Operação Gemini identifica saques de R$ 3,2 milhões, repasses do agronegócio e aquisição conjunta de apartamento de luxo; magistrado acumula R$ 16 milhões em bens
As investigações da Polícia Federal (PF) revelaram que o desembargador afastado Dirceu dos Santos teria montado uma complexa engenharia financeira e patrimonial para lavar o dinheiro oriundo de supostas vendas de sentenças no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). Para operacionalizar o esquema, o magistrado contaria com a ajuda direta do deputado estadual Faissal Calil (PL).
O organograma do suposto crime foi desenhado a partir do cruzamento de dados extraídos de celulares apreendidos, relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e informações compartilhadas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Segundo a PF, Faissal — que trabalhou no gabinete do desembargador entre 2017 e 2018, antes de assumir o mandato parlamentar em 2019 — era a pessoa de extrema confiança de Dirceu. Ele atuaria como um intermediário blindado, responsável por dar aparência de legalidade ao dinheiro ilícito.
O rastro do dinheiro: de saques em espécie ao agronegócio
A quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados expôs movimentações financeiras totalmente incompatíveis com as rendas declaradas. Entre os principais achados da investigação, destacam-se:
- Dinheiro Vivo: A PF rastreou um volume assustador de depósitos e saques realizados em espécie que, somados, ultrapassam a marca de R$ 3,2 milhões.
- O Elo com o Agro: Foram identificadas transferências financeiras sem qualquer justificativa comercial aparente. O dinheiro partia de empresas ligadas ao agronegócio que possuíam disputas judiciais milionárias tramitando sob a caneta do TJMT.
- Despesas e Imóveis: O parlamentar supostamente pagava despesas cotidianas da família do magistrado e operava negociações imobiliárias em nome de terceiros.
- A Permuta Suspeita: O elo patrimonial mais evidente entre os dois é um apartamento de luxo avaliado em R$ 1 milhão, localizado no Edifício Vila Real, no bairro Duque de Caxias. Nos registros, o imóvel aparece como adquirido “por permuta” em uma transação feita em conjunto pelo desembargador e pelo deputado.
O significado da “Operação Gemini”
A operação foi batizada de “Gemini” (gêmeos, em latim) após os investigadores encontrarem esse exato termo na agenda telefônica do lobista do esquema, utilizado para identificar o operador financeiro do gabinete.
No escopo da inteligência policial, o nome resume perfeitamente a dinâmica criminosa apurada: uma atuação em “coautoria funcional”.
A dualidade simbiótica: Enquanto o desembargador operava no plano formal do Estado, exercendo seu poder de jurisdição e assinando as sentenças, o deputado atuava como seu “gêmeo” no submundo. Faissal seria o espelho financeiro na esfera informal, encarregado de captar os subornos, ocultar o patrimônio e lavar os ativos.
O desembargador Dirceu dos Santos está afastado de suas funções desde março por determinação do CNJ. Atualmente, o seu patrimônio declarado é avaliado em mais de R$ 16 milhões, cifra considerada absolutamente incompatível com os vencimentos lícitos recebidos ao longo de sua carreira na magistratura.


