguinte, inteira.

@enricopierroofc

Enrico Pierro

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