Uma tradição milenar que ainda assim é símbolo de inovação, vaidade e modernidade. Assim pode ser definida a tatuagem. Esse tipo de arte gravada no corpo ganha cada vez mais adeptos e admiradores de todas as partes do mundo por questões estéticas ou por expressar ideias e eternizar momentos marcantes das pessoas.

Um dos aficionados por tatuagem é o jornalista e blogueiro Caio Dias, de 24 anos. Ele tem seis artes espalhadas pelo corpo e conta que fez a primeira tattoo – uma tribal – para cobrir uma cicatriz causada por um acidente doméstico. Em um bate papo com o Circuito Mato Grosso, o jovem disse tomou gosto pelas tatuagens e que quase todas elas têm um sentido especial.
“Tirando a primeira, todas as outras têm um significado familiar. Tenho um rei e uma rainha que representa minha mãe e meu falecido pai. Também fiz uma árvore da vida, acompanhada de pássaros que seguem em direção a tatuagem da minha mãe. O sentido dela é que, independentemente da direção que eu voe, sempre voltarei para minha família e minhas raízes”.
Caio também eternizou na pele uma frase em latim e que significa “Seja Sua Luz Própria”. “É um lema para mim”, ressalta. O blogueiro ainda tem marcado na perna uma jogada clássica do astro americano de basquete, LeBron James, que também demonstra a paixão do jovem pelo esporte.

Quem também é fã de carteirinha das tattoos é a servidora pública Jackeline Rondon, 37 anos, que contabiliza nove pinturas no corpo. De acordo com a adepta, duas delas expressam todo o seu amor pela filha. “Todas elas são especiais porque marcam diferentes fases da minha vida. Mas as mais importantes são relacionadas à minha filha. Fiz a data de nascimento dela em algarismos romanos e também um conjunto de cactos, que representam as raízes nordestinas que ela tem”, explica.

A servidora ainda contou que tem tatuagens que remetem à sua religiosidade e ao seu modo de ser. "Tenho trechos de músicas e um terço tatuado na mão simbolizando a minha fé. Por fim, fiz uma coruja e um tigre, pois ambos têm características marcantes da minha personalidade, como sabedoria, força, coragem e independência”.

Por muito tempo, a tatuagem foi marginalizada pela sociedade por ser símbolo de rebeldia e também por estar associada ao mundo do crime. Porém, se tornou mais comum encontrar diversos estúdios pelas cidades e se deparar com pessoas, de diferentes etnias e classes sociais, com frases ou imagens marcadas no corpo.
Jackeline atribui o fato à popularidade da arte, cada vez mais crescente na população. “A sensação de repulsa que a sociedade tinha com a tatuagem está diminuindo muito em função da acessibilidade que o povo está tendo. É muito mais fácil e seguro fazer uma tattoo hoje em dia”.
A tatuadora profissional Sissa Foresti concorda com a afirmação e acredita que esse fenômeno é um sinal de que o estigma negativo em torno das tatuagens está deixando de ser cultuado.

“Essa difusão [da tatuagem] se deve a substituição do preconceito pela busca pela arte. As pessoas que gostam das pinturas buscam eternizar sentimentos, momentos especiais ou mesmo por questões estéticas. Felizmente, a relação entre a tatuagem e criminalidade tem feito menos parte do nosso cotidiano”.
Sissa, de 35 anos, recebeu a reportagem do Circuito Mato Grosso em seu estúdio, no bairro Jardim das Américas, em Cuiabá-MT, e relembrou que a paixão pela técnica surgiu ainda na adolescência. A profissional contou que decidiu trocar uma carreira consolidada na área em que trabalhava para mergulhar de cabeça no mercado artístico, na tentativa de busca da satisfação pessoal e profissional.
“Sou formada em fisioterapia desde 2010 e trabalhei por cinco anos na área. Mas, chegou uma época em que fiquei desanimada com a profissão. [Trabalhar com fisioterapia] Não estava me dando alegrias. Como sempre tive um relacionamento próximo com pessoas do mundo da tatuagem, decidi arriscar. ‘Meti a cara’ e descobri que o hobby poderia ser uma fonte de renda”.

A transição, segundo a artista, não foi fácil. Ela destaca que passou oito meses se dedicando a especializações para atuar na área e que participa regularmente de eventos para aperfeiçoar e conhecer novas técnicas. “Tive dificuldades, o que é normal no início. Após os cursos realizados, comecei a treinar desenhando no papel, para conhecer melhor a própria mecânica e aprender a fazer traços. Em seguida, passei a praticar em pele de porco, comprada em açougue, com todos os materiais usados para fazer a tattoo verdadeira, antes de passar a fazer na pele humana”.
A tatuadora disse que os jovens são os principais adeptos da arte. Contudo, ela garante que a pintura de imagens na pele não fica restrita apenas a essa faixa etária. “Já atendi uma pessoa de 76 anos”, frisou. De acordo com Sissa, que também trabalha com a colocação de piercings, os desenhos mais solicitados pelos seus clientes são frases e desenhos minimalistas.
Importância de fazer as tattoos em locais seguros
Por se tratar um procedimento invasivo e agressivo contra a pele, é importante conhecer o profissional e todos os equipamentos que serão utilizados no procedimento. “É fundamental observar se os materiais são esterilizados ou descartáveis e também que o tatuador abra os instrumentos na frente do cliente, pois se trata de um trabalho no qual o consumidor pode adquirir infecções, bactérias ou, até mesmo, doenças transmissíveis”.
Pensa em fazer, mas não tem coragem?
A tatuadora encoraja os indecisos que admiram a pintura no corpo, mas que, por alguma razão, sentem receio em fazê-la. “Quantas vezes deixamos de fazer algo por achar que não estávamos prontos? Nós nunca estamos prontos para nada. Ficamos prontos durante o caminho, porque é nele que vamos aprendendo. Então, se você pensa em fazer, não tenha medo. Se jogue, tenha atitudes positivas e não deixe nada para amanhã”.
O que representa a tatuagem
Sissa enfatiza que a tatuagem é a sua grande paixão e que se sente plenamente realizada por marcar a pele das pessoas com as suas obras. “Tatuagem é colocar o coração para o lado de fora. É exteriorizar sentimentos, pensamentos, amores e momentos que fazem parte da nossa história. Todo traço que sai da minha mão é feito com muito amor”.

“Há uma troca verdadeira entre mim e os meus clientes. Durante todo o processo, costumamos conversar e eles acabam contando o significado da tatuagem, momentos e situações de vida […] Costumo dizer que essas pessoas deixam um pouco delas para mim e levam um pouco de mim para elas. Saber que vou ser lembrada daqui dez, vinte anos, cada vez que elas olharem para a tatuagem é uma realização. É a maior recompensa do meu trabalho”.
Origem e história
A origem da tatuagem remonta ao ano de 3.300 a.C., quando um cadáver oriundo da Idade do Cobre foi descoberto e apresentava diversas linhas em partes dos restos mortais. Os historiadores supõem que os desenhos teriam sido criados por meio da fricção do carvão em cortes feitos na pele.
Desde então, a história da arte no corpo cortou gerações ao longo da história, como os egípcios, em 2000 a.C., que faziam pinturas abstratas para atrair fertilidade e proteção, e os romanos, que utilizavam os desenhos para distinguir criminosos do restante da população. Mas, com o passar do tempo, a tatuagem passou a ser utilizada como uma forma de marcar símbolos de honra na pele dos soldados.
O nome é derivado do Taiti. Segundo relatos históricos, no século XVIII, um capitão inglês chegou na ilha da Polinésia e observou que os povos locais utilizavam conchas afiadas presas a varetas de madeira, fazendo com que a tinta penetrasse o corpo. Esse processo era conhecido como “tatau”. Acredita-se que o nome tenha dado origem ao termo tattoo, conhecido no mundo todo.



