Opinião Renato Paiva

  Duas e vinte 

Sonho que acordei. São 2h20 da manhã. Parece que estou em uma pensão. Noto que o colchão é de palha, daqueles utilizados antigamente na roça. Faz barulho a cada movimento. Pela porta meio aberta, vejo que dois amigos meus passam pelo corredor. Em seguida, saem de carro. Ouço o barulho do motor, sei que é um fusca.

Saio para a rua. Está deserta. Ando aí coisa de um quarteirão e vejo um homem. Estou convencido de que é ladrão. Volto imediatamente para a pensão. 

Da porta, vejo que há um ponto de ônibus em frente. A rua agora está movimentada. Tem muita gente lá. Alguns homens estão usando terno e gravata. Estranho que homens de terno e gravata estejam esperando ônibus às duas da manhã. Penso que podem ser advogados indo para os escritórios ou crentes buscando suas igrejas. Fico com a primeira impressão, porque noto que não carregam Bíblias.

Entro. Deparo-me com o dono da hospedaria, que no sonho é meu conhecido. Agora não me lembro de quem seja. Meio sorrindo, fala que já é muito tarde. Ia explicar que não estava chegando, mas resolvo deixar pra lá.

Encontro minha mãe. Está com a cara inchada como quem chorou muito. Estamos um pouco constrangidos um com o outro. Diz-me que já é tarde e que eu deveria estar dormindo. Explico que perdi o sono. Ela recomenda um comprimidinho de que faz uso, garantindo que é “tiro e queda”. Recuso. Digo-lhe que não precisa, vou deitar de novo e, com certeza, dormir. Estranhamente, não me admira que ela esteja acordada àquela hora. 

Acordo. Olho no relógio. São duas e vinte. Vou ao banheiro e volto pra cama. Estou sem sono. Lembro do sonho e começo a fazer essa crônica na cabeça. Está difícil, as ideias não aparecem. Busco um latido de cachorro na madrugada ou um improvável canto de galo neste caos urbano, para embelezar o texto. Nada escuto, tudo é silêncio.

Preocupações do cotidiano invadem minha cabeça e espantam o sono. Tento bani-las. Resistem. 

Olho o relógio, são três e meia. Continuo sem sono. Ouço o barulho de uma ambulância passando na rua. Ela desvia meus pensamentos por algum tempo. Penso que agora vou dormir.

Cinco horas. Já não compensa mais dormir. Posso perder a hora de levantar. Convenço-me de que não teria grande importância, não há nenhum compromisso inadiável marcado pra hoje. O mundo não vai parar porque não acordei. Mesmo assim não durmo.

Às 7 e meia acordo e não sei quanto tempo dormi. Estou cansado, mas sem sono.  Quero descobrir por que minha falecida mãe estava chorando no sonho. Não acho resposta. 

Intriga-me também que na realidade e no sonho o relógio marque duas e vinte. Coisa de sonho é complicado. Dizem que Freud explica, mas a gente não entende. Pudera, ele fala alemão. 

É melhor ir trabalhar, antes que minha filha acorde e pergunte o que ainda estou fazendo em casa a essa hora. 

Renato de Paiva Pereira

Renato Paiva

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