Poucos bairros em Cuiabá possuem tanta variedade em culinária como o Boa Esperança. Ao longo da Avenida Alziro Zarur, conhecida como “Rua 1”, é possível notar uma infinidade de feiras e barracas com diversos pratos, lanches e doces a mostra.
Uma das barracas mais famosas é a do “Petisco Lanches”, comandada pelo casal Hélio da Silva Andrade, 55 anos, e Divina Souza Andrade, 51 anos. Eles trabalham no bairro desde 1998, quase todos os dias, e vendem centenas de hambúrgueres por mês para moradores, estudantes e visitantes do bairro.
Hélio conta que trabalha com lanches há mais de 30 anos, quando ainda morava em Torixoréu (569 km de Cuiabá-MT), sua cidade natal, e que atuar no ramo é um prazer. “Trabalho com baguncinhas desde 1987. Como sempre curti mexer com cozinha, gosto muito de fazer o que faço hoje. O meu hobby é trabalhar”, destaca Hélio.
A rotina é desgastante. Pela manhã, o casal vai ao mercado para comprar os produtos necessários para o comércio. Por volta das 16h30, eles engatam o carrinho de lanches no veículo do casal e seguem rumo ao tradicional ponto de vendas, próximo a uma das entradas laterais da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Chegando ao local, onde ficam entre 17h e 23h, Hélio e Divina arrumam mesas e cadeiras na calçada para, então, aguardar a clientela. As tarefas também são bem definidas. “Eu sou responsável pela chapa, enquanto ela cuida do atendimento e me dá auxílio na montagem dos lanches”, conta Hélio.

Mesmo com diversas atribuições manuais na preparação do local, eles contam que nunca pensaram em construir uma estrutura maior para vender suas delícias. “Se abríssemos uma lanchonete, pagaríamos muito mais impostos e, dessa forma, se tornaria inviável. Além do mais, já estamos estabelecidos nesse ponto, que tem um ambiente muito bom”, comentam.
Ele também destaca que a grande concorrência no bairro é um fator que os estimula a melhorar ainda mais a qualidade dos sanduíches.
O Circuito Mato Grosso acompanhou de perto uma noite de vendas da dupla. A conversa com o casal cozinheiro era constantemente interrompida, devido aos inúmeros pedidos realizados por grupos de colegas, que vão ao local matar a fome depois das aulas, e por famílias que aproveitam o tempo livre a noite para degustar lanches a preços populares.
Pelos cálculos dos comerciantes, cerca de 30 lanches são vendidos diariamente. Segundo Divina, o hambúrguer campeão na preferência é bem conhecido. “É o baguncinha clássico”.

A sintonia do casal é tão grande que eles foram unânimes na escolha da maior realização conquistada graças ao trabalho. Para Hélio e Divina, a educação dada ao casal de filhos – uma mulher de 28 anos e um homem de 26 anos – é o maior orgulho deles.
“Tudo que temos foi graças ao nosso esforço diário. Conseguimos, dessa forma, proporcionar uma boa educação aos filhos. Vê-los formados é motivo de alegria e muita satisfação para a gente”, destaca Divina.
Fenômeno crescente
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2018, mais de meio milhão de pessoas – 501,3 mil – em todo o Brasil vendem alimentos nas ruas.
O problema é que o fenômeno não se deve ao surgimento de uma corrente empreendedora no país, mas sim a uma tentativa de sobrevivência da população, por meio da informalidade. O lado negativo do mercado informal está justamente na falta de estabilidade para o trabalhador, que não tem os direitos de proteção social, seguro-desemprego, 13º salário e até a previsibilidade de renda.
Ou seja, os trabalhadores não registrados contribuem de alguma forma para reduzir o desemprego no Brasil e ajudam no crescimento econômico do país, de forma quantitativa, mas sem gerar melhorias na qualidade de vida.
Hélio e Divina fazem parte desta estatística e destacam que contratempos comuns no dia a dia podem comprometer muito as finanças do casal. “Temos que nos cuidar muito, por que se um de nós tiver algum problema de saúde, ficamos impossibilitados de trabalhar. E isso, consequentemente, afeta o nosso faturamento”.
Porém, mesmo com todas as inseguranças que esse tipo de ofício reserva, eles dizem que tomariam a mesma decisão de 21 anos atrás, quando começaram o comércio de lanches no Boa Esperança. “Se tivesse que voltar no tempo, talvez tivesse investido em cursos e capacitações relacionadas à área, mas garanto que faríamos a mesma coisa”, finaliza Hélio.



