Cidades

Transfobia institucional tira oportunidades de estudo e trabalho de travestis e transexuais

A expectativa de vida de uma pessoa transexual, no Brasil, é de 35 anos. Além de matar, a transfobia tira oportunidades de uma parte da população que busca por respeito e reconhecimento. Valentim Felix, 29 anos, é integrante do coletivo Ótima (Organização de Trans Identidades Masculinas de Mato Grosso) e conta que o grupo busca acolher e lutar por políticas públicas destinadas à essa parcela da sociedade.

Transgêneros são as pessoas que não se identificam com as características biológicas que possui desde o nascimento. Ele pode ter nascido em um corpo feminino, mas se percebe enquanto homem e vice-versa. Isso é identidade de gênero que é diferente de orientação sexual. Este último se refere a atração afetiva e sexual do indivíduo.

Há quase quatro anos, Valentim fez a sua transição. Criado em uma família religiosa, entre seus 16 e 21 anos, ele entrou e saiu de conventos, por não se aceitar. Com o que o padre falava em sua mente, ele acreditava que seria castigado por Deus e acreditava que seus sentimentos eram errados.

Após uma luta consigo mesmo, para compreender a si e seus sentimentos, ele viveu “uma vida dupla” por um período. “Na UFMT eu era o Valentim, mas em casa não. Foi muito difícil no início! Meus pais compreendem que a religião é o amor, independentemente de qualquer coisa. Então eles não poderiam me renegar”.

Desde 2015, quando fez sua transição, ele passou a buscar entender mais do movimento e da luta pelos direitos dos transgêneros. Há pouco tempo funcionando em Cuiabá, a Ótima visa criar políticas públicas para apresentar ao Governo do Estado, em busca de uma melhor qualidade de vida aos homens transexuais.

Atualmente, 63 homens estão ativos no grupo do coletivo. Segundo Valentim, uma das principais lutas do momento é a construção de um ambulatório trans. Um local com atendimento psicológico, ginecologia, urologia, endocrinologia, entre outros, com profissionais que conversem entre si e compreendam o processo de transição.

“Precisa de uma equipe multidisciplinar que entenda o assunto. Nós vamos contar as nossas vidas para eles e não queremos um médico que chegue e fale ‘não vou te dar hormônios, porque eu acho que você não é trans’”.

A Ótima acolhe busca acolher e ajudar aqueles que não tem para onde ir, trocam informações sobre a transição, como o uso da testosterona, sobre as mudanças no corpo e desabafos sobre suas vidas e famílias.

Transfobia

Há relatos de mulheres transexuais, com mais de uma formação acadêmica, que não conseguem oportunidades de emprego e acabam se prostituindo para sobreviver. Valentim questiona quantas pessoas trans consegue, sequer, concluir a educação básica. “Quando ela chega no mercado de trabalho, o mercado exige uma qualificação, mas ela não terminou nem os estudos”.

Ele explica que essa falta de oportunidades desde o estudo é culpa da transfobia institucional. As maiores vítimas, pode-se dizer, são as mulheres transexuais e as travestis. “O homem trans, quando passa pela infância dita como feminina tem as falas ‘é uma menina meio machinho. Com as mulheres trans e as travestis é mais violento por conta do machismo”.

Valentim esclarece que no período escolar, quando muitas já começam a não se identificar com suas características biológicas, as crianças começam a ser cobrada pelos professores, por outros alunos. A família é acionada e muitas vezes descobrem que seus filhos trocam de roupa e usam maquiagem no ambiente escolar.

Todos esses acontecimentos faz com que a criança comece a reprovar por falta, por notas, até perder completamente o interesse e abandonar a escola, e buscar um emprego.

Ao chegar no mercado de trabalho, há questionamentos sobre quais vestimentas usar, qual nome coloca no currículo, como funcionará as questões de uso dos banheiros e se será respeitado.

“Se ela sai do emprego, tudo pode recomeçar e por isso muitas acabam parando na prostituição, que já é um lugar dado. O problema não é a prostituição, o problema é só ter essa opção”.

Valentim questiona quantas pessoas transexuais se vê diariamente em um atendimento ao público. As que estão, se passam por cisgêneros (pessoas que se identificam com suas características biológicas) por já terem feito cirurgias, usado hormônios de boa qualidade, entre outros fatores, que envolve muito investimento.

“O preconceito prejudica. As vezes descartam uma pessoa qualificada apenas porque ela não tem a identidade de gênero que acham que ela deveria ter”.

O Brasil é um dos países mais violentos para pessoas transexuais. São violências “simples”, como o uso de um banheiro em locais público ou de trabalho, até um espancamento ou morte que afetam a vida dessas pessoas.

Ótima instagram e poodcast

Parada da Diversidade Sexual de Cuiabá

“Somos muitos, podemos estar em qualquer profissão” é o tema da Parada LGBTI que ocorre no mês de novembro, em Cuiabá.

O tema reflete uma necessidade da população LGBTI. O preconceito que gera a falta de oportunidades no mercado de trabalho, atingindo, principalmente, as travestis e os transexuais.

“Os poderes tem que pensar nas políticas públicas de inclusão, até porque os LGBTS também pagam impostos, temos direitos. Por isso, esse ano vamos despertar os poderes para as nossas causas, queremos empregos, aposentadoria, garantias”, diz Clovis Arantes, coordenador geral da parada.

Para o presidente do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual, Valdomiro Arruda, o significado do tema é emblemático, pois destaca o espaço no mercado de trabalho que a sociedade LGBT+ vem procurando, saindo da informalidade e passando para valorização com garantia dos direitos, “Estamos lutando para ter carteira assinada, temos a capacidade de sermos advogados, médicos, engenheiros. A sociedade tem que tirar este estereótipo que só conseguimos ser maquiador, cabeleireiro, cozinheiro, somos competentes, só precisamos de oportunidade”, ressalta Valdormiro.

A Parada da Diversidade Sexual de Cuiabá, acontece no dia 16 de Novembro à partir das 14 horas na Praça Ipiranga e a expectativa da organização para este ano é que 25 mil pessoas participem desta edição.

Redação

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Reportagens realizada pelos colaboradores, em conjunto, ou com assessorias de imprensa.

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