Opinião Renato Paiva

 Caipira e metódico

Corre à boca pequena no meu ecossistema familiar que eu seria um velho metódico. Tudo começou, eu acho, pela observação do meu hábito “quase secular” de dormir e acordar sempre à mesma hora e de ler, sentado na mesma poltrona, o jornal impresso que recebo em casa todos os dias. 

É verdade que desenvolvi outras manias durante a vida. Entre elas o hábito de ir ao escritório diariamente (primeiro dia do ano, carnaval, sexta-feira santa, feriados, dias santos ou natal) e lá ler os jornais digitais que assino e os sites de notícias. Mas é pouco, os leitores hão de concordar, para justificar esta depreciativa classificação.

Não nego que tenho outros horários fixos: às dez da manhã subo 60 degraus e, sentando-me no mesmo lugar tomo um café sem açúcar e como dois pães de queijo (nunca um ou três). À tarde — às 16 horas — repito a subida dos mesmos lances de escada, agora para tomar um café.

Pode ser que essas recorrências acrescidas de algumas outras, deem munição para me chamarem de metódico. Mas de Velho Metódico?  “Agora, que que êsse?” Eu só tenho 79 anos. Sou tão moderno que na semana passada aprendi, com minhas netas, a “farmar aura”. 

Dizem também os mesmos fuxiqueiros que sou um caipira que não viaja nunca, o que não é verdade: nos últimos 40 anos fiz três viagens. 

Mas elas ultimamente têm me dado boas alegrias. Nesta semana mesmo fiquei muito feliz vendo minha mulher atarefada arrumando as malas, enquanto eu, tranquilo, mantinha a rotina em meio aos alvoroços da preparação.

Dois dias depois, uma mensagem vinda da Europa aumentou meu prazer. Lá fazia frio e o tempo estava nublado e feio, enquanto aqui o céu limpo e o sol forte alegravam o dia. 

Ainda teve um zap informando que na manhã seguinte iriam para tais e quais pontos turísticos. Fiquei eufórico só de pensar que eu, não estando lá, não precisava acordar de madrugada para pegar uma van, onde os guias turísticos com suas piadas sem graça, fariam rir os passageiros. Também saber que estes guias os levariam a lugares manjados, sempre cheios de gente, para comprarem souvenirs que lotariam suas malas na volta e chegando em casa não saberiam onde colocá-los.  

Meu pessoal não se conforma com minha ojeriza a viagens . Não é possível comentou um deles:

— Você não tem vontade de ir ao Louvre ver A Mona Lisa?

— Claro que não. Ficar duas horas na fila e tirar uma foto para mostrar que estive lá?

— Deve ser porque Paris é muito longe e a viagem cansativa. Se o Louvre a trouxesse para uma exposição em São Paulo, você iria vê-la?

— Nem pensar. Respondi.

 — E se o quadro fosse exposto em Cuiabá, aqui no centro de eventos do seu hotel? Insistiu o parente.

— Aí eu iria dar uma olhadinha, mas só “dipois” que o público tivesse ido embora. 

Mesmo caipira e metódico tive sim, três dias de prazer intenso nas “andanças” que fiz. Foram os momentos em que, voltando a Cuiabá, confirmei que a alegria de voltar quase compensou o aborrecimento da viagem.

Renato de Paiva Pereira.

Renato Paiva

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