Sydney Sweeney levou um soco no rosto durante as filmagens de Christy. Não foi coreografado, não teve dublê, não teve acolchoado de proteção. Foi um soco de verdade, em contato total, filmado com câmera ligada. Ela sofreu uma concussão e continuou. É o tipo de comprometimento físico que a produção exigiu para contar a história de Christy Martin, boxeadora que revolucionou um esporte dominado por homens nos anos 1980 e 1990.
Dirigido por David Michôd (O Rei, The Rover), o filme estreou no Brasil em plataformas de compra e aluguel. Sydney Sweeney interpreta Christy Martin em uma transformação física considerável, resultado de três meses de preparação intensa.
A mulher que o esporte esqueceu
Sydney ficou surpresa quando descobriu a história. “Nunca tinha ouvido falar dela. Ninguém falava sobre essa mulher. E eu pensei: essa é provavelmente uma das pessoas mais importantes que vou poder interpretar”, diz ela em entrevista ao Estadão.
A história de Christy Martin é realmente extraordinária. Vinda de uma cidadezinha na Virgínia Ocidental, ela descobriu um talento excepcional para o boxe no fim dos anos 1980 e se tornou uma das primeiras mulheres a conquistar destaque real no esporte. Mas, enquanto sua carreira decolava sob a orientação de Jim Martin – que logo viraria seu marido -, Christy enfrentava batalhas ainda mais brutais fora do ringue, com uma história intensa de abuso físico e psicológico.
O filme não romantiza essa jornada. David Michôd constrói o retrato de uma mulher dividida entre a força que demonstrava no ringue e a vulnerabilidade de um relacionamento abusivo que quase lhe custou a vida.
Para dar vida à boxeadora, Sydney passou por uma transformação que vai muito além de figurino e maquiagem. Foram três meses intensos de preparação física: treinos com preparador físico duas vezes ao dia, três horas diárias com treinador de boxe e acompanhamento nutricional rigoroso. O resultado? 16 quilos de músculo puro – e, é claro, um enredo para tentar indicações na temporada de premiações, o que acabou não decolando.
Ela explica, porém, essa necessidade de transformação para viver a personagem. “Eu sou atriz porque amo me transformar em outras pessoas”, diz. “Poder me transformar fisicamente nesse nível foi um sonho. E eu amei como me senti forte.”
A atriz tinha alguma experiência antes disso, já que praticou kickboxing por sete anos. Mas o desafio aqui foi diferente. Cada luta mostrada no filme é uma réplica exata de combates reais de Christy Martin, com os mesmos golpes, as mesmas combinações, os mesmos nocautes. E foram filmadas com contato total.
Sydney reforça a responsabilidade que sentiu. “Eu queria ter certeza de que seria uma transformação não apenas emocional, mas também física. A história de Christy é tão importante. Eu sabia o peso que estava carregando nos meus ombros”, afirma.
Um dos elementos mais preciosos da produção foi poder contar com a própria Christy Martin no set. Sydney revela que as duas se tornaram grandes amigas durante o processo.
“Foi assustador e um privilégio conhecer a pessoa real da história. Ela vinha nos visitar no set o tempo todo. Era tão inspirador poder trocar ideias com ela”, conta.
A atriz aproveitou para perguntar detalhes técnicos para a boxeadora durante as cenas de luta. “‘Ei, você realmente se movia assim? Como estou indo?’ E ela respondia: ‘Você tem de acertar com força'”. E ouvia Christy gritando de empolgação nas cenas de combate, mesmo sabendo como tudo terminaria. “Ela dizia: ‘Isso parece tão real!'”, relembra.
Múltiplas camadas de uma mesma mulher
Além da transformação física, Sydney precisou navegar pelas complexidades emocionais de uma mulher dividida entre quem era e quem precisava parecer ser. A atriz reflete: “Como seres humanos, todos temos múltiplos lados de quem somos. Foi mais uma questão de descobrir todas as diferentes camadas de quem Christy era”, diz.
Essa multiplicidade é talvez o grande trunfo do filme. Christy funciona como um “cavalo de Troia”, como definiu Ben Foster, que interpreta Jim Martin. Apresenta-se como uma história de resiliência esportiva, mas mergulha sem filtros na violência doméstica e na fragilidade masculina que alimenta esse tipo de abuso.
A química entre Sydney e Foster foi fundamental para as cenas mais difíceis – filmadas logo na primeira semana de produção, em ordem reversa à cronologia da história. Durante as filmagens, a equipe criou um mantra: “Vamos ser fortes como Christy”.
Sydney, que está passando por uma onda de polêmicas e questionamentos, diz que incorporou isso em sua própria vida e espera que o público faça o mesmo. “Espero que, quando as pessoas assistirem, talvez a força dela possa ser transmitida para outros. Ela é super inspiradora.”
Quando questionada sobre a importância do filme para sua carreira, Sydney foi categórica. “Christy será provavelmente o papel mais importante da minha vida.”



