Olinda Altomare Opinião

Coco Antes de Chanel

Dirigido por Anne Fontaine, não é apenas um filme sobre moda. É, sobretudo, um filme sobre uma mulher que se recusou a aceitar o lugar que o mundo havia escolhido para ela. Antes de existir a Chanel que conhecemos — símbolo de elegância, sofisticação e modernidade — existiu Gabrielle, uma menina órfã, uma jovem costureira, uma mulher que cantava em cabarés e que aprendeu muito cedo que depender dos outros significava, de alguma maneira, abrir mão da própria liberdade.

É justamente nesse caminho anterior à fama que o filme encontra sua maior beleza. Gabrielle não nasce pronta. Ela se constrói. E penso que é essa a palavra que melhor defina sua trajetória: construção. Coco transforma a própria inadequação em força, a pobreza em criatividade, a rejeição em independência. Em uma sociedade que esperava das mulheres delicadeza, submissão e ornamentação, ela escolhe o contrário: roupas mais simples, tecidos confortáveis, calças, cortes masculinos e uma elegância que não precisava pedir licença para existir. Sua revolução começa no corpo, mas termina sendo uma revolução de comportamento.

Audrey Tautou encontra nessa personagem uma de suas interpretações mais delicadas. Há muito pouco de exuberância em sua Coco; ao contrário, Tautou trabalha principalmente com o olhar, com os silêncios, com pequenos movimentos e uma espécie de dureza contida. É como se Gabrielle estivesse sempre observando o mundo antes de decidir como enfrentá-lo. A atriz consegue revelar simultaneamente a fragilidade e a obstinação da personagem, fazendo com que a transformação de Gabrielle em Coco aconteça quase diante dos nossos olhos. A própria Anne Fontaine contou que trabalhou com Tautou justamente essa evolução, desde a jovem ainda sem refinamento até a mulher que passa a encarnar o chamado chic francês.

Benoît Poelvoorde, como Étienne Balsan, acrescenta ao filme uma presença mais irônica, mundana e ambígua, enquanto Alessandro Nivola, como Arthur “Boy” Capel, representa algo diferente: não apenas o amor, mas o homem que consegue enxergar naquela mulher algo que ainda estava começando a nascer. A relação entre Coco e Capel é especialmente importante porque revela uma das grandes contradições da personagem: ela deseja amar, mas não aceita que o amor seja sinônimo de renúncia.

Coco não quer ser escolhida. Ela quer escolher.

Tecnicamente, Coco Antes de Chanel é um filme de grande elegância visual, coerente com a própria personagem. A fotografia de Christophe Beaucarne trabalha com uma paleta sofisticada e uma câmera que frequentemente observa mais do que explica, valorizando os ambientes, os tecidos, os contrastes entre o preto e o branco, o campo francês e os espaços aristocráticos. O figurino de Catherine Leterrier é, naturalmente, um dos grandes protagonistas da narrativa — e a Maison Chanel abriu seus arquivos e coleções para a produção, inclusive para a sequência final.

A trilha sonora de Alexandre Desplat acompanha essa transformação com discrição e lirismo. Em vez de competir com as imagens, a música cria uma atmosfera delicada, quase melancólica, que combina com a trajetória de uma mulher que está sempre entre aquilo que perdeu e aquilo que ainda deseja conquistar. A fotografia, os figurinos e a música parecem conversar entre si: tudo é elegante, mas existe por baixo dessa beleza uma certa solidão.

E essa talvez seja a grande força simbólica do filme: Coco Chanel não inventa apenas uma maneira de vestir; ela inventa uma maneira de existir.

Sua revolução está em perceber que elegância não precisa significar sofrimento. Que uma mulher não precisa apertar o próprio corpo para ser admirada. Que beleza pode coexistir com conforto. Que simplicidade pode ser mais poderosa do que excesso. E que, muitas vezes, aquilo que chamamos de estilo nada mais é do que a coragem de sermos fiéis àquilo que somos.

A lição que fica é profundamente atual: não precisamos transformar aquilo que nos torna diferentes em uma fraqueza. Podemos transformar nossa diferença em identidade. Coco aprendeu a fazer isso com as roupas, mas a metáfora ultrapassa a moda. Há momentos em que a vida nos oferece um molde pronto, esperando que simplesmente nos encaixemos nele. O filme nos lembra que também podemos rasgar o molde, reinventar a forma e criar uma roupa que finalmente nos sirva.

Porque, no fundo, Coco Antes de Chanel não fala sobre como uma mulher se tornou famosa. Fala sobre como ela aprendeu a não desaparecer dentro das expectativas dos outros.

A verdadeira elegância: ter coragem de ser quem se é, mesmo quando o mundo ainda não está preparado para reconhecer a beleza dessa escolha.

Vale a pena assistir.

@aeternalente

Olinda Altomare

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Olinda Altomare é magistrada em Cuiabá e cinéfila inveterada, tema que compartilha com os leitores do Circuito Mato Grosso, como colaboradora especial.

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